Uma semana depois de enterrar seu reitor, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) deu uma mostra de serenidade ao encerrar as especulações sobre a sucessão na reitoria iniciadas logo após a morte trágica de Luiz Carlos Cancellier. Ao decidir de forma unânime respaldar a posse da vice-reitora Alacoque Erdmann, na terça-feira, o Conselho Universitário (CUn) impediu que a política do campus se misturasse a um cenário já complexo.

A instância máxima da universidade foi rápida. Precisava ser, porque as incongruências entre as regras da própria UFSC e a legislação federal sobre o que fazer em caso de vacância do cargo davam brecha a um debate totalmente desnecessário. No momento, a universidade precisa lidar com as investigações da Operação Ouvidos Moucos e com o luto pela morte do reitor investigado por supostamente obstruir a apuração de irregularidades no programa de ensino à distância. Confirmar Alacoque Erdmann era uma forma de dizer que a UFSC continua tendo comando e que o grupo atualmente no poder tem legitimidade para completar o mandato de Cancellier. Agora, com a discussão encerrada, vai se buscar a solução juridicamente segura para validar essa decisão — provavelmente passando pelo respaldo do Ministério da Educação.

O que ficou claro no CUn, espécie de parlamento do campus, é que ninguém teria coragem de levantar-se para pedir novas eleições com base em brechas legais. Soaria como golpe, especialmente diante da disposição da vice-reitora em assumir a vaga. Essa disposição, de certa forma, dispersou as conversas de bastidor que sinalizavam nova eleição.

Ao mesmo tempo, a intrincada política do campus também aparece na decisão do CUn. Com cerca de dois anos e meio de mandato por completar, Alacoque Erdmann daria ao atual grupo o tempo de buscar um sucessor. O candidato natural para a eleição de 2019 seria o próprio Cancellier. Hoje, Alacoque não seria candidata à reeleição. Para a oposição o tempo também é importante. Se houvesse nova disputa, seriam quatro anos de mandato para o reitor eleito. 

É bom lembrar que Cancellier venceu Edson De Pieri, do Centro Tecnológico, por menos de 2% dos votos e sendo derrotado entre estudantes e professores - a vantagem entre os servidores garantiu a conquista. Também é bom lembrar que o principal candidato da esquerda do campus, Irineu de Souza, por muito pouco não chegou ao segundo turno. Ou seja, uma eleição agora seria imprevisível e perigosa para as principais correntes políticas da UFSC. O medo de uma derrota que criasse um empoderado a adversário com quatro anos de mandato acabou levando ao bom-senso e à escolha mais natural.

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