Existe uma constatação quase óbvia quando um pré-candidato a governador como Gelson Merisio (PSD) diz estar de olho em presidenciáveis antípodas ideologicamente, como são Ciro Gomes (PDT) e Jair Bolsonaro (ainda no PSC, flertando com o Patriotas). É a constatação de que o pessedista não está falando nem de Ciro e nem de Bolsonaro.

É claro que repercutiu muito a fala de Merisio em entrevista ao colunista Moacir Pereira nos veículos da NSC Comunicação no final de semana. Fora da questão ideológica ou programática, ele elogiou a capacidade dos presidenciáveis de falar sem rodeios e de manter comunicação direta com seus públicos nas redes sociais. De certa forma, o catarinense tem razão. O estilo "faço e aconteço", meio exagerado, meio bravateiro, é comum aos personagens Bolsomito e Cirão da Massa.

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Na fala do pré-candidato pessedista, a novidade é citar Bolsonaro. Com Ciro, ele manteve dois encontros e tem uma conversa reta — como diz — com os pedetistas catarinenses. O pré-candidato dos Patriotas ainda é um fenômeno sem suporte no Estado, uma onda a ser surfada e que desponta em algumas pesquisas como líder em Santa Catarina. O alcance da onda ainda é a dúvida na cabeça dos surfistas eleitorais do Estado, por isso a cautela. 

Mas, como disse no primeiro parágrafo, a fala não é sobre Ciro ou Bolsonaro. Alheia a ondas, boa parte da política catarinense teria como porto seguro a candidatura presidencial do governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB). Ele é o candidato preferido do governador Raimundo Colombo (PSD), do vice-governador Eduardo Pinho Moreira (PMDB), do senador Paulo Bauer (PSDB). Talvez seja o único componente que possa reunir a tríplice aliança, que foi criada justamente em torno dele nas eleições de 2006. 

Na época, Luiz Henrique da Silveira (PMDB) foi reeleito governador, Colombo chegou ao Senado e Alckmin ficou à frente de Lula (PT) nos dois turnos em Santa Catarina. Dificilmente Colombo ficaria confortável em um palanque com Bolsonaro ou Ciro, o que poderia ajudar os pessedistas que defendem apoiar Bauer ao governo. Por outro lado, o PMDB oferece aos tucanos a vaga de vice e de senador em uma chapa que coloca o maior partido do Estado a serviço do presidenciável tucano.

Merisio acelerou a construção de seu própria coligação. Tem PP, PSB, PDT e outras siglas encaminhadas e vê os adversários internos no PSD movimentando-se apenas nas sombras. Quando diz estar de olho em Ciro e Bolsonaro, não está falando de um ou de outro. Está avisando o PSDB catarinense que não vai entregar de mão beijada o palanque que está construindo.

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