Os detalhes da tragédia que abalou Santa Catarina Arquivo pessoal/Arquivo pessoal

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A decisão do reitor Luiz Carlos Cancellier de tirar a própria vida, depois de dedicar 40 anos de atividades acadêmicas, de sofrer as piores humilhações e os mais longos sofrimentos de sua vida, representa um triste capítulo na história da Universidade Federal de Santa Catarina.

Suspeito de obstruir investigações sobre atos praticados nas gestões anteriores, afastado do cargo e impedido até de frequentar o âmbito universitário, sentiu-se pior do que um "exilado", expressão que ele mesmo usou na entrevista que me concedeu no escritório de seu advogado. Mesmo sem culpa formada, sem prova material de prática de qualquer irregularidade, sem ter sido sequer indiciado e muito menos denunciado, estava se sentindo um leproso na comunidade acadêmica.

O abalo moral e o profundo sofrimento porque passou retiraram dele a esperança da retomada, o reparo de imagem e a volta da Justiça.

Além de uma biografia irretocável, de uma militância política marcada por incansável defesa do Direito, Luiz Carlos Cancellier escreveu e praticou no jornalismo, na política e na academia sábias lições de relações cordiais, de convergência, de conciliação, de amizade sincera e de fraterna harmonia. Era o símbolo da paz e da concórdia na convivência humana.

Corregedoria Federal, Polícia Federal, Ministério Público Federal e Justiça Federal poderiam ter evitado esta tragédia humana. Bastaria um oficio convidando-o a esclarecer todas as dúvidas. Abuso de poder é o que mais se repete em diferentes círculos da cidadania.

Cao Cancellier viveu pregando a verdade, o direito e a Justiça. E se imolou em nome destes imutáveis princípios da Democracia, com ato político em local público para dar-lhe a maior repercussão. Deixou uma mensagem de que sua morte "foi decretada no dia da prisão."

Emoção
A primeira homenagem ao reitor Luiz Carlos Cancellier foi prestada no hall da Reitoria pelos caingangues, que fizeram orações em língua indígena e destacaram sua contribuição ao ensino oferecido aos índios. Momentos de emoção pelas características da cerimônia. Ao final, o cacique se solidarizou com o jornalista Júlio Cancellier, irmão do reitor.

Assassínio
Professor e jornalista Áureo Moraes, chefe de gabinete do reitor Luiz Carlos Cancellier, declarou-se em "estado de choque". Desde a prisão ele não se encontrou uma única vez com o reitor, para respeitar as decisões da Justiça Federal. Moraes desabafou: "O reitor Cancellier não morreu; ele foi 'assassinado'.  Sofreu humilhação com a prisão e foi execrado, sem ter cometido irregularidade. As denúncias envolviam as gestões anteriores."

Advogados
Da nota oficial do Conselho Estadual da OAB-SC sobre a prisão e a morte do reitor: "Reputações construídas duramente ao longo de anos de trabalho e sacrifícios podem ser completamente destruídas numa única manchete de jornal. Para pessoas inocentes, o prejuízo é irreparável. Cabe-lhes a vergonha, a dor, o sentimento de injustiça. O peso destes sentimentos pode ser insuportável."

Imortal
O professor Luiz Carlos Cancellier era titular da Academia Catarinense de Letras Jurídicas. Ocupava a cadeira 8, cujo patrono é o constitucionalista Telmo Vieira Ribeiro. Foi escolhido por unanimidade, em função de seu robusto currículo. A Acalej emitiu nota de profundo pesar, destacando as qualidades de seu integrante.

Livro
Luiz Carlos Cancellier tinha programado para a próxima semana o lançamento de um livro sobre Direito Tributário em homenagem aos 40 anos de atividade acadêmica do professor Ubaldo Baltazar, do Centro de Ciências da UFSC e seu colega há décadas. Cancellier era o organizador do livro que está pronto com selo da Editora Insular.

Humilhação
Professor Gelson Albuquerque, amigo pessoal de longa data do professor Luiz Cancellier e conhecedor de sua irretocável biografia, criticou os exageros e a pirotécnica de sua prisão. Durante entrevista na CBN-Diário revelou que o reitor foi preso pela Polícia Federal em sua casa, depois transferido para a penitenciária estadual, onde teve que vestir a roupa laranja de prisioneiro, e puseram algemas nos pulsos e tornozelos.

Os excessos
Do secretário do Diretório Regional do PT, Murilo Silva: "O que aconteceu com o reitor da UFSC é um tentáculo da teratologia jurídica que é alimentada no Brasil, desde a Lava-Jato. A soberba e a prepotência não se limitam ao brilho dos distintivos dos bravos policiais federais, realçadas que são pela luz midiática. Homens togados e entojados sentenciam em diversos graus de jurisdição, voando com suas capas feitos pinguins alados. Basta ver que em uma semana a corte suprema, onde habitam os Deuses do Olimpo, usurpou absurdamente da competência do Senado afastando Aécio Neves, deixando Montesquieu remexido e torto, e quebrando a laicidade do Estado. Ou os partidos reagem uníssonos aos excessos de uma "justiça" absoluta, ou morreremos todos no fio da mesma espada de uma Themis possuída pelo demônio egocêntrico e esquizofrênico de um Estado policialesco."

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