Com este tempo esquizofrênico, algumas expressões foram remetidas para os porões do esquecimento: “Bota pra corar!”

Quem é que recomendaria, nos dias de hoje, pendurar roupa no varal para, ao sol, secá-la com maior rapidez? Em compensação, algumas expressões parecem ter sido reabilitadas, como o dito folclórico “Chuva e sol, casamento de espanhol!”

Outra: “Circo na cidade, chuva e tempestade!” O velho adágio se provava encharcadamente válido nos tempos em que a meteorologia não era assim tão evoluída. A chuva de antigamente já deveria ser obra do El Niño, mas, como não se sabia da existência desse facínora, colocava-se a culpa na chegada do circo, coitado. Incrível, mas era batata: muita nebulosidade, circo na cidade.

Sem circo, mas com o Menino Mau, pergunta-se: será que esse El Niño nunca sacia a sua sede?

Já estou me sentindo um girino, meio gente, meio sapo. E como seria a nossa vida de sapo, adaptado aos novos tempos? Aposto que muito melhor do que a vida de um humano. Muito mais úmida, é certo, mas, em compensação, muito mais ética e asseada do que a vida de um desses bípedes azedos que não deram certo.

Pelo menos na vida dos sapos não há partidos políticos volúveis, roubalheira, crime organizado, mensalão ou petrolão. E com esse tempo “glorioso” que anda fazendo, muito melhor ser sapo do que ser homem. Quando se tem fome, é só esticar a língua bífida – e pronto: a cesta básica de insetos está garantida.

Sobre os humanos, nós, sapos, teríamos a vantagem de já possuir uma pele impermeável. E enquanto os humanos apenas falam, nós coaxamos, engrolamos, gargarejamos, grasnamos e rouquejamos.

Vivemos felizes à beira d’água, saltando pra dentro dela ao menor sinal de mau tempo – o que, pra nós, é o chamado “céu de brigadeiro”.

Podem dizer de nós, sapos, o que quiserem: que vivemos uma vida larvar, aquática e imunda. Que só existimos para os homens em fábulas ou em canções de ninar, como a do sapo-cururu. E que as mulheres têm arrepios na espinha diante da simples visão de nossas formas acocoradas, o gogó subindo e descendo, o vaivém da língua. Pois não sabem o que estão perdendo, se não admitem dar um beijo de língua num sapo.

A única coisa que nos incomoda é o sol. Sua simples aparição nos deixa tão deprimidos quanto um vampiro ao meio-dia. Quando isso acontece, costumamos pular para o espelho d’água do Congresso Nacional.

Alguém conhece pântano mais natural?

Leia as últimas notícias

DIÁRIO CATARINENSE
 DC Recomenda
 
 Comente essa história