Grupos franceses podem ter interesse na privatização do Aeroporto Hercílio Luz Anderson Fetter/

Foto: Anderson Fetter


O embaixador da França no Brasil Laurent Bili, que faz visita oficial ao Estado até amanhã, informa que três grandes grupos franceses podem se interessar em participar da disputa pela privatização do Aeroporto Internacional Hercílio Luz, de Florianópolis. São as empresas Vinci, Egis e Aéroports de Paris. Na entrevista a seguir, ele também fala sobre startups, parcerias na educação e turismo. 

Quais as principais razões da sua visita a Santa Catarina? 
Escolhemos a data da minha visita em função de dois eventos: os 60 anos da aliança Francesa em Florianópolis (sábado) e um convite da ENA Fundação Escola de Governo para um evento do final de curso (hoje). Santa Catarina é um dos Estados importantes do Brasil pelo PIB (6º maior do país), pela presença econômica francesa e pela situação econômica melhor do que em outros Estados. A Aliança Francesa em SC é dinâmica, tem uma programação cultural importante, é sempre bom dar mais visibilidade. Esse é um bom ponto entre as nossas culturas porque favorece também que as empresas venham para cá porque tem esse apoio do idioma. Também facilita aos estudantes continuar a fazer doutorado na França, o que ajuda o contexto de trabalho no Brasil junto a 877 empresas francesas no país atualmente. Hoje, as empresas francesas empregam no Brasil cerca de 500 mil pessoas. Entre as maiores estão as redes de supermercados Pão de Açúcar e Carrefour. Algumas têm 100% de empregados brasileiros, já fazem parte da vida do país. 

E como está a cooperação com a ENA Fundação Escola de Governo em SC? 
Essa cooperação com Santa Catarina existe há sete anos. A idéia da ENA (École Nationale D¿Administration) na França é para a formação de profissionais ao setor público com alto padrão. Conversamos com a diretora da instituição em Santa Catarina sobre a continuidade da cooperação. A ideia de criação da ENA francesa foi para reconstrução do país em 1945, após a Segunda Grande Guerra, unificando as forças, facilitando a formação de uma nova elite do setor público com exigência de qualidade. Hoje, graças aos cursos sobre inovação, os servidores públicos são muito abertos às novas tecnologias que favorecem a rapidez do serviço público. A ENA Santa Catarina pode receber estudantes de todo o Brasil. 

A presença de empresas francesas é forte em SC. Quais são as principais e há projeção de novos investimentos? 
A presença francesa é mais forte na energia. Temos a Engie Brasil Energia (ex-Tractebel) nessa área. Outras empresas importantes são a Saint-Gobain (Cebrace, de vidros) e a Flexicotton, esta que é a segunda da América Latina em produtos de algodão para higiene e acaba de abrir um escritório nos EUA. Temos uma forte presença hoteleira com a rede Accor. A economia de Santa Catarina sofreu menos com a crise do que outros Estados do país. Nesse contexto, gera mais interesse de empresas porque tem um índice de desenvolvimento melhor. Muitas vezes, eu como embaixador sou o primeiro a receber o contato de investidores, por isso para mim é importante conhecer os Estados que oferecem melhores condições para investir. No momento, não vou dizer que temos um projeto, mas há interesse especial em participar das privatizações, incluindo parcerias público-privadas (PPPs). 

Há algum projeto em especial em SC que interessa grupos franceses? 

Há um projeto de privatização em especial. Temos pelo menos três grupos franceses que podem mostrar interesse em projetos de privatização, como o do Aeroporto Hercílio Luz de Florianópolis. Esses grupos são o Vinci, o Egis e o Aéroports de Paris. Os três estão interessados em investir em infraestrutura no país. O grupo Vinci já manifestou interesse em entrar com força na privatização de aeroportos no Brasil. Santa Catarina e Rio Grande do Sul têm um poder melhor para atração de empresas. É nosso papel dizer que além de São Paulo há outras regiões para investir. 
Também temos parceria com a universidade de Santa Catarina (UFSC). Por ano, cerca de 150 engenheiros graduados no Estado estudam na França. Esse número poderia ser ampliado para 200. Vou falar com o reitor da UFSC sobre isso.   

Há projetos do governo na área de agricultura com a França. Inclusive haverá visita do presidente da Epagri, Luiz Hessmann, ao país esta semana... 
Nos últimos anos, essas parcerias tiveram algumas mudanças porque o número de regiões francesas foi reduzido. A visita do presidente da Epagri é importante para mostrar que há interesse nessa continuidade. Uma das empresas produtoras de ostras da Ilha de SC é de um descendente francês. Há também um acordo entre o Lycée Hôtelier de La Rochelle e o Instituto Federal de SC (IFSC). O foco que temos muito na embaixada e na economia é desenvolvimento sustentável, energia limpa, saneamento e cidades inteligentes. Temos interesses em projetos que permitam cumprir o que foi definido na COP 21, a conferência mundial do clima realizada em dezembro de 2015 em Paris. Na semana que vem vou abrir em Brasília uma conferência sobre combustíveis renováveis. Temos muitos projetos nesses setores, inclusive em startups.

Como está o desenvolvimento de startups na França? 
Pouco se fala sobre isso, mas nos últimos três anos o setor de startups na França tem crescido 50% ao ano. Temos vários exemplos de sucesso. Um é a Blablacar. Em Paris, no ano que vem, vamos ter um novo lugar para acolher startups e teremos um ticket para empresas estrangeiras. Startups catarinenses podem se interessar. Vamos abrir um lugar no centro de Paris com 30 mil metros quadrados, com possibilidade de receber mil empresas. Será num local histórico reformado. Se chama Freyssinet e promove a convivência do patrimônio histórico com a modernidade. 

Como as empresas francesas estão vendo o cenário econômico brasileiro? 
As empresas francesas estão no Brasil há muito tempo, veem os negócios no longo prazo e não houve nenhum caso de saída do país nesses três anos difíceis. Algumas estão aproveitando o momento para fazer novos investimentos. No ano passado, foram realizados mais de 1 bilhão de euros em investimentos no Brasil. A comunidade empresarial francesa avalia que o pior já passou e estamos num cenário de recuperação. Há otimismo para a volta do crescimento no ano que vem e um crescimento maior em 2018. No caso das montadoras, no começo elas sofreram porque vieram com modelos europeus. Agora, estão ganhando espaço com SUVs. 

E o acordo Mercosul-União Europeia?  
A União Europeia e o Mercosul têm interesses ofensivos e defensivos. Cada um tem que encontrar o caminho que permite aumentar o volume de negócios, sem a destruição dos seus setores econômicos. O Brasil está sendo muito defensivo nos setores de serviços e na área industrial. 

O fluxo de turistas entre Brasil e França é importante. Como tem evoluído ultimamente?
O número de turistas brasileiros na França era de cerca de 650 mil por ano.  Do outro lado, a França é um dos países mais emissores de turistas para o Brasil, cerca de 250 mil a 300 mil por ano. Os franceses têm um carinho particular com o Brasil. Mas um problema que conhecemos e que agora talvez seja recíproco é o de segurança. Um evento, mesmo isolado, afeta o turismo. No caso de visitas de brasileiros na França, acredito que a crise teve importância maior do que os eventos. Tivemos uma queda geral em torno de 10% no número total de visitantes no nosso país. Não sabemos dizer o que foi crise, o que foi em função dos atentados. Mas a França é a França e Paris é uma das cidades mais agradáveis do mundo, por isso esperamos que os brasileiros continuem nos visitando. O que pesa muito nas decisões de viagens é a cotação do dólar, mais do que a economia. Como está em torno de R$ 3,5, mais brasileiros estão voltando a viajar para a França.

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