Catarinense no topo do design global Charles Guerra/Agencia RBS

Foto: Charles Guerra / Agencia RBS

Produtos feitos com traços exclusivos e as melhores matérias-primas do mundo se tornam marcas registradas. Seguindo essa máxima, em apenas 11 anos o arquiteto, designer e empresário catarinense Jader Almeida, 34 anos, conquistou os espaços mais importantes do mundo para vender suas criações. O passo mais recente foi a inclusão dos produtos da linha Jader Almeida Sollos em lojas da grife inglesa The Conran Shop em Londres e Paris. Hoje, são mais de 300 produtos vendidos em cerca de cem ponto no Brasil e também no exterior. As exportações chegam a 10% do total fabricado e avançam para 15%. Saiba mais na entrevista a seguir.

O que deu base para você se tornar uma referência internacional em design de móveis?
Nasci em Videira, cresci em Chapecó e comecei a trabalhar com 16 anos dentro de uma fábrica de móveis de madeira, Comecei a trabalhar em 1997 a convite de um primo, que era gerente industrial. Havia um boom de informática que atraia a maioria dos jovens da época eu sempre fui muito da parte prática. Eu sempre dizia que queria ser estilista, engenheiro, arquiteto ou seguir outra carreira que envolvesse projetos. Desde criança eu fazia meus próprios brinquedos. Com 14 anos, eu entrei no curso profissionalizante de Eletricista do Senai de Chapecó. Minha mãe teve que pedir autorização para o juiz porque eu não tinha idade suficiente. Foi um curso muito interessante porque eu descobri um mundo de coisas na área de desenvolvimento de produtos.

O fato de começar a trabalhar cedo fez diferença na sua carreira?
O meu trabalho na fábrica permitiu entender todo o processo de produção. O curso do Senai me ajudou muito na faculdade de Arquitetura, que cursei na Unochapecó. E o design, por eu estar muito dentro do processo, trabalhando em empresa, viajando para feiras nacionais e internacionais desde 2004, minha formação foi muito dentro do processo. O fato de eu já estar integrado à produção, conhecer cada etapa, acelerou minha criatividade. Esse conhecimento me dá segurança na hora de desenhar um produto diferenciado como um sofá grande com apenas dois apoios, mesas de vidros soprados, trabalho com latão e misturar materiais. Tudo esse conhecimento técnico é por eu estar há muito tempo dentro de fábrica. O que é criatividade? É juntar os elementos pré-existentes e desenvolver algo novo.

E o Jader Almeida empresário?
Além de designer tenho sociedade numa indústria, a Sollos, de Chapecó e Princesa; tenho uma loja, um escritório de arquitetura, tenho vários outros negócios, tudo nessa órbita de produto. Por isso tenho percepção ampla de administração, investimento e logística. A Sollos é uma empresa de quatro irmãos que têm vários negócios. Um desses negócios é a planta de metais de Chapecó, da qual eu tenho sociedade e onde atuam cerca de 80 pessoas. Os nossos móveis são feitos na unidade de Princesa, no Oeste do Estado, onde atuam cerca de 400 pessoas. Eu faço desenhos de produtos, licencio para a Sollos. Ela faz a produção, comércio e distribuição.

Como é realizada a comercialização da marca no Brasil?
Nos últimos 10 anos, o Brasil teve um crescimento muito significativo do consumo. A Sollos cresceu muito no Brasil. Estamos em todos os Estados, em mais de 80 pontos de vendas, em endereços multimarcas. Em muitas lojas, temos um corner. Em quase todos os nossos clientes nós somos a principal marca. Além disso, temos duas lojas exclusivas, a ICON, no bairro Trindade, em Florianópolis, e outra em Recife, que abrimos há cerca de um mês. Nos últimos 10 anos, tivemos crescimento constante, não tínhamos produtos para exportar.

Como estão as vendas no Brasil nesse período de crise?
Apesar de toda a crise moral, política e econômica, nós sempre crescemos no Brasil. No primeiro semestre deste ano alcançamos crescimento real de 12%. Nosso público é mais classe A, mas outros também procuram. Para se ter ideia, o preço de uma poltrona pode chegar a R$ 40 mil, de uma mesa, R$ 30 mil. Isso limita um pouco o acesso. Mas quem compra sabe que o valor transcende o de um produto do dia a dia. Ele está comprando uma história, a questão emocional, uma experiência. Vendemos um pacote de emoções.

Quando iniciaram as exportações?
Nos últimos quatro anos, passamos a registrar uma procura muito grande do exterior. E pelas premiações internacionais que tivemos, isso começou a ficar muito evidente. A exportação sempre foi um objetivo da empresa, mas decidimos primeiro ter algo muito sólido no mercado interno. Criamos um departamento de logística e matéria-prima para atuação no exterior. Hoje quatro pessoas atuam nele. Ano passado, fizemos a primeira exposição internacional, em Milão. Aí começou toda essa regularidade de contatos e vendas. Este ano, consolidamos parceria com a marca inglesa The Conran Shop que tem duas lojas em Londres, uma em Paris e seis em Tóquio. Chegamos numa empresa que é referência mundial do design. Ela forma opinião, vende estilo de vida. O fundador da The Conran, Terence Conran também o organizador da Semana da Moda de Londres. Estar nessa loja é estar junto com os melhores do mundo. Isso para nós é um passo muito significativo. A primeira compra foram dois contêineres de 40 pés para as lojas de Paris e Londres. Foi um sucesso absoluto.

Como foi a recepção na Conran, em Londres?
Eles fizeram um evento com a minha participação para explicar nossos produtos aos funcionários. Fiz uma palestra muito interessante. Como a maioria das pessoas pensa que o Brasil tem apenas samba, futebol e praia, eu levei várias imagens para contextualizar o país. Informei que de Santa Catarina ao Rio de Janeiro são 2 mil quilômetros. Depois, mostrei algumas cidades brasileiras, a arquitetura, porque o Brasil é o berço do modernismo mundial. Citei os arquitetos Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha. É um orgulho poder falar disso para o mundo. Depois, mostrei o contexto de Santa Catarina, a serra coberta de neve. Eles jamais imaginaram que há uma geografia assim no Brasil. Aí mostrarei cidade, festas típicas, até chegar dentro da fábrica. Além do produto, levei o contexto. Então eles disseram que agora entendem como a peça é feita sem defeito. Por isso nossos produtos foram muito aceitos rapidamente, o que não é comum para os ingleses.

Quais são os outros mercados no exterior?
Em função da exposição de Milão passamos a exportar para uma loja de Beirute. Já enviamos três contêineres de abril até agora. Na Austrália, vamos abrir um showroom no ano que vem. Esses contatos que estamos fazendo são com pessoas que já nos conheciam, que vêm acompanhando o nosso trabalho. Dia 4 de dezembro vamos abrir um showroom dentro de uma loja em Miami. Já estamos nos Estados Unidos em Chicago. Também esperamos iniciar vendas em Tóquio pela Conran Shop no ano que vem. No Chile , temos clientes desde 2009 e exportamos uma boa quantidade. Esperamos atingir 15% do total da produção em exportações.

O dólar alto ajuda a crescer lá fora?
A questão cambial nos favoreceu muito. Nossos produtos não tinham competitividade em relação aos italianos, por exemplo. A gente paga por equipamentos seis vezes mais do que eles, nossa mão-de-obra, em tese, é mais barata, mas precisamos formar profissionais. Temos o custo-Brasil, por isso a desvalorização do real ajudou.

Como você cria produtos especiais, quais são os critérios para a definição de matérias-primas?
Utilizamos muita matéria-prima importada. Há o custo em função do dólar alto e mais taxas. Para se ter ideia, a madeira que utilizamos é nogueira americana. Temos, no mundo, dois tipos de florestas, as boreais e as tropicais. Num clima seco, as madeiras tropicais tendem a rachar. As boreais, do Hemisfério Norte têm resistência e estabilidade mecânicas incríveis. Podem durar mil anos se bem conservadas. Os museus mostram isso. Uma das nossas filosofias é fazer produtos para as próximas gerações. Além de serem objetos funcionais, têm a parte subjetiva e poética. Matéria- prima de ótima qualidade, confecção primorosa e desenho adequado permitem que os objetos durem para diversas gerações. Nesta poltrona, o tecido é dinamarquês, a madeira e a espuma são americanas, o rattan é da Ásia, o couro é nacional e a cola italiana. Isso mostra como um produto assim movimenta uma série de cadeias produtivas. Temos ainda a parte estética e a poética. O positivo é que mesmo com isso tudo, nos tornamos competitivos. Nossa meta é exportar 35% da produção em 2017.

Você imaginava que, ainda jovem, se tornaria uma estrela do design internacional?
Não sei se eu imaginava algo assim. Estou muito envolvido no trabalho, com a equipe, com pessoas. Essa questão de estrela... não me vejo assim. Percebo uma ótima aceitação, um respeito muito grande pelo trabalho. Jader Almeida é uma marca registrada.

DIÁRIO CATARINENSE
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