Se não surgir algum abalo sistêmico na política catarinense — e o Estado parece ainda imune aos seguidos terremotos da República — as próximas eleições para o governo do Estado devem trazer de volta o velho embate entre PDS e PMDB que marcou anos 1980 e 1990. Os herdeiros daquela rivalidade oriunda do regime militar se movimentam para retomar suas trincheiras originais após pouco mais de uma década de alianças que amalgamaram projetos antes antagônicos.

Nas ondas do rádio, Lula discursa para reaglutinar eleitor de esquerda
O voo dos tucanos catarinenses rumo a 2018
Apoio a Mariani é gesto de Pinho Moreira pela unidade do PMDB

A volta ao passado, é claro, deve ter novos rostos. Se a disputa acontecesse hoje, o deputado estadual Gelson Merisio (PSD) estaria aliado ao PP do deputado federal e ex-governador Esperidião Amin, reagrupando o antiga aliança entre PDS e PFL. Ao mesmo tempo, o deputado federal Mauro Mariani levaria em frente à bandeira do PMDB com um discurso de reencontro com as bases cansadas das composições com antigos adversários.

Leia outros textos de Upiara Boschi

De certa forma, essa polarização atende aos interesses de Merisio. Desde que começou a construir seu projeto de candidatura ao governo, ele sabe que o plano seria incompatível com a aliança com os peemedebistas que ajudou a eleger Raimundo Colombo (PSD) em 2010 e 2014. Seria praticamente impossível fazer o PMDB, maior partido do Estado, desistir da candidatura própria pela terceira vez consecutiva. Assim, Merisio passou a defender o que chamou de "volta às matrizes" e aproximou-se de lideranças pepistas e do PSB do ex-deputado e ex-pefelista Paulo Bornhausen.

Este mês, os peemedebistas que ainda acreditavam na continuidade da aliança com o PSD, invertendo a cabeça-de-chapa, capitularam. Eterno crítico da coalizão, Mariani ganhou o endosso para construir seu projeto. De certa forma, Merisio e Mariani se ajudaram ao promover a tensão no condomínio governista e com isso criaram as condições para se enfrentarem em outubro do ano que vem.

Não que ainda não restem elementos de tensão. Amin não desistiu de uma nova candidatura ao governo. Fez, no entanto, um gesto no último fim de semana que pode ser lido tanto em favor de Merisio quanto para as correntes pepistas que desejam a aliança. Ele disse em Criciúma que não teria dificuldade em apoiar o pessedista caso ele consiga mesmo aglutinar o próprio partido. Claro que há uma ironia de Amin aí: em 2014, Merisio construiu a adesão do PP à reeleição de Colombo, mas o movimento foi abortado às vésperas das convenções.

Ironias de lado, quem reúne mais condições de alterar esse cenário de revival da política 1980 é o PSDB. Os tucanos terão de escolher que papel guardam para si nessa disputa. Podem construir um projeto próprio — o senador Paulo Bauer é o mais cotado — ou aceitar os flertes de Merisio e Mariani. Se houver composição, a vantagem é dos peemedebistas. Não por afinidade ou ideologia: Mariani pode oferecer a vaga de vice e uma de senador, Merisio só o Senado.

 Veja também
 
 Comente essa história