Começo e fim de legislaturas é um tempo de mordomias para quem legisla em causa própria. É auxílio-mudança, auxílio-paletó, auxílio-isso e aquilo e até abono de Natal.

Para aqueles que não vivem neste país legislativo, os mortais mais comuns, também conhecidos como “contribuintes”, ou “otários”, resta apenas pagar os impostos – os velhos tributos e os recém-inventados.

A realidade dos aposentados é renovar o crédito consignado e vê-lo descontado todo mês da magra folha da esquálida aposentadoria, só que a juros salgados. Não há almoço grátis, a não ser para suas excelências.

Créditos, sem juros, de graça, só para os que legislam em causa própria. Para estes, os “confiados”, os guichês se abrem e se expandem a cada nova sessão legislativa. Para os “fiados”, o cidadão comum, pagador de impostos, o tempo ainda é o do fio do bigode. Para os confiados, tudo é fiado. Ou melhor, tudo é de graça, se os confiados são do “país dos deputados”.

Em tempos mais corretos e conspícuos, fiado era apenas um crédito direto ao consumidor, feito sem nenhuma burocracia, com base na confiança. Que a sociedade já não cultiva, faz tempo, nos seus representantes confiados. Aliás, já nem sabe quem são, pois já não se lembra mais em quem votou.

Antigamente, na venda do seu Mota – que habitou o relicário memorial da minha infância no Largo 13 de Maio – havia um aviso pendurado na parede, bem à vista do freguês. Negava qualquer pretensão ao fiado. Dizia a mesma coisa, mas com uma certa diplomacia:XX “Preste atenção no aviso: fiado, nem com um sorriso”.

Houve época em que todos os armazéns hasteavam aos olhos da freguesia a sentença irrecorrível: “Fiado só amanhã”.

Quer dizer: não havia fiança nem confiança. O pobre, em compensação, podia comprar cigarro por unidade. “No varejo”, como se dizia. Meia dúzia de mata-ratos do tipo Saratoga, Elmo ou Continental. Ou ainda “deztões” de farinha de mandioca e 250 gramas de colorau.

--

Hoje os antigos ficariam espantados com tanta oferta de crédito, pura agiotagem, para quem não tem dinheiro. E tanto dinheiro público no bolso de quem já tem.

O problema é a falta de confiança. Não há mais a “caderneta”. Só o dinheiro de plástico. E os eternos aproveitadores do dinheiro público – que perderam a vergonha.
DIÁRIO CATARINENSE
 DC Recomenda
 
 Comente essa história