As leis e as salsichas Anderson Fetter/Agencia RBS

Foto: Anderson Fetter / Agencia RBS

A Câmara Federal tem derrubado decisões legais do Senado, e vice-versa. No Brasil, o sistema é bicameral, mas não complementar. Muitas vezes é um contra o outro.

– Quanto menos o cidadão souber como são feitas as leis e as salsichas, melhor dormirão à noite – proclamou, com incrível premonição, o chanceler prussiano Otto von Bismarck, na Alemanha do século 19.

No Brasil de hoje, ninguém parece dar bola para a higiene legal. Já tivemos parlamentares que saíam da cadeia para participar das sessões da Câmara Federal. Imagine-se um parlamentar-presidiário autorizado a deixar a cadeia para legislar sobre o novo Código Penal. Um ladrão legislando sobre crime contra o patrimônio. Seria como reescrever o Novo Testamento: Barrabás julgando Jesus. E o condenando.

Muitos parlamentares processados na Lava-Jato não se incomodam com essa triste imagem. Acham que ser corrupto é padecer no Paraíso. É ser descoberto pela imprensa enxerida e golpista, que "adora" fazer escândalo de tudo. Que gosta de maltratar e expor ao ridículo os nossos ladrões mais honestos e mais tradicionais.

Corrupto também sente vergonha. A seu modo, é claro. Vergonhoso, mesmo, seria  perder, por exemplo, "aquela" concorrência pública que já estava combinada – e, por isso, "no papo".

Parece tão disseminada no Brasil a transgressão ao sétimo mandamento das tábuas de Moisés – o "Não roubarás" – que já se tornou uma verdade quase bíblica a suposição de que, aqui, o ladrão já nasce feito.

Houve um tempo em que seria melhor legalizar logo o furto. E cobrar o imposto devido. Quem seria o primeiro parlamentar a acolher a ideia, transformando-a em projeto de lei? Talvez aquele com gorda conta na Suíça, mas que vive repetindo: "Quem encontrar um centavo meu no exterior, terá o direito de herdá-lo..." 

                                                             *** 

Já imaginaram se ladrão pagasse imposto sobre o seu alcance? A arrecadação subiria como uma pipa empinada – e a Lava-Jato poderia, afinal, ser sepultada, como desejam algumas excelências.

Hoje, apesar de todos os pesares, os corruptos de plantão podem até continuar a sua nefanda prática, mas já não escaparão de ser apontados nas ruas como os novos Judas da nação brasileira.

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