Discórdia é unanimidade Divulgação/Divulgação

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O "polvo" da multidão, fluvial e malthusiano, impõe ao homem o conflito ao invés do consenso, a guerra no lugar da paz, a prevalência do público sobre o privado. Todo mundo se julga filho de Deus. E com razão. Mas por isso mesmo acabam todos no inferno, onde sempre faltou comida, emprego e estacionamento.

Nas sociedades hiperpovoadas, como a China, até a privada é pública. Lá não teria o menor sentido aquela plaquinha que os portugueses colocam na porta das privadas: "Retrete". Galicismo que quer dizer "aquele lugar retirado". Pois na China não há "retretes". Há aqueles pés de louça espalhados por um grande salão, sem qualquer divisória. Todo mundo irmanado no mesmo esforço e na mesma e infecta atmosfera.

Em Xangai, formigueiro humano às margens do rio Guam Pu, havia uma casinha de madeira em cada esquina. Dentro, três conjuntos de "pés", permanentemente ocupados. Era o povo da cidade colaborando com a geração de bioenergia. O cocômóvel armazenando energia.

Depois do "ofício" do dia, passava o caminhão da prefeitura  e recolhia todo aquele "petróleo" para ser transformado em biomassa.

Mesmo que queira, o chinês médio não consegue aspirar a um mínimo de privacidade, sonho impossível numa colmeia de 1,35 bilhão de habitantes.

Já nas sociedades mais sofisticadas e exclusivistas, o homem se subdivide em "castas" para defender sua privacidade e seus privilégios. Cada um por si e o diabo por todos. Governos, parlamentos, cortes de Justiça – as instituições, enfim – já não representam a cidadania, mas o "cidadão" que ali trabalha e cuida dos seus próprios interesses.

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No Brasil, cada sujeito quer fundar sua própria República. Ter a própria regalia. Erguer a exclusiva lombada. Nunca se viu tanto sindicato: são mais de 16 mil, muitos deles brigando entre si.

A primeira providência, numa greve por salários, é fechar ruas e avenidas, infernizar a vida dos outros, agredir os direitos alheios. No momento de reivindicar o que o manifestante considera "um direito", nada é mais desprezível do que a lei.

Este é o drama da Babel que se derrama pelas ruas. Há em cada esquina um pequeno Napoleão, pronto para invadir os direitos do próximo. Em cada cruzamento, levantam-se barricadas de insensatez, minorias pretendendo governar maiorias.

O Brasil finalmente chegou a uma unanimidade: todo mundo concorda em discordar.

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