Impossível ter bons pensamentos sobre o Dia Internacional da Mulher quando ainda me sinto impactada pelo que aconteceu com aquelas duas jovens turistas argentinas, a Maria José Coni,  de 22 anos, e a Marina Menegazzo,  de 21, que foram assassinadas enquanto viajavam pelo Equador,  alguns dias atrás. E por que elas foram mortas? Por serem mulheres e não terem aceitado resignadamente serem estupradas por dois homens. Como tentaram se defender _ e isto foi visto como um ultraje pelos agressores _ eles se sentiram no direito de dar fim à vida das duas.

Tão grave quanto o assassinato das jovens foi ler muitos comentários posteriores, especialmente nas redes sociais, dando a entender que Maria José e Marina procuravam encrenca já que viajavam sozinhas. Como assim? Primeiro, elas não estavam sozinhas. Estavam acompanhadas uma da outra. E mesmo que fosse uma só _ conheço muita gente que gosta de viajar desacompanhada _  isso não dá direito a homem nenhum de se aproximar, e muito menos de achar que pode fazer o que bem desejar. Porque homem pode viajar sozinho, ou com amigos, e a mulher só estará segura se tiver um acompanhante do sexo masculino? Porque tudo ainda é tão difícil e as respostas são tão fáceis quando a violência é contra as mulheres? E o pior: sempre que acontece uma situação assim, não falta quem diga que foi ela que procurou. É ultrajante isto. E muito frustrante também.

Maria José e Marina realizavam o sonho de sair de Mendoza, na Argentina, para conhecer a América do Sul. Sonho interrompido poucos dias depois no balneário de Montañita, no Equador, onde as duas foram assassinadas. Dizem que isso é muito comum por lá. Como assim muito comum? E ninguém faz nada pra mudar? As autoridades são coniventes? As leis são cumpridas à risca? Algum homem por lá fica preso por violência contra mulheres? Provavelmente não. É muito mais cômodo fingir que está tudo bem, e aceitar que violentar e agredir mulheres faz parte da cultura do país...

Aqui no Brasil as coisas não são muito diferentes. Mesmo depois de 10 anos de vigência da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), que é a principal legislação brasileira para enfrentar a violência contra a mulher, pouca coisa de fato mudou. Segundo dados oficiais, conseguimos diminuir em cerca de 10% a taxa de homicídios domésticos desde a sua implantação. Só 10%, e olha que a Maria da Penha  é reconhecida pela ONU como uma das três melhores legislações do mundo no enfrentamento à violência de gênero. Imagina como é a situação nos outros países então. Realmente, há muito pouco o que comemorar no dia de hoje.  Não queremos rosas nem presentes no Dia da Mulher. A maioria de nós, pelo menos, dispensa esta perfumaria toda. Só queremos que nosso direito de viver em paz, donas de nossa vida e destino, seja respeitado.

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