A economia será desprezível pelo tamanho do incômodo. Perdoem-me por voltar ao assunto. Mas não me conformo com mais essa usurpação.

Abomino que as manhãs fiquem de pernas curtas, as tardes se alonguem, a noite vire uma criancinha. Quando se olha o relógio – zás! –, já são três da madruga e a insônia está instalada.

A economia de energia, ao cabo de três meses de alteração do “relógio biológico” do contribuinte, é medíocre. Ainda mais agora, quando o Operador Nacional do Sistema reconhece que, por causa das térmicas, a economia será 31% menor do que nos últimos anos.

Tudo o que se economizar durante o período dá para iluminar por apenas um mês uma cidade mais ou menos do tamanho de Floripa, de 700 mil habitantes. É pouco ganho para tanto sacrifício coletivo.

Se os “agentes” do Estado brasileiro roubassem menos, não precisariam usurpar mais essa nossa hora de vida. Um dia com uma hora a menos é um prejuízo irremediável para o relógio humano. Quando se adianta o relógio uma hora, abdica-se de viver o que ela nos reservaria de bom – ou, vá lá – o que nos destinasse de “ruim”.

-

Se, pelo menos durante uma hora – uma só –, o índice de corrupção cedesse à virtude a sua carga de malefícios, e o país recuperasse a credibilidade perdida, talvez o horário de verão fizesse algum sentido.

Nessa hora jogada fora um poeta poderia viver a inspiração capaz de lavrar versos imortais, com métrica e rimas perfeitas. Um artista dos pincéis, poderia ter achado as cores de um novo impressionismo – e acabar invejado até mesmo pelo espectro de Monet, o autor do quadro pioneiro dessa escola – o “Impression, Soleil Levant” – em plácido repouso na Giverny dos “Nenúfares” e das “Mulheres no Jardim”.

Um escritor, sem uma hora, poderá sentir-se como alguém que teve assaltada a carteira da criatividade. Afinal, nesses 60 minutos que subtraíram dele, ele poderia muito bem ter encontrado a sua “hora da estrela”, aquela ideia genial – que haveria de conduzi-lo ao Nobel de Literatura...

Não seria o caso de uma ação indenizatória contra o governo por lucros cessantes nas nossas vidas interrompidas?

Leia as últimas notícias

 Veja também
 
 Comente essa história