Para os entrados em anos, uma hora faz toda a diferença. Pois o governo, que tem nos roubado tempo e dinheiro, acaba de nos “subtrair” uma hora inteirinha, no tal famigerado (pelo menos para mim) horário de verão.


Envelhecer, ver o tempo passar. É como estar no bar de um belo transatlântico, sabendo pedir a música certa à orquestra, aquela canção que vai emocionar a todos — em especial à mulher amada. Mas é também uma torcida para que este bar não seja o do Titanic, só para contrapor a verdade de José Hernández — autor do poema heroico Martín Fierro — àquela suposta verdade de Paulo Francis. O saudoso e rabugento jornalista costumava dizer: “A velhice é um naufrágio”...


Ao que o autor de Martín Fierro declamaria:


“Não é ruim ser velho. O ‘diablo’ é sábio menos por ‘diablo’ do que por ‘viejo’.”


E um silogismo torto arremataria: 


— Logo, é bom ser velho…


Velho engano. Os anos pesam. O melhor conselho é seguir Machado de Assis em Esaú e Jacó: “Não envelheças, meu amigo, por mais que os anos te convidem a deixar a primavera; quando muito, aceita o estio”...


Admitir a própria “madureza” é o constante lamento entre velhos camaradas:


— A gente anda a Felipe Schmidt todinha e não encontra um conhecido, um único parceiro pra “bater uma caixa”!


Numa roda de coroas, conversa sobre futebol é pista reveladora do tempo rodado por cada um. Todos têm os seus ídolos e conceitos encarcerados num prisma do tempo. De repente, instala-se a discussão sobre quem teria sido o inventor da “bicicleta”.


— Foi o Neymar! — garante um garoto da mesma idade do jovem ídolo brasileiro, que aaba de dar show no Barcelona, quatro gols num só jogo.


Negativo! Muito antes do Neymar ou do Pelé, o Leônidas da Silva já pedalava no ar. Foi num jogo do São Paulo contra o Palestra, no Pacaembu, lá pelos anos 1940…


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Os noventões diriam que não foi um, nem outro:


— Foi o Friedenreich. Nos anos 1920, e usando um bermudão…


Envelhecer é saber pedir a bebida certa, mesmo no bar do Titanic, de modo a perfilhar Machado de Assis nos seus Contos Fluminenses:


“Barriga encolhida, espartilhado, via-se nele [no coroa] como que uma ruína do passado reconstruída por mãos modernas, de modo a parecer um produto do meio: nem a austeridade da velhice, nem a frescura da mocidade.


Em todo caso, os velhinhos chegaram a uma idade em que não toleram mais o furto de tempo. Abaixo o horário de verão!


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