Quem vê as filas nos restaurantes e a profusão de containers Madero brotando pelas estradas brasileiras, não imagina que um dia os endereços da rede paranaense fundada e dirigida por Junior Durski viviam desertos e apenas umas poucas unidades do Cheeseburguer Madero, cuja venda chega hoje a 400 mil/mês, saiam da cozinha diariamente. A virada veio da obstinação do empresário, característica que pontua uma trajetória meio à la Forrest Gump. 

Aos 20 anos, então um jovem idealista formado em Direito, Durski abandonou o mandato de vereador em Prudentópolis (PR), cidade natal, porque se decepcionou com a política. Resolveu virar madeireiro, como o pai e o avô, e partiu para Rondônia. Por lá, ganhou dinheiro, mas ralou muito, contraiu malária três vezes e quando a infecção atacou as filhas pequenas, decidiu retornar ao Paraná. Perseguindo um sonho antigo, investiu na cozinha: surgiu o Durski, restaurante de comida polonesa e ucraniana, e logo depois o Madero Prime. Ambos elogiados, mas vazios.  

- Me perguntei muitas vezes o que estava errado. Eram seis restaurantes, todos com problemas de público. Eu tinha certeza do meu produto e as pessoas elogiavam, mas achavam que era caro.

Aí veio a virada. Numa jogada arriscada, o empresário baixou o preço dos hambúrgueres em 42% e mudou a marca de Madero Prime para Madero Express.  

- Eu descobri que pobre precisa pagar barato e rico adora pagar barato. Estava errado o posicionamento de preço.  Me dei conta que é com o tempo que a gente conquista o direito de cobrar.  

Deu certo: em 60 dias, a Madero Express aumentou as vendas em 500%.  Só em 2010, depois de cinco anos da primeira inauguração, a rede, então com seis restaurantes, passou a dar lucro.  Hoje, com 71 restaurantes em 10 Estados brasileiros e uma unidade em Miami, nos Estados Unidos, a rede tem faturamento de R$ 334 milhões (2015).  

Pouco antes de desembarcar em Floripa, onde participa nesse final de semana de um painel no JEWC sobre legado e empreendedorismo, Durski falou com a coluna sobre sucesso, obstinação e metas: o sonho são 200 restaurante em operação até 2018. 

Foto: Nilo Biazzetto / divulgação

O que Santa Catarina representa na história de sucesso da rede?
Temos um carinho muito especial por Santa Catarina, principalmente porque a virada do Madero se deu aí. Começou em Curitiba, mas a coisa não tinha estourado, quando fomos pra SC é que aconteceu. Fizemos o restaurante em Balneário Camboriú em 2010 e aí depois vieram todos os outros do Estado.  

Um traço marcante da sua história é a frequente reinvenção: de vereador e madeireiro a cozinheiro e empreendedor de sucesso. Qual é a dica que daria para profissionais que precisam se reinventar diante de tantos desafios?
A grande mensagem da minha palestra em Santa Catarina é: eu não acho que tem que fazer o que gosta, tem que gostar do que faz. Eu não quis ir pro lado do Direito porque me decepcionei com a política e eu era idealista, então  fui fazer ser madeireiro na Amazônia. Eu amava o que fazia, mas era uma vida muito dura, tive malárias três vezes. Eu não tinha alternativa, então eu amava. Quando fui pra (área de) restaurantes eu de fato gostava muito cozinhar, mas achei horrível ter restaurante. É completamente diferente você cozinhar pra tua família e amigos e você ter restaurante, que é um business com um milhão de variáveis. Eu gostava de cozinhar, mas não gostava de ter restaurante, mas eu pensei: agora que eu deixei minha outra profissão e decidi ter restaurante, que outra alternativa me resta? Preciso gostar do que eu faço. Hoje eu amo o que faço. A mensagem é: goste do que faz, seja lá o que você está fazendo.  

São mais de 71 restaurantes no Brasil. Qual é o segredo de tanto crescimento?
Eu acho que precisa ter sangue de empreendedor. Cada pessoa é feliz a sua maneira. Eu gosto de crescer, de empreender,  de novos desafios, de empregar mais pessoas. Quando dizem: ¿nossa, é duro mexer com gente¿, eu falo: ¿eu adoro mexer com gente¿. Hoje nós temos 2,5 mil funcionários, mas vou ficar muito mais feliz quando tiver quatro mil no ano que vem. Isso é muito da pessoa. Tem gente que é feliz trabalhando das 8h às 17h e desligando o computador depois disso. Se você é feliz assim, toca assim. 

A concorrência de hamburguerias no Brasil só aumenta, mas a rede segue crescendo, mesmo em tempos de crise. Qual é o diferencial do produto?
O negócio é qualidade. Pra ter qualidade o cara só tem que ter uma coisa na cabeça: eu preciso melhorar. Se você tiver esse forte desejo de melhorar a tua qualidade você mantém a tua qualidade. Se você não fizer nada até o ano que vem, se você ficar onde está, você vai ficar para trás. Eu sempre acho que dá pra melhorar, é um processo de melhoramento contínuo. O dia que você não quiser melhorar acabou, passa o bastão.  O que me deixa feliz é ver que somos uma empresa melhor do que há seis meses. Eu me meto em tanta coisa, por exemplo, a partir do mês que vem eu pessoalmente vou supervisionar a comida de todos os meus 2,5 mil funcionárias na fábrica em Ponta Grossa (PR). Isso vem desse questionamento de sempre querer melhorar. 

O slogan the best burguer in the world soa um pouco pretensioso, não?  A ideia era provocar o consumidor a entrar nas lojas?
Sim, a ideia era provocar, fazer o cliente entrar dizendo: agora vamos fazer uma coisa muito sensacional, entra que você vai ver. Mas em primeira mão vou te falar: esse slogan vai mudar no ano que vem. A vida da gente são fases e eu e o Madero estamos em uma nova fase. A melhor coisa que pode ter na minha vida é ganhar dinheiro e ainda fazer o bem pra alguém. Quando eu fiz a linha Fit, com menos sal, teve gente me agradecendo porque graças a ela poderia levar o filho para comer no Madero. Mas não vou dar um de político e dizer que fiz pra ajudar o cara. Eu fiz pra aumentar o número de clientes, ganhar mais dinheiro e que bom que ajudei alguém a ser mais feliz. A cada inauguração, faço dois ou três dias de soft opening e doo tudo pra uma instituição de caridade. Gosto de cuidar dos funcionários. Quanto mais bonzinho eu for pra eles melhor eles vão cuidar do meu cliente e melhor vai ser pra mim.  O container é a mesma coisa: é ecológico, mas me custa mais barato, é mais rápido e ainda chama a atenção. Então de novo: ganho dinheiro e faço o bem. A mudança do slogan está relacionada com tudo isso. De melhor hambúrguer do mundo vamos trocar para: o hambúrguer do Madero faz o mundo um pouco melhor. A gente chegou num novo patamar, de pensar o social e meio-ambiente.

Quais são as próximas lojas a serem abertas por aqui?
A crise tem nos ajudado em alguns lugares e nos atrapalhado em outros. Nas cidades do interior  a venda caiu, nas capitais se manteve e até cresceu. Então nesses próximos dois anos a gente não quer ir pra cidade do interior. Em Florianópolis sim, se aparecer mais alguma coisa, como no Iguatemi, por exemplo, pode ser que a gente vá.

O Madero já tem uma unidade em Miami. Como está a negociação para abrir na Austrália e no Qatar? 
A gente não tem franquia. A gente já teve, mas eu não gostei. Eu penso muito em qualidade, mas às vezes o franqueado não pensa. Por isso a gente acabou saindo desse modelo. Mas na Austrália e gente fez uma franquia lá com um pessoal que é do ramo, mesma coisa no Qatar. Mas não estou seguro ainda. Nesses casos, quando eu ainda não tenho total certeza, eu paro o negócio. Não sei se vou adiante na Austrália e no Qatar. Mas Miami está indo muito bem. Então falei para o pessoal: eu não vou gastar tempo e energia na Austrália e deixar Estados Unidos parado. Vou abrir cinco restaurantes lá no ano que vem. E como não tem franqueado, é a gente que manda no projeto.  

Você já teve proposta de venda da rede? Pensa nisso?
Já tivemos proposta sim. Mas hoje não tem dinheiro no mundo que compre o Madero. Estou com 54 anos,  no auge da minha vida e adorando o que faço. Tudo que eu queria como pessoa e como empresário é estar onde eu estou. Não vou vender para não fazer nada. Acho que a pior coisa que pode acontecer na vida de uma pessoa é acordar cedo e não ter o que fazer. Mas agora voltamos a falar com fundos de investimento para vender cerca de 15% da empresa, aí a gente paga nossa dívida e tem dinheiro no caixa para crescer muito. O nosso valuation (valor de mercado avaliado por grupos de investimento) é de R$ 2 bilhões e tem comprador. Vendendo 15%, o que deve acontecer até o início de 2017, a  gente está falando em algo em torno de R$ 300 milhões.

Com tanto trabalho, como é a sua rotina?
Eu acredito que para fazer algo bem feito tem que ter processo e procedimento. Isso deu certo no Madero, então fiz isso com a minha vida também. Para mim é maravilhoso, mas não sei se a minha família gosta disso, eu acho que não (risos). Acordo todos os dias às 5h30min, às 6h estou no parque para correr. Vou pro Madero às 8h30, almoço ao meio-dia e depois trabalho muito até às 19h30, quando vou pra casa. Lá pelas 20h eu estou sempre em algum restaurante Madero, onde eu janto e tomo, diariamente, meia garrafa de champanhe e uma de vinho. Durmo às 22h. Eu gostaria de tomar duas garrafas, mas é que se fizer isso sei que vou me atrapalhar no dia seguinte. Não me convide para ir numa festa quarta-feira. No domingo, tenho meu processo de descanso. Se tiver uma festa no sábado eu fico só até às 23h e aí vou dormir. Essa é minha vida. Eu baixei um aplicativo de corrida que se chama Nike Pro no dia 1º de janeiro de 2011. De lá pra cá eu não faltei nenhuma manhã. Quando teve o furacão Sandy em Nova York eu tava lá. No hotel me falaram: você não pode sair, vão te prender. Eu saí para correr mesmo assim. Nas ruas só tinha eu e os policiais (risos).

Você tem quatro filhas. Elas participam do negócio?
As mais velhas, do primeiro casamento, trabalham no Madero. A Laysa, de 27, toca Miami. É ela quem vai cuidar da expansão nos Estados Unidos. A Maysa, de 24, está na equipe de engenharia do Madero. E as pequenas, Isabela e Alice, tem só cinco e oito. E a minha esposa, a arquiteta Kethlen Ribas Durski,   foi quem concebeu a arquitetura do Madero e é ela quem faz os projetos.

 


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