As eleições de 2018 vão trazer um claro paradoxo. A sociedade nunca esteve tão farta da classe política que tem eleito e reeleito nas últimas décadas e, ao mesmo, pode se ver sem alternativas de renovação porque os principais partidos tornaram o sistema impermeável a mudanças que não tenham a bênção de seus caciques.

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Em Santa Catarina não é diferente — e talvez tenha um cenário ainda mais avesso a novidades. Os principais partidos projetam uma disputa que até traz nomes que ainda não disputaram diretamente o poder, mas que estiveram em suas franjas nos últimos anos. O prato está sendo montado, mas deve ser apresentado feito ao eleitor. É atribuída cinicamente a um antigo líder político catarinense a frase "vamos definir agora quem vai ser eleito antes que o povo o faça". Exageros à parte, o roteiro é esse.

Quando se pensa na eleição de um outsider, logo vem à cabeça o prefeito paulistano João Dória (PSDB), o empresário que virou político pelas mãos do governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB) e que agora articula furar a fila de tucana de presidenciáveis. É um caso difícil de reproduzir em Santa Catarina, porque foi construído no laboratório de um político tradicional, dentro do principal partido de São Paulo.

Não há analogia possível em terras catarinenses — mais próximo disso seria o PMDB apostar em Udo Döhler, também empresário, mas já em segundo mandato como prefeito de Joinville. Tem o figurino, porque se porta como um não-político no poder. No entanto, teria que conquistar a base de um partido gigante e heterogêneo como o PMDB catarinense para ficar com a vaga ou esperar ela lhe cair no colo por apresentar mais viabilidade eleitoral que seus correligionários. Aparentemente, utiliza a segunda estratégia.

Mais do que um Dória, o que pode aparecer em Santa Catarina é um Alexandre Kalil. Sem papas na língua, o empresário e ex-cartola do Atlético Mineiro foi eleito prefeito de Belo Horizonte pelo minúsculo PMN fazendo uma campanha de legítimo aventureiro. Mais do que um não-político, um anti-político. Há margem para este modelo aqui no Estado, embora em perfil mais comedido que o de Kalil.

Dentro desse script, partidos como o Novo e o PSL sondam o empresário Luciano Hang — dono da rede de lojas Havan. O PSL vive uma frase de transição liberal, rebatizando-se como Livres, e busca um nome para disputar o governo que represente a lógica empreendedora e anti-estatal. Em entrevista coletiva no dia 11 de julho, quando anunciou a implantação da centésima Havan e o plano de dobrar o número de lojas em cinco anos, Hang negou veementemente que deseje entrar para a política. Chamam atenção, no entanto, as peças publicitárias veiculadas desde o ano passado que o apresentam como dono da rede e que o alçaram à condição de garoto-propaganda da empresa.

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