Um outro olhar para a cidade Divulgação/Divulgação

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Era noite alta, fazia frio e as ruas da cidade estavam desertas. Gê chega à Praça XV, no Centro, e confirma o que tinham lhe contado: o seu melhor amigo delirava deitado num banco. Daquela vez, pelo menos, não era cachaça nem droga. O rapaz, sempre tão franzino, de saúde frágil, ardia em febre. Era por isso que dizia coisas desconexas, num estado de semi-consciência. Chamar ambulância não mudaria a situação — talvez se esperasse pelo socorro o amigo morreria antes mesmo da viatura chegar.

— Morador de rua não é público preferencial — dona.

Ele sabe disso porque também vive na rua há quase quatro anos. Sem alternativa mais fácil e rápida, Gê colocou o amigo nas costas e saiu caminhando, da Praça até o Hospital Celso Ramos. Era um passo e um suspiro. Um passo e um gemido, de febre, de dor, de cansaço, tudo misturado. Nas ruas escuras, a figura dos dois, assim, grudados um no outro, parecia uma miragem. Ou cena de um filme surreal.

Já perto do hospital um taxista passou devagar pelos dois. Parou, voltou, ofereceu ajuda. Um alívio para Gê, que, mesmo arqueado e quase sem forças, dizia o tempo todo para o amigo que tudo iria acabar bem. A carona foi mais do que providencial. Um alívio.

Enquanto o amigo esteve internado, Gê não arredou pé de lá. Voltaram para Praça XV alguns dias depois. E assim eles seguem, um cuidando do outro.

— Temos vários parceiros aqui, a gente se ajuda. Mas eu e ele somos família. Coisa de irmão mesmo, parceria pra vida — contou Gê, para uma pequena plateia que o fitava de olhos arregalados e curiosos.

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DIÁRIO CATARINENSE
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