O auxílio-moradia é um dos mais controversos benefícios pagos à elite do funcionalismo. Só em Santa Catarina, são gastos cerca de R$ 50 milhões anuais para garantir gratificações que vão de R$ 3,2 mil a R$ 4,3 mil a pouco mais de mil pessoas - desembargadores, juízes, procuradores, promotores, conselheiros, auditores espalhados pelo Judiciário, pelo Ministério Público de SC e pelo Tribunal de Contas do Estado, além dos deputados estaduais. Detalhe: nenhum deles recebe menos de R$ 22 mil de salário mensal.

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O que poucos sabem é que o auxílio-moradia tem uma versão sobre rodas no Poder Executivo. Chama-se "indenização por uso do próprio automóvel" e é paga a 620 servidores da Secretaria da Fazenda e da Procuradoria-Geral do Estado. O valor é semelhante ao teto do benefício pago para moradia nos outros poderes: R$ 4,7 mil. Em 2015, a recém-criada Defensoria Pública do Estado também pediu e levou a generosa indenização. Hoje, os 97 defensores públicos recebem o benefício. A conta chega a R$ 35 milhões por ano. Assim, é possível dizer que os catarinenses gastam R$ 85 milhões por ano para a elite do funcionalismo morar e rodar.

Os mesmos defensores públicos que há dois anos garantiram o auxílio-automóvel, mês passado conseguiram aprovar na Assembleia Legislativa um aumento salarial que praticamente dobra o salário da carreira. A lógica estava exposta na justificativa da proposta: "equilibrar as forças do sistema de justiça". Alegam os defensores que os cerca de R$ 10 mil mensais de salário faziam da função uma simples passagem para outras carreiras com melhor remuneração, como promotor, juiz, delegado e procurador do Estado. Com o aumento, até 2019 estarão todos equiparados na faixa dos R$ 22 mil.

Embora haja lógica na argumentação e os números comprovem a evasão de profissionais, o valor dos salários da Defensoria Pública foi informado de antemão aos concurseiros. Quando o governo estadual foi obrigado pelo Supremo a criar uma defensoria pública própria, em 2012, um crítico do modelo dizia que em três anos os integrantes da nova carreira estariam pedindo equiparação com os promotores. Errou por pouco.

É curioso como alguns setores do serviço público, especialmente os mais encastelados, têm como esporte preferido olhar o contracheque alheio. Ao perceberem um benefício que não consta nos seus, gol, partem em busca de equiparação ou alguma criativa interpretação que garanta valor semelhante. Estão jogando cada vez melhor.

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