Uma das boas coisas da vida é você se surpreender positivamente com alguém. Ter certeza de que está diante de um talento, às vezes ainda precisando ser descoberto ou lapidado. Mas que possui um dom especial, ou seja lá qual for o nome que damos a esta capacidade que algumas pessoas têm de se sobressaírem naquilo que fazem. Foi com uma boa dose de surpresa _ e de satisfação também _ que cheguei à leitura da última página do livro Guerreiro, escrito por um jovem catarinense que tinha, então, apenas 17 anos de idade. 

Foto: Divulgação/Facebook

Gean Zanelato está terminando a terceira fase do curso de Jornalismo na Unisul de Tubarão e mora em Braço do Norte, um pequeno município do Sul catarinense. Desde criança sonhava em ser escritor. ¿Não consigo entender como alguém pode não querer ser um escritor, é a profissão mais maravilhosa do mundo¿, diz, tão empolgado que mal consegue ficar sentado conversando. Quando criança, cada vez que sentia que precisava desabafar, escrevia algumas páginas, começos de histórias, que nunca tinham continuidade. Ele diz que a inspiração ia embora. Só na adolescência, em sessões de terapia com uma psicóloga, Gean foi estimulado a colocar para fora suas emoções, escrevendo. Quem sabe rascunhar um futuro livro? Como ele sonhava mesmo em ser um escritor, o empurrãozinho era tudo o que precisava. 


Guerreiro conta a história de um menino, Jerry Duncan, desde a infância. Por ser gordinho, ele tornou-se vítima frequente de bullying, praticado pelos alunos mais velhos da escola. Era agredido e humilhado. Por sua timidez extrema, também tinha dificuldade de fazer amigos, e vivia muito sozinho. Algumas experiências traumáticas, como a morte da mãe, agravaram os problemas emocionais de Jerry. Para ser aceito, decidiu emagrecer a qualquer custo e começou a sofrer de bulimia. Para aplacar a dor da solidão, se automutilava, provocando feridas nos braços que depois cobria com camadas de maquiagem e blusas de manga comprida. É como se a dor que eu sentia na alma escorresse para fora do meu corpo junto com o sangue, escreveu Gean. 


A vida de Jerry começa a mudar no dia em que seu pai fica sabendo de todos estes problemas e resolve interná-lo numa clínica para tratamento. Aí chega a adolescência e a descoberta do amor, e tudo o que este turbilhão de sentimentos traz de bom e de ruim... O livro é autobiográfico? Gean garante que 80% da obra é baseada em suas próprias experiências e sentimentos, e o restante ficção, para dar o clima que qualquer boa história precisa. Seja como for, Guerreiro é um livro difícil de largar após começar a leitura, que flui de forma leve e gostosa do começo ao fim. A trama é verossímil, e com certeza existem centenas de Jerry¿s por aí, sofrendo com os mesmos problemas e precisando, também, que alguém os ajude a encontrar seu caminho.

Foto: Duvulgação/ Facebook

Gean agora está com 18 anos, mas escreve como gente grande. Detalha com clareza o sofrimento que uma criança sente ao ser vítima de bullying, a dificuldade que é se alimentar, para quem sofre de bulimia, e a tristeza que consome quem fica internado em uma clínica de reabilitação, longe de tudo e de todos. Por outro lado, é um livro cheio de esperança, com passagens ora engraçadas ora românticas, unindo a ingenuidade típica da adolescência à maturidade de quem já passou por muita coisa na vida. Gean é assim, um pouco de tudo isso, exatamente como seu livro de estreia. A meta, diz o estudante de jornalismo, é escrever cinco livros tendo Jerry e seus amigos como protagonistas. O próximo deve contar com mais detalhes a vida de Wendy, a namoradinha que conheceu na clínica e que é bipolar. Entre o Guerreiro e o segundo volume da série, porém, Gean decidiu dar um tempo, porque ¿baixou¿ uma inspiração e ele está escrevendo um romance policial, do qual só pode dizer o nome: A Teoria da Máquina de Doces. Mas já dá pra prever, sem medo de errar, que deve vir coisa boa por aí.

O Guerreiro é um livro infanto-juvenil, mas que pode (e deve) ser lido por pais e filhos adolescentes, e também por educadores, já que trata de assuntos muito sérios e que nem sempre são discutidos como deveriam. Gean está comemorando neste mês exatamente um ano do lançamento do livro, que pode ser encontrado no formato de e-book na loja da Amazon (já está sendo comercializado em 14 países). O livro físico, em segunda edição revisada e com novo layout, pode ser encomendado apenas no site da Editora Perse (um portal de publicação para autores independentes, no endereço www.perse.com.br). O maior desejo do jovem escritor é que seu livro chame a atenção de uma grande editora, que queira publicá-lo e distribui-lo por todo o país, para que a obra se transforme em um instrumento que ajude a transformar a vida de muitas crianças e adolescentes que sofrem com o bullying e a solidão.



A carta da felicidade

Uma curiosidade da vida de Gean, que vale a pena ser contada. Aos oito anos de idade ele conheceu e se apaixonou pelos livros de Harry Potter. A autora da série, J.K. Rowling, tornou-se sua musa inspiradora na literatura. Em dezembro de 2014 Gean decidiu escrever uma carta à autora. Uma cópia foi enviada para a caixa postal dela em Londres e outra para o endereço de Nova York. Elen diz que estava satisfeito mesmo que ela não o respondesse, porque contou seus sentimentos na carta, e já se contentava com a remota chance da autora ler as suas palavras. Mas é claro que seu coração nunca perdeu a esperança de receber uma resposta. E ela chegou dia 3 de fevereiro do ano passado: uma carta com o carimbo da Escócia, o selo do Correio Coruja e assinatura de J.K.Rowling havia sido colocada na sua caixa de correios. Uma delas era uma carta-padrão, mandada para todos os fãs que escreviam. Mas na outra ela dizia, após longos três parágrafos: ¿Cartas como a sua realmente fazem o meu dia mais feliz¿. Feliz ficou ele, que tratou logo de espalhar a notícia pelas redes sociais, sendo inclusive assunto de capa dos jornais do Sul do Estado. Virou celebridade.

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