Quase toda a carreira política de Michel Temer (PMDB) foi escorada na fama de hábil articulador político. Essa condição fez dele duas vezes presidente da Câmara dos Deputados, deu-lhe o comando do PMDB nacional e o levou a ser escolhido para compor a chapa de Dilma Rousseff (PT) à presidência quando petistas e peemedebistas se aliaram de papel passado. Até a tarde desta quarta-feira, a fama não havia se justificado.

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A rejeição da denúncia da Procuradoria-Geral da República na Câmara dos Deputados, da forma como aconteceu, é mais do que um respiro ao frágil presidente que herdou o cargo após o impeachment da antiga colega de chapa. Acuado pelas delações da JBS, pela gana do procurador-geral Rodrigo Janot e por uma histórica impopularidade, Temer atirou-se sem medida ao seu maior talento: a barganha política. Sem medo e sem vergonha, reagrupou sua base política com a força da caneta presidencial — emenda por emenda, telefonema por telefonema, reunião por reunião, foi incansável.

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A bancada catarinense é uma boa amostra do sucesso de Temer nesse jogo que conhece bem. Conseguiu a coesão dos dois maiores partidos, alcançando todos os votos de PMDB e PSD — exatamente a metade dos 16 representantes do Estado. A maioria foi conquistada com Marco Tebaldi (PSDB). A tucana Geovânia de Sá votou pela aceitação da denúncia, somando-se aos representantes dos outros quatro partidos da bancada catarinense — PP, PT, PR e PPS.

É verdade que a impopularidade de Temer ainda assusta quem pensa em voos maiores do que uma reeleição turbinada pela liberação de emendas. Hoje a bancada federal tem quatro pré-candidatos a governador. Décio Lima (PT), Esperidião Amin (PP) e Jorginho Mello (PR) ficaram contra Temer, enquanto apenas Mauro Mariani (PMDB) teve coragem de endossá-lo em público. É possível que a posição do peemedebista e do resto da bancada do partido tenha peso na campanha eleitoral de 2018 — contrariando o discurso do vice-governador Eduardo Pinho Moreira (PMDB) de que em Santa Catarina a legenda é adversária da cúpula nacional.

Claro que a vitória de Temer não foi conquistada apenas a golpes de caneta presidencial. O "Fora Temer" hoje é mais uma slogan do que uma vontade coesa das oposições. Um presidente cambaleante pode ser uma âncora para o atual grupo político no poder, facilitando o retorno do PT ao Planalto. É assim que setores pragmáticos do partido pensam e isso se reflete em falta de mobilização fora das rede sociais pela queda de Temer. Duas chances concretas para derrubar o peemedebista foram praticamente ignoradas nas ruas — o julgamento no TSE e agora a aceitação da denúncia. O jogo político é muito mais sofisticado do que julgam os foratêmeres. Estes, devem continuar digitando o slogan nas redes sociais até 2018.


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