ENTREVISTA: Pinho Moreira quer mudar secretários em fevereiro e diz que não está fora do jogo Betina Humeres/DC

Foto: Betina Humeres / DC

Na última quarta-feira, o governador Raimundo Colombo (PSD) anunciou que inicia no final de janeiro o processo de transição de governo para o vice Eduardo Pinho Moreira (PMDB). Entre o Carnaval, em fevereiro, e abril - data limite para a renúncia de acordo com a legislação eleitoral -, o peemedebista passará a compartilhar com Colombo a caneta de governador até a posse definitiva. 

Na tarde desta quinta-feira, conversei com Pinho Moreira no Centro Administrativo sobre o que esperar do novo governo, sobre o futuro da aliança com o PSD e sobre a candidatura do PMDB em 2018. 

Leia a íntegra.

Na quarta-feira, o governador Raimundo Colombo (PSD) apresentou um calendário para deixar o cargo a partir de fevereiro do ano que vem. A hipótese de o senhor também renunciar está descartada?
É isso. É um entendimento meu junto com o governador. Além de a transição já ter iniciado, com a participação nas decisões importantes do governo, os nomes que vão substituir aqueles que saem passarão a ser feitos em parceria com ele ou indicação minha. Claro que aqueles que realizam um bom trabalho no governo, não importa o partido, vão continuar. Agora, aqueles que vão se desincompatibilizar para serem candidatos lá em abril, talvez devam seguir o exemplo do governador, sair em fevereiro para ter um governo com tempo mais, talvez 11 meses, com tempo de colocar em prática as ideias.

Haverá, então, uma reforma de secretariado em fevereiro?
Acredito que terá muita mudança, sim. Secretários de Estado, dirigentes de estatais e outros que pretendem sair para se candidatar, eu acho que temos que antecipar um pouco e não chegar até abril, que é o prazo legal.

São quatro deputados estaduais do PMDB e dois do PSDB no secretariado. Eles podem sair em fevereiro?
Acho que sim. A partir do momento em que eu assumir o governo, é natural que todos colocarão o cargo a disposição. Eu gostaria de começar um governo mais consolidado a partir de fevereiro.

A Casa Civil é uma das pastas mais próximas ao governador e o secretário Nelson Serpa tem manifestado desejo de antecipar a saída. O senhor já tem um nome escolhido para a função?
Sim, seria o Luciano Veloso, atual secretário-adjunto. Ele conhece toda a sistemática do governo, da Casa Civil e é um homem de confiança meu, do governador e do próprio Serpa. O Luciano merece essa oportunidade. É um funcionário de carreira e poucos conhecem o governo internamente como ele.

Outra área chave na gestão é a Fazenda, que vem sendo tocada de forma interina por Renato Lacerda desde a saída de Almir Gorges no final de outubro. Já tem um nome?
Não tenho um titular, mas já estou conversando com alguns. Terá que ser alguém que conheça a casa, a sistemática e a Secretaria da Fazenda de forma íntima. Terá que ser alguém de carreira.

O próprio Renato Lacerda?
Pode até ser. O Renato presta um trabalho importante, nós trouxemos ele de Joinville em 2006 quando eu era o governador. É um funcionário de carreira, um técnico, mas acho que ele tem funções importantes na Fazenda, talvez não na função de secretário.

O senhor já teve essa experiência de governar em tiro curto, oito meses em 2006. Agora pode ser um pouco mais. O que acha que pode fazer diferente?
Será totalmente diferente. Em 2006, eu cumpria uma missão partidária e administrativa. O governador Luiz Henrique era um homem extremamente visionário que não se preocupava com as miudezas da administração. Então, quando ele deixou o governo, nós tivemos que atuar fortemente, tivemos alguns sobressaltos. Foi um processo dinâmico, mas eu fui extremamente rigoroso com o dinheiro público e devolvi o governo ao Luiz Henrique com dinheiro com caixa. Claro que deixei alguns projetos viabilizados, um deles vamos entregar semana que vem (a Via Rápida de Criciúma). Claro que vou dar sequência às ações do governo, dentro da possibilidade financeira, mas será um governo algo diferente do que é feito hoje. Mas de absoluto controle dos gastos públicos, dos subsídios fiscais, será um governo que o tempo exige.

Vai mexer na estrutura ou é muito pouco tempo?
Muito pouco tempo. Mas não vou ocupar algumas estruturas. Várias ficarão vagas, serão absorvidas por outras. Não extinção porque demandaria discussão na Assembleia Legislativa. 

Teremos secretários acumulando pastas?
É esse o caminho. Estruturas não-preenchidas, é isso que vai acontecer.

Como o senhor imagina a relação com o governador Colombo caso se confirme o cenário de candidaturas do PMDB e do PSD se enfrentando pelo governo?
Acho que minha relação pessoal continuaria boa, como é hoje. Política, naturalmente, aquele que for candidato em oposição a ele no Senado vai criticá-lo. Não com números que fornecerei, mas com aquilo que a imprensa noticia todos os dias. Do ponto de vista racional, aquele projeto que o Luiz Henrique desenhou para 2006, 2010, 2014 e que seria completado em 2018 com a candidatura dele, deveria continuar. Seria um projeto coletivo, da maioria, e que se perdeu um pouco por interesses individuais. Não tem sentido o PMDB estar no governo e ser oposição ao PSD que estava até hoje no governo. É um caminho equivocado que pode deixar sequelas graves.

Ainda há um discurso que una PSD e PMDB que não seja a constatação de que é mais fácil ganharem juntos do que separados?
É uma estrutura política com quase 200 prefeituras…

Nos municípios há muitos confrontos entre os partidos.
Na verdade, não. Isso foi muito estimulado pelo atual presidente do PSD (Gelson Merisio, pré-candidato a governador). Ele estimulou isso. Muitos resistiram, outros não. Em 2014, até dois dias das convenções, aquilo que o PSD dizia, os líderes deles diziam (inclusão do PP na aliança governista, apesar da resistência do PMDB) não aconteceu. Tudo é possível se nós mantivermos uma relação com os principais líderes dos partidos. E o principal líder do PSD chama-se Raimundo Colombo. Se o Raimundo optar por um lado, ele vai levar uma parte grande do partido, talvez a maior.

Hoje o PMDB tem um pré-candidato ao governo, que é o deputado federal Mauro Mariani, e o senhor já anunciou apoio a ele. Mas o senhor terá a caneta de governador um pouco antes do que se projetava. Pode ressurgir sua pré-candidatura?
Meu sonho dourado era ser candidato ao Senado. Claro que meu partido me exige uma posição de assumir. Meu candidato é o Mauro Mariani e eu tenho dito isso com bastante clareza. Se o partido decidir apoiá-lo, deverei ser o principal cabo-eleitoral dele. Torço para que ele se consolide mais a cada dia que passa. Mas é um processo dinâmico, também não posso dizer que estou fora do jogo.

E se ele não se consolidar?
Então o PMDB passa a ter outros nomes. Eu, o Udo Döhler, o próprio Dário Berger, que já começa a ser citado. Tem fila. Se o Mauro Mariani não for, estou logo atrás dele.

O que define a consolidação de uma candidatura?
Aconteceu comigo em 2010, quando desisti (da candidatura a governador), duas situações que são extremamente ruins no processo político: o isolamento e a divisão. Eu falei para o Mauro “tu és o meu candidato” porque percebi que havia uma divisão. Nos bastidores havia crítica aos dois lados. Essa divisão seria prejudicial. O Luiz Henrique ganhou porque não houve divisão, o Paulo Afonso ganhou porque não houve divisão, o Pedro Ivo também. Abri mão, acabou a divisão. Segundo, o isolamento. Eu disse: “Mauro, vai buscar partidos”. Eu vou ajudar, como governador inclusive, mas esses são fatores que ele precisa resolver. A divisão está resolvida, agora é o isolamento.

O senhor se arrependeu de desistir em 2010 depois de ganhar a prévia do PMDB?
Nunca. Olha que passei momentos extremamente difíceis do ponto de vista pessoal. O tempo mostrou que foi o melhor caminho. O PMDB continuou sendo o maior partido do Estado. Teríamos pouca chance eleitoral pelo isolamento e pela divisão. Aqueles que eu derrotei na prévia, não digo especificamente o Dário, mas aqueles que estavam ao lado dele, racharam o partido.

O senhor falou da fila do PMDB. Nesta quinta-feira, o prefeito joinvilense Udo Döhler disse que está à disposição do partido para concorrer. Em que posição ele está na fila?
O Udo está na fila, é um dos primeiros da fila. Ele tem grande chance. Tenho dito isso desde o ano passado, quando fui a Joinville muitas vezes. Fui a Brasília buscar partidos para coligarem com o Udo. Ele não pode ser desprezado. Foi reeleito contra tudo e contra todos, inclusive uma parcela do PMDB e o governo do Estado. Um cara que ganha uma eleição dessas, tem méritos indiscutíveis. Tem mérito como candidato ou apoiando um candidato.

É correto o raciocínio do que ele e o senhor, mais especificamente ele, são os nomes com mais chances de manter a aliança com o PSD?
Especialmente ele. Essas manifestações a gente ouve, sim. Mas a decisão é sempre do partido, não é do Eduardo ou do Udo, nem do próprio Mauro Mariani. O Mauro percorreu o Estado numa tarefa hercúlea, forte. Ele tem méritos indiscutíveis e precisa ser respeitado. Tem que continuar esse trabalho até o processo eleitoral do ano que vem.

Que cenário o senhor imagina para 2018?
O ideal para o PMDB seria o de quatro candidaturas (PMDB, PSD, PSDB e PT). Nós iríamos para o segundo turno. Temos musculatura, história, importância e quadros para isso. Seria o ideal para o partido, mas não o melhor para Santa Catarina. O melhor seria voltar a tríplice aliança, com o PSDB junto. O Brasil e Santa Catarina passam por dificuldades inegáveis. Seria importante que todos nós nos uníssemos. Seria a pacificação para consolidar a recuperação econômica. O Colombo ser senador com a experiência e o discurso verdadeiro que tem, falando nas reforçar estruturais que o Brasil precisa.

Há poucos meses, o senhor mostrava preocupação em assumir o governo na situação econômica atual. Está mais tranquilo?
Não. Acho que a situação precisa ser enfrentada com muita coragem e determinação. 

Tem medo de atrasar salário?
Tenho medo, claro que tenho. Não vai acontecer, farei das tripas, coração. Vou me dedicar a isso com afinco. O objetivo principal é esse e tem sido o do governador também. Para isso, muitos fornecedores ficam em atraso. Se tiver que optar, optarei por pagar em dia os servidores. 

O senhor diz que ao assumir o governo só terá duas alternativas: reeleição ou apenas completar o mandato. Está conformado com a hipótese de ficar sem mandato a partir de 2019?
Seria uma pena. Até porque todos os meus esforços são de atuar na vida pública. Não tenho como voltar a ser médico agora, como fiz em 1998. O que eu vou fazer? Vou para casa.

Quando o senhor percebeu que não deveria abrir mão de assumir o governo?
Foi o meu partido. Se eu tivesse a oportunidade de fazer um governador do meu partido, eu faria. Isso me acrescenta pouco do ponto de vista pessoal. Serei um bom governador, como fui da outra vez. Se você pensar, em 2006, ninguém percebia que eu era o governador. Todas minhas ações eram internas para permitir que a reeleição do Luiz Henrique. Quem olhava de fora via que o Estado estava bem, mas a percepção era de que o Luiz Henrique continuava governador. Desta vez, não. Eles vão perceber que o governador é o Eduardo Pinho Moreira.

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