Sons do Carnaval Ricardo Istricher/Divulgação

Foto: Ricardo Istricher / Divulgação

Nem vamos falar num grande clássico como "Aquarela do Brasil", que Ari Barroso compôs em pleno Carnaval de 1939, em dia de temporal, e cujas notas mais "aceleradas" apareceram em alguns programas de marchas carnavalescas.

Ou de "Mamãe eu Quero", de Vicente Paiva e Jararaca, uma das marchinhas mais cantadas de todos os tempos, animando os "velhos" salões desde 1937.

Houve época em que todos os anos surgiam inspiradas composições populares, garimpadas em "concursos" de músicas carnavalescas. Ali por novembro do ano anterior, começavam as competições, até que surgissem os finalistas e as luzes da ribalta: os vencedores ganhavam as emissoras de rádio, os salões, a eternidade.

Nos anos 1970, esses concursos começaram a definhar – até desaparecerem completamente. Antes dessa lenta agonia, ainda espocaram sucessos de verdadeiro gênio carnavalesco, como "Bandeira Branca", de Max Nunes e Laércio Alves.

Assim, em plena ditadura raivosa, o Carnaval de 1970 foi embalado por essa encantadora marcha-rancho – composição bela e romântica, que assinalaria o último clássico do repertório carnavalesco: "Bandeira branca, amor/Não posso mais/Pela saudade que me invade/Eu peço paz".

Em 1967, "Máscara Negra", de Zé Kéti e Hildebrando Pereira Matos, ganhara os corações carnavalescos e servia de musical pretexto para que foliões recém-apresentados se beijassem bem no meio do salão: "Tanto riso, oh, quanta alegria/ Mais de mil palhaços no salão/ Arlequim está chorando pelo amor da Colombina/ no meio da multidão. Vou beijar - e agora/Não me leve a mal/ Hoje é Carnaval!"

Florianópolis também cultivou a sua bela tradição de compositores carnavalescos, uma constelação de artistas criativos, como Zininho, Luiz Henrique, Mirandinha, Aldo Gonzaga, entre outros. Canções inesquecíveis saíram dos programas de auditório das rádios Diário da Manhã e Guarujá para as ruas e os salões: "Largo Treze de Maio", "Quem é que não chora", "Você há de pagar", "Magia do Morro","Deixa a porta aberta", "Miramar", "A Rosa e o Jasmin" – até o grande sucesso estelar do poeta ilhéu: o "Rancho do Amor à Ilha".

                                                                      ***

Os carnavais mudaram, muita água passou por baixo da ponte Hercílio Luz, os salões se esvaziaram – as orquestras do Lira e do Doze já não se encontram debaixo da figueira, às quartas-feiras de cinzas. O desfile das escolas de samba – ainda que belo e marcante – se pasteurizou, imitando os do Rio de Janeiro.

O Carnaval de hoje é um eco longínquo, pelo menos no quesito "talento" e na ala da "criatividade".

Acompanhe as colunas de Sérgio da Costa Ramos

A comichão da nostalgia

A Ilha e seus umbigos

Doença de ladrão



 Veja também
 
 Comente essa história