Macondo e Brasília Reprodução/Reprodução

Foto: Reprodução / Reprodução

Brasília tem muito a aprender com Macondo, a vila intemporal de Cem Anos de Solidão, com a licença de Gabriel Garcia Márquez.

Quando José Arcádio Buendia percebeu que a peste tinha se instalado entre a população, reuniu os chefes de família para explicar-lhes o que sabia sobre a doença do "afano".

Preocupados, os homens da vila resolveram fazer um teste entre si, deixando duas notas de R$ 100, estalando de novinhas, em cima de uma mesa e, em seguida, apagando a luz. Todos contaram até 20. E, 20 segundos depois, acenderam a luz: as cédulas haviam desaparecido.

Chegaram, então, à triste conclusão de que a epidemia era mesmo poderosa e que contaminara até mesmo a corrente sanguínea dos homens de bem.

Quando um dos presentes sugeriu uma CPI, para descobrir quem roubara as duas notas, os honestos riram.

E algemaram o proponente. Fora ele, é claro.

Os homens direitos remanescentes estabeleceram medidas para impedir que o flagelo se alastrasse para as outras povoações do planalto brasiliense. Foi com essa idéia que tiraram os sininhos dos cabritos e os puseram dentro de uma grande caixa, nos portões de entrada da vila. Com a orientação de que os soldados das guaritas os pendurassem nos pescoços de cada forasteiro. Uma espécie de vacina para quem insistisse em entrar na cidade, correndo o risco de pegar a doença.

Desta forma – e com muita vigilância –, manteve-se a peste circunscrita ao perímetro do povoado. O próprio sininho, no pescoço dos honestos genuínos, alertaria corruptos e corruptores: ali estava um honesto integral, um autêntico Varão de Plutarco. Ninguém chegasse perto com propostas indecorosas que haveria que se ver com aquela nova reserva moral identificada pelo sininho.

                                                            ***

O problema, está claro, é que todo mundo, até mesmo os desonestos, haveriam de querer usar esse crachá de honesto. Os que não tivessem um pendurado no pescoço logo seriam apontados na rua e execrados pelos passantes:

– Olha só aquele indecente... Lá vai um amigo do alheio, um "mão boba", um homem dos sete ofícios, um gatuno, rapinante, empalmador, peculatário, concussionário, tosquiador, amigo do dinheiro público e inimigo da Lava-Jato!

Outra dificuldade invencível: as ratazanas da cidade jamais se habituariam com a honestidade, nem abjurariam a adoração do roubo, nem o considerariam um costume inútil. Pior: logo prosperaria entre os contaminados o velho hábito do tráfico de influência. Gente vendendo sininhos no paralelo...

A fraude, afinal, não é por aqui a alma do negócio?

Acompanhe as colunas de Sérgio da Costa Ramos

A crise e os curativos 

Mentir de verdade

Ruas amáveis



 DC Recomenda
 
 Comente essa história