O cheiro de "mar" vinha da Baía Sul e do Miramar, subia a figueira e só se dissolvia lá pelo coreto do Jardim Oliveira Bello, já na ante-sala da Catedral.

O odor que hoje emana de Floripa é o mesmo dióxido de carbono que se desprende de toda a cidade poluída, dominada pelos motores dos bichos sobre rodas.

O cheiro de "bazar marinho" – como se estivéssemos comendo uma ostra pelo olfato – esvaiu-se por algum desvão do tempo e nunca mais será sentido.

Levaram o nosso mar pra longe e, com ele, a identidade da cidade velha, perfeitamente "respirável", entre a Conselheiro Mafra (antiga Rua do Príncipe) e a Felipe Schmidt – que um dia se chamou Moinhos de Vento.

No coração da cidade, anos 1950, era possível sentir-se a maresia subindo a praça, como se as ostras da murada do Miramar quisessem se persignar diante da escultura da Madona e do Menino Jesus "fugindo do Egito" no lombo de um burro - emocionante altar da catedral.

Com o Hotel La Porta, inaugurado em 1932, a cidade conheceu o seu primeiro elevador. E o primeiro "bar de hotel", onde, por alguma licença da imaginação, poderíamos ter flagrado   um ¿vin d¿honeur¿ entre o aviador romancista Saint-Exupéry e a atriz Ingrid Bergman -  talvez na pré-estreia de Casablanca,  ano de 1942.

Dois anos depois, o aviador se despediria da vida, voando entre a Ilha de Malta e Marselha, na sua última missão sobre as águas do Mediterrâneo, em julho de 1944.

E Ingrid Bergman deixaria de ser a "namoradinha do Mundo" para se transformar na "destruidora de lares" - e na glamurosa amante do invejado diretor Roberto Rosselini.

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Começavam a surgir os primeiros prédios ¿altos¿ de Floripa. O do Ipase, em 1947. O do Hotel Lux, em 1951. O Palácio das Diretorias, em 1955. O Banco do Comércio, em 1959  - junto com outros dois hotéis, o Oscar e o Querência. Na Felipe Schmidt, florescia um modesto "Empire State" ilhéu, o "Edifício Zahia"...

Os espetáculos esportivos, contudo, não eram originalmente os do futebol. Domingos como os de ontem eram vividos ao longo da raia da Baía Sul, tendo as ruas por "arquibancada", os aficionados de  Riachuelo, Martinelli e Aldo Luz descarregavam as suas energias lúdicas do remo.

De todo esse nostálgico décor, restam as sobrancelhas do Cambirela e as cabeleiras louras dos garapuvus em flor.

Resta, enfim, a comichão da nostalgia, em meio ao trânsito engarrafado e os "curativos" aplicados à nossa velha senhora, a ponte Hercílio Luz.

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