Entrevista com Décio da Silva, presidente do conselho da WEG Andre Kopsch/divulgação

Foto: Andre Kopsch / divulgação

O presidente Michel Temer vai se reunir hoje com líderes das federações das indústrias dos três Estados do Sul para discutir temas relevantes ao setor. Décio da Silva, presidente do conselho de administração da WEG, uma das maiores multinacionais brasileiras, e da Oxford Porcelanas, é um dos industriais convidados da Federação das Indústrias de SC para o evento. Em entrevista num intervalo de palestras na Expogestão, em Joinville, o empresário me falou sobre investimentos, falta de infraestrutura em SC e recomendou mais atenção à inovação.

Que efeitos econômicos o senhor espera das reformas da Previdência e trabalhista?
É importante o Brasil fazer a reforma da Previdência para sair da situação atual. É uma mudança necessária para equilibrar as contas públicas no médio prazo, vai trazer mais confiança aos investidores do Brasil e exterior. Os resultados não serão imediatos na economia, mas se não for feita, os jovens de hoje não terão aposentadoria no futuro. A reforma trabalhista pode promover melhorias na economia no curto prazo. A legislação atual é muito antiga, feita par um mundo diferente do que estamos vivendo. Um item muito importante é que o empregado e o empregador poderão fazer acordos sobre o que é melhor para as duas partes. Vai prevalecer o acordado ao legislado. Aspectos operacionais como jornada, tipo de trabalho e férias darão mais flexibilidade as empresas. Todas essas mudanças vão motivar os empregadores a retomar contratações.

Como vê os investimentos do país hoje?
O que o Brasil precisa fazer hoje é retomar os investimentos. Deve começar pela infraestrutura, gerando demandas que façam as empresas voltarem a investir. O setor privado retomará os investimentos somente quando estiver perto da capacidade tomada. Isso porque ninguém investe em expansão se está com quase 50% da capacidade ociosa. Tivemos um bom leilão de transmissão de energia há cerca de 40 dias. Muitos vencedores são novas empresas do setor privado. Estatais brasileiras não precisaram participar.

E infraestrutura para Santa Catarina?
Na segunda-feira (hoje) os presidentes das federações industriais dos três Estados do Sul se reunirão com o presidente Michel Temer. Eu vou acompanhar o nosso presidente da Fiesc, Glauco José Côrte, nessa reunião. Hoje você olha nos jornais e vê que cada vez mais atrasam as obras de duplicação da BR-470. Dizem, agora, que ficará pronta até 2021. A BR-280 tem apenas 20% das obras concluídas. Somos um país continental que escolheu o modelo rodoviário e não temos estradas. Quando o Norte de SC não tem uma rodovia de via dupla para ir ao porto, isso gera um custo muito grande de logística. Precisamos fortemente de investimentos para a nossa malha viária.

O que as empresas devem focar?
Um ponto importante é investir em inovação. Quem ficar fazendo as mesmas coisas tem menos chances de colher resultados diferentes. Outro ponto é buscar novos processos para se tornar mais competitivo. E o terceiro ponto é que o Brasil precisa ter mais empresas exportadoras, isso é um aspecto importante para as empresas diversificarem mercados e reduzir assim seus riscos. Em suma, o país precisa exportar mais e se integrar às cadeias de produção globais.

Mas o dólar atrapalha, varia muito? Quem sofre mais com o câmbio atual?

Uma coisa que me preocupa muito é o dólar. A maioria das empresas brasileiras têm dificuldades para competir em função do câmbio atual. Nesse grupo estão, principalmente, as médias empresas. O país não pode contar com apenas algumas empresas  no mercado externo. A nossa carga tributária média é maior do que a dos nossos concorrentes. Se tivéssemos uma tributação competitiva com a média de países seria mais fácil competir utilizando uma política de câmbio flutuante. Se você olhar o Sudeste Asiático, vê que além da China, países vizinhos como Tailândia, Malásia e Vietnã que eram países extremamente pobres alguns anos atrás, vão crescendo numa velocidade muito grande. A Coreia do Sul é uma grande potência. O Brasil tem uma participação no mercado internacional muito pequena, um pouco mais de 1%.
Precisa avançar no mercado internacional, mas com esse câmbio e essa carga tributária, as empresas têm dificuldades. 

Quanto à inovação e P&D, qual é o desafio das empresas?
Elas precisam se renovar, aderir às mudanças da indústria 4.0 (internet das coisas), ter maior produtividade, fazer produtos diferentes pensando no consumidor, nas tendências futuras. Mas é importante que o Brasil tenha incentivos, financiamentos em volume e taxas competitivas para estimular as empresas a fazer esses investimentos em inovação. A princípio, o BNDES tem sinalizado nessa direção, mas é importante que isso se concretize e a inovação tenha financiamento em taxas competitivas em volume adequado.

Quais são as razões do avanço consistente da WEG?
A WEG tem usados duas estratégicas básicas nos últimos anos: ampliar mercados no mundo todo e desenvolver novas tecnologias e novos produtos. Eu vejo com orgulho o ônibus elétrico que faz o trajeto entre a UFSC e o Parque Sapiens. Tem uma partezinha da WEG lá. Projetos inovadores como este não terão receitas relevantes no curto prazo, mas certamente farão parte de receitas futuras.

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