O crítico Hans Ulrich Gum-brecht, em sua arqueologia do impresso, nos diz que o suporte livro enquanto criador de sensibilidades de leitura é somente uma invenção - e uma invenção datada. Gumbrecht identifica o surgimento da tecnologia de impressão, ainda no século 15, como determinante para a construção de certo domínio da literatura que se disseminou durante toda a Modernidade até os dias de hoje.
Neste processo, que é também um processo normativo, em linhas gerais, amarra-se o literário a uma tradição puramente escrita, tornando invisível, portanto, qualquer imaginação da literatura que não esteja estritamente ligada ao livro, suas possibilidades e também suas imposturas.
Acredito que a poética de Ricardo Corona possa ser lida a partir de seus outros suportes, daquilo que se solta do imaginário escrito, nesta descontinuidade. Do livro de poemas Corpo Sutil (Iluminuras, 2005) até seu recente livro-disco Sonorizador (Iluminuras, 2007), Corona vem intensificando toda
uma pesquisa em torno do
som: oralidade, ruído e voz. Nesta linha, vale mencionar também as performances de TÁVIVAALETRA, que realiza desde 2005 - onde o texto se desprende de seu registro escrito para ganhar outras dimensões no palco, no corpo. Aliás, muitos poemas gravados do Sonorizador aparecem destes trabalhos anteriores, tanto da escrita quanto da performance, como desdobramento de um processo.
Penso, então, que o som é o maior motivo da poesia de Corona hoje - há cinco anos, eu diria a imagem. Mesmo no papel - "no silêncio do livro", como diz uma das epígrafes de Corpo Sutil, segundo Rabearivelo - é evidente a forte presença de uma sonoridade que pede para ser lida, dita, repartida. Tanto em uma construção mais oral da língua, que encontra seu ponto alto na parte do livro intitulada Estilo de boca, quanto nos constantes choques sonoros entre as palavras - "t o d a t r i b o t a v a q u i / o n d é q u e t ã o" - aparece todo um projeto de linguagem que vai ao encontro do som, e de encontro ao som, nestes
espaços de
enlace.
Por vezes, o contato do poema com o som faz perder qualquer fim de sentido da língua, restando somente a sua música e, sobretudo, certo caráter lúdico que caracteriza a poesia como jogo e ritual. Neste ponto, é como se a escrita estivesse, de fato, se desprendendo definitivamente de sua finalidade comunicativa - Gumbrecht nos diz justamente que a invenção do livro inventa também uma função, a do autor, do signo mais ou menos estável - para ser somente som.
Ainda, Corona recupera cantos de tradição indígena e outras tradições orais para refazê-los, refazer a própria poesia, como os poemas sem significado de Sonorizador, poemas silabares, e ainda neste Baka, que também retorna no livro-disco: "palma da mão / baka / alma baka / na mão // palma da mão / baka / bate nágua / rebate nalma // alma baka / na mão / bate nágua / rebate nalma (...)".
Interessante anotar que as inserções de dicção oral, presentes em Estilo de boca, sempre marcadas com
itálico, aparecem intercalando um poema
de registro mais escrito, construindo um embate estrutural na página, portanto, como neste poema que segue - "a lua branca intercepta / reflexos // (eu sou um rabo e eles não podem com eu / eu levo o mundo inteiro) // na harpa ouro / do anjo nu". Trata-se - assim imagino - do fantasma de um modernismo mais nervoso se fazendo presente na poesia de Corona, através desta fala contingente, da construção do erro na língua, e mesmo no encontro de duas línguas, "da contribuição milionária de todos os erros".
É possível dizer, então, que deste Estilo de boca - estes poemas que são escritos para a voz, que pedem uma leitura, saem do papel - e, sobretudo, das performances de TÁVIVAALETRA, na intensificação desta pesquisa de Corona com o som, aparece o livro-disco Sonorizador.
É possível perceber uma dicção que se mantém, certamente, como na semelhança de escrita do novo Recall com Pessoa Ruim, de Corpo Sutil, ou mesmo em toda referência musical que sempre reaparece. No entanto,
neste novo trabalho há
também outros direcionamentos. Parecia inevitável que Corona saísse mais uma vez do livro.
Há mais ruído neste Sonorizador, mais percussão - e menos sentido ainda. O fato de ter o suporte do CD, certamente, fez com que Corona abandonasse ainda mais o registro escrito para explorar as possibilidades do som - de sua voz mesmo até a da cantora lírica Luciana Elisa Hoerner, passando por guitarra, piano, sintetizador, prego, máquina de datilografia, reco-reco, concha de ouvido, trombone, etc. O trocadilho do poema "livro-se" - "livre-se do silêncio do livro" - pode servir como síntese do projeto de linguagem deste livro-disco. Também acredito que seja um trabalho para ler/ouvir com humor.
A voz também é um elemento de ampliação e cuidado neste trabalho. Em muitos poemas é só a voz que mantém a música. Ainda, seja em uma sílaba mais prolongada ou em um corte mais abrupto, é na voz que oscila o sujeito, que se constrói um ritmo. No primeiro poema, Recall, como exemplo, é
possível perceber um modo
lento e até debilitado de dizer o texto, cansado mesmo, que marca uma subjetividade e aponta para o corpo desta voz que enuncia, finalmente. É outra escrita, então, que se faz, principalmente na relação e no embate entre o que se diz e como se diz.
Tungu ball talvez seja o poema de Sonorizador que mais represente todas estas questões. Trata-se, neste caso, de um procedimento antropofágico. As referências à fonética do inglês, expressões indígenas, interjeições e até mesmo, no meio de todo este som, ao Tzara dadaísta, convivem com o canto lírico e um dizer expressivo na leitura - este é um dos poemas que, definitivamente, são concebidos enquanto performance, assim como os cantos dos Yamanes e dos Comanche.
Aliás, este procedimento fronteiriço é característico, inclusive, da maneira de Corona conceber o seu trabalho, já que também não hesita em convidar músicos, artistas e escritores dos mais diversos lugares, como os compositores Paulo Demarchi e Roseane Yampolschi, a
artista visual Eliana
Borges, o desenhista Maxx Figueiredo e até mesmo o poeta Augusto dos Anjos, com o poema À Mesa.
Sonorizador, então, é também um trabalho sobre o próprio fazer, sobre o fazer com o som, o ritmo, da poesia à música, e que apaga da língua qualquer afirmativa - ou qualquer idéia, como em um dos versos deste livro-disco: "a idéia pesa na palavra" - para recuperar o que dela está mais próximo do puro jogo, de seu dispêndio.
Roland Barthes já dizia que a música, das artes, é a que mais se aproxima do vazio, e talvez, portanto, a mais leve. Ao sair do livro, Ricardo Corona parece, então, procurar justamente este aspecto mais líquido da palavra, mais livre. É literatura para ouvir a todo som.
* Ensaísta, bacharelando em Letras pela UFSC. É autor das narrativas de piano e flauta - fragmentos de um romance (Lumme Editor, 2007). Outros de seus textos podem ser lidos em www.literaturamenor.blogger.com.br
Grupo RBSDúvidas Frequentes | Fale conosco | Anuncie - © 2000-2007 RBS Internet e Inovação - Todos os direitos reservados.