"O avião do futuro já existe, é remoto", diz o presidente da GE do Brasil Divulgação/Expogestão

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Uso intensivo de internet das coisas, tecnologias disruptivas que combinam hardware e software para aumentar a produtividade. Esses e outros assuntos como o fato de que o avião do futuro já opera, serão abordados pelo engenheiro Gilberto Peralta, presidente da GE do Brasil em palestra na Expogestão. O conglomerado americano General Electric (GE) é um dos líderes mundiais para setores estratégicos como aviação e saúde e tem valor de mercado superior a US$ 250 bilhões. O evento em Joinville será de 9 a 11 de maio. Nessa entrevista, Peralta fala também sobre a importância da pesquisa e desenvolvimento e conta como chegou à presidência da unidade brasileira da companhia. 

A GE é apontada como líder em internet industrial. O que vem fazendo na área?

Na realidade, nós ainda não nos consideramos líderes globais na parte de internet industrial.  Achamos que trabalhamos em estágio bastante avançado, investimos pesado nisso porque queremos ser líderes. Criamos um centro de tecnologia na Califórnia e fizemos outros investimentos. Acreditamos que esse é o futuro. 

Outro destaque da GE é no uso de impressora 3 D. Como vê essa tendência?

 É uma revolução industrial silenciosa. Não aparece nas principais páginas dos jornais. Essa é uma revolução industrial de suma importância. A fabricação aditiva é uma revolução industrial porque vai revolucionar a velocidade de como se fabrica tudo. A gente está vendo só o início dessa tecnologia. Quando estiver desenvolvida, ela vai fabricar tudo, de óculos, próteses para cirurgias, peças de aviões, peças de carros. Esse é um negócio no qual estamos investindo pesado. Nos  últimos seis meses, compramos os dois maiores fabricantes de equipamentos para essa área e criamos um negócio dentro da GE para isso. Eu imagino que no futuro esse negócio vai ter vida própria porque é uma tecnologia revolucionária. 

A GE é uma das mais importantes fornecedoras para a indústria aeronáutica. Como está o uso da internet das coisas nos aviões?

Eu acho que uma das primeiras aplicações da internet das coisas foi na indústria aeronáutica. A razão é segurança. Em 1998 eu era vendedor de uma tecnologia que a GE tinha de sensoreamento remoto para monitorar motores de aviões. Era o início da internet das coisas, mas era para reduzir o número de acidentes e facilitar a manutenção de aviões para evitar falha mecânica. Eu vendi a primeira unidade na América Latina em 1999 para a TAM. É um investimento que começou por razões de segurança e hoje virou razão econômica. Você tem muito mais capacidade de fazer manutenção preventiva e não reparativa. Você para o avião quando quer para fazer manutenção. É um negócio impressionante que trouxe melhora de operação das empresas aéreas. Hoje é o que está sendo oferecido para indústrias em geral. Agora não por razões de segurança, mas por razões econômicas e financeiras. 

Como será o avião do futuro?

O avião do futuro já existe. É uma discussão que está acontecendo agora. O avião do futuro é remoto, opera por conta própria. Aqui é minha opinião. Nos últimos três acidentes que aconteceram, um deles é o da Germanwings, que caiu nos Alpes suíços em 2015. Esse é um exemplo de que se não tivesse piloto, o avião teria operado por conta própria e não teria se chocado na montanha. O piloto desligou o piloto automático e provocou a queda do avião. Ele se suicidou e levou mais de cem pessoas com ele. Essa tecnologia (operação remota) já existe. É utilizada nos drones operados desde Washington DC no Afeganistão e na Síria, por exemplo. Mas é difícil você convencer as pessoas entrarem num avião sem piloto. Isso vai demorar um pouco de tempo para mudar. Eu costumo usar um exemplo. Em 1980, quando surgiram os primeiros carros em Londres, achavam que era uma máquina incontrolável, ficavam com uma bandeirinha vermelha na frente para abrir espaço. Hoje você não concebe o mundo como naquela época. Precisa de carros modernos, veículos elétricos. Nos EUA já há carro sem motorista.  

Que conselhos o senhor dá para empresas que não aderiram a esse mundo conectado?

Quem não aderiu a isso perdeu. É o futuro, inevitável. Os tempos são outros. O conselho é que procurem a maneira de fazer o que eles fazem (mas com tecnologia) ou procurem outro negócio. Tem que evoluir. 

Na sua opinião, quais setores da economia serão mais intensivos no uso da internet das coisas?

Eu acho que o industrial em geral vai fazer muito o uso disso. A gente já vê isso na aviação que está sempre à frente em função da alta tecnologia, mas também por razões de segurança. É liderança total. Os sistemas médicos já demonstraram que há uma aplicação para isso muito grande. Eu cito o exemplo de um serviço que oferecemos ano passado durante a Olimpíada. Os atletas usavam uma pulseira. Quando eles entravam nas duas clínicas que instalamos no Parque Olímpico, o sistema da clínica já avisava quem era o atleta e já tinha todo o histórico que ele autorizou. Quanto ele sentava na frente do médico e dizia que estava com dor de barriga, o médico já sabia que ele tinha alergia a penicilina, não precisava fazer muitas perguntas. Ele já sabia muita coisa em função do Big Data na nuvem. É a aceleração do processo. É, por exemplo, gerenciar o sistema médico no hospital, é a produção em serie na indústria, é receber só a peça um minuto antes de usar. O setor de energia, por exemplo, vai utilizar muito essas tecnologias. Acabamos de oferecer para a Aneel o gerenciamento de todo o grid brasileiro. Quando você tem as turbinas eólicas do Nordeste com vento que acelera, o sistema de grid vê aquilo como uma carga de energia aumentando e fecha a comporta de Itaipu para armazenar água para usar quando não tiver vento no Nordeste ou sol, no caso de geração solar. Esses sistemas são inteligentes, eles evitam sobrecarga fazendo distribuição de energia. Nos EUA, nós (GE) instalamos em Manhattan cinco conjuntos de geração de energia elétrica. Isso depois que eles tiveram o último blackout. A energia de Manhattan vem toda do Norte e no horário de pico o sistema deles se sobrecarrega. Em vez de colocar mais linhas de transmissão, a opção foi colocar equipamentos dentro de Manhattan que atendem a hora de pico, dando mais segurança ao sistema. Tudo gerenciado por esses programas e essas novas tecnologias de informação. 

No Brasil, sempre se fala que um dos nossos problemas é o baixo investimento em pesquisa e desenvolvimento. Quanto a GE investe em P&D?

É complicado eu dar o nosso exemplo porque a GE começa com um cara que era isso, um cientista meio maluco, o Thomas Edison que tinha 1,6 mil patentes registradas, um dos que mais tinham patentes. A mais conhecida é a da lâmpada, mas não era a mais importante dele. Nós investimos muito em pesquisa e desenvolvimento. Temos, hoje, oito centros de pesquisas. O Brasil é um bom exemplo nosso. Temos junto à Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Ilha do Fundão, um centro de pesquisa inaugurado em 2014 - mas começamos a operar lá desde 2008 -  onde investimos US$ 250 milhões e estamos preparados para investir mais US$ 250 milhões quando a economia se ajustar. Estamos desenvolvendo nesse centro tecnologias de águas profundas, para aviação e para equipamentos médicos. Investimos em P&D na GE cerca de 10% da nossa receita bruta, algo como US$ 1,5 bilhão ou US$ 2 bilhões por ano. Eu concordo que o Brasil tem um problema. Acho que investe menos do que deveria em pesquisa, mas temos exceções. A Embraer, terceira maior fabricante de aviões do mundo, investe muito em pesquisa. Eles trabalham e têm tecnologia de ponta. Estão de igual para igual com a Boeing, a Airbuss e a Bombardier. Eu acho que a nossa agricultura também mostra isso. Todo o investimento do setor no Brasil, feitos nos últimos 20 anos via Embrapa e outras instituições, está mostrando que nos somos líderes. Hoje nós somos benchmarking em agricultura. Não é mais os Estados Unidos porque se investiu muito em pesquisa. Isso mostra que o investimento em pesquisa e desenvolvimento é crucial para perenizar o crescimento de um país, de uma empresa. O investimento em criação de novos produtos, melhoria de produto, adaptação. A pesquisa é muito importante Eu posso citar vários exemplos da GE.   

O que a internet industrial mudará no relacionamento entre empresas? Elas farão mais projetos em conjunto?

Acho que sim. A GE não produz todas as peças de motores de aviões que monta em Cincinnati e Ohio. Isso se aplica também a outros negócios da empresa, como healthcare (equipamentos para saúde) e energia. O fato de abrir a linha de produção para provedor de arruelas, parafusos de motores, porque ele precisa saber quando tem que entregar parafusos e tudo mais cria uma interdependência muito grande. É lucro para a empresa porque diminui o custo de estoque e gerenciamento de mão de obra em torno disso, mas ela expõe segredos do negócio. A vivência entre as empresas vai ser mais profunda, é intrínseco acontecer isso. Quando fazemos monitoramento de aviões em qualquer lugar do mundo, estamos sabendo qual é o schedule (cronograma) daquela operação. Então para ter acesso a isso, eu tenho que ter uma salvaguarda de confidencialidade. Eu acho que isso é inevitável. 

O senhor é um engenheiro brasileiro que preside a GE do Brasil, uma grande empresa. Como chegou lá?

Eu comecei como engenheiro de produção numa empresa que era estatal em Petrópolis, a Celma. A GE posteriormente comprou essa empresa que hoje é a maior exportadora de serviços do país. Ela faz com que a GE seja o quarto maior exportador brasileiro. É essa empresa onde comecei como engenheiro há 37 anos (em 1980). Além disso, morei duas vezes fora do Brasil trabalhando para a GE. Voltei para o país em 2010 tocando um dos negócios da GE para a América Latina e há quatro anos me pediram para cuidar da GE do Brasil. Eu continuo tocando um negócio para a empresa na América Latina. Ela tem 10 ou 12 negócios principais. Foi assim como comecei, como engenheiro de chão de fábrica, de produção. As oportunidades foram aparecendo, nunca me neguei a estudar, fazer cursos e trabalhar fora do Brasil. E aqui estou eu.

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