Comecei a escrever este texto várias vezes e apaguei, porque é muito difícil conseguir transmitir em poucas linhas o sentimento de tristeza, revolta e indignação que atos covardes como o brutal assassinato do imigrante haitiano Fetiere Sterlin me causam. Seus agressores sequer o conheciam, antes do derradeiro encontro. É bem provável que nem soubessem seu nome, muito menos a sua história, a tristeza que ele deve ter sentido quando teve que deixar sua família e sua pátria para tentar uma vida melhor em um país tão distante do Haiti.

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Os assassinos – sim, porque é isso o que eles são, independente da idade que tenham – pouco se importavam se Fetiere, depois de muitos anos penando com a miséria extrema de seu país, finalmente agora podia comemorar, junto à mulher por quem se apaixonou no Brasil, o fato de ter um emprego fixo, em um estaleiro, que lhe proporcionava uma vida boa. Sem luxos nem riqueza, mas com a garantia de um teto para abrigá-los e comida suficiente à mesa. Para quem chegou ao país com uma ou duas mudas de roupa na mochila e muita esperança no coração, a vida nova em Navegantes, cidade litorânea catarinense, provava ao jovem imigrante que todo o esforço e sofrimento vivido nos últimos anos havia valido a pena.

Um bando de covardes acabou com todos os planos para o futuro de Fetiere e Vanessa, sua mulher, justo agora em que ele começava a acreditar que o seu amanhã seria muito mais bonito e justo do que fora o seu passado. Filhos? Provavelmente também era um desejo deles. Quem sabe até já haviam escolhido o nome das crianças, como costumam fazer os casais apaixonados. Só que na noite do último sábado Fetiere foi brutalmente assassinado a golpes de facas. Muitos golpes, até cair no chão, numa poça de sangue.

O que ele fez de errado para despertar tanto ódio? Na visão deturpada e preconceituosa daqueles que se acharam no direito de tirar-lhe a vida, devem ter sido vários os pecados do haitiano: vir para o Brasil, ser negro, ter conseguido emprego na indústria naval, falar outras línguas, apaixonar-se por uma mulher brasileira (e ser correspondido por ela) e, principalmente ter respondido à altura, mesmo sem levantar a voz, quando seus agressores o chamaram de ‘macici’ (homossexual, na língua crioula). Segundo depoimentos, ele disse: “Homossexuais são vocês”, e continuou caminhando, sem olhar para trás. Vanessa ainda lembrou que normalmente Fetiere aguentava calado as provocações e xingamentos – as humilhações sofridas pelos imigrantes infelizmente são bem comuns. Naquela noite, porém, ele revidou e disse três ou quatro palavras e seguiu seu caminho, talvez satisfeito por, pelo menos uma vez, ter respondido às ofensas.

Fetiere era um homem de paz, mas bastou revidar o xingamento para, minutos depois, o bando voltar com pedaços de pau, pás e facas. Não houve tempo para salvá-lo. Morreu antes de chegar ao hospital. Milhares de pessoas são vítimas de preconceito todos os dias, muitas vezes pagando com a vida por crimes que nunca cometeram. Enquanto isto, quem agride quase sempre continua livre, destilando ódio e maldade, sem punição. A polícia prendeu ontem alguns adolescentes que teriam participado do ataque. Um deles, de 17 anos, confessou o assassinato. Espera-se que a história não termine assim, até para que não aconteça de novo. À Vanessa só resta, agora, dar um sepultamento digno ao seu companheiro. E avisar a família dele, no Haiti, que o sonho acabou.

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