A ponte vive Diorgenes Pandini/Agencia RBS

Foto: Diorgenes Pandini / Agencia RBS

Teria sido dia de El Niño? O 13 de maio de 1926 amanheceu carrancudo, fazia frio, chovia a cântaros. A inauguração da terceira ponte de maior vão livre do mundo – atrás apenas das nova-iorquinas Brooklyn Bridge e Manhattan – atraiu uma pequena multidão de ilhéus de guarda-chuva. E pelo menos um fantasma: o poeta Cruz e Sousa, representado pelo sibilante vento sul.

Não faltaram, é claro, discursos, foguetes e bandas de música. O primeiro discurso foi do secretário de Justiça Ulysses Costa, que relatou a saga da construção e enalteceu o seu patrono – o falecido governador Hercílio Luz. Depois foi a vez do governador em exercício, Antônio Vicente Bulcão Vianna, presidente da Assembleia. O governador titular, Antônio Pereira da Silva e Oliveira, licenciara-se do cargo para candidatar-se ao Senado Federal.

Às 13h em ponto, Bulcão Vianna cortou a fita verde-amarela e cerca de 300 pessoas percorreram o assoalho de madeira da ponte, protegidas da chuva pelos seus “aribus”.

Oitenta e nove anos depois – ao cabo de uma vida sem manutenção – há uma torcida para derrubar a Velha Senhora, que o bom senso manda restaurar como equipamento de uso urbano e monumento histórico.

Se houve má gestão, desvios e mau uso do dinheiro público, apure-se. Investigue-se e puna-se na forma da lei. Mas a culpa não é da ponte, nem dos olhais rompidos. É dos homens.

Os viadutos insular e continental estão restaurados – e seguros. Não faz sentido derrubá-los, depois de recuperados. Permanece a luta técnica pela execução segura da parte pênsil, de alta complexidade. Há mais lógica econômico-financeira em tentar-se a recuperação da estrutura pênsil do que derrubar a ponte inteira e reconstruir outra no lugar.

Ou o cuidadoso desmonte desta e a construção de uma nova custariam menos do que a troca dos olhais?

Houve um instante de neblina mental em que outro governo imaginou revitalizar a ponte apenas como bibelô cultural, transformando-a num poleiro de lojinhas de souvenir e palco para performances.

O cúmulo da invencionice rastaquera. Quem quer ir a um museu ou a um teatro deseja abrigar-se em prédios próprios, devidamente protegidos da intempérie. Imaginem a mesma chuva e mau tempo da inauguração desmanchando os cabelos e os cenários de artistas e plateias, o vento sul abatendo-se sobre um recital, uma orquestra sinfônica ou a peça Esta Noite Choveu Prata?

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