Criança é que nem passarinho: tem que ficar livre para aprender a voar /

Dos dois lados da minha casa, quando eu era solteira e vivia com meus pais, moravam duas famílias, sendo que ambas tinham meninas pequenas. Mas havia uma diferença gritante entre elas: a garotinha do lado direito era uma princesinha. Raramente a víamos na rua. Estava sempre vestida como uma bonequinha, de vestido rodado, sapatinhos brancos e o cabelo preto impecavelmente arrumado. Lembro-me de vê-la espiando a rua pela grande vidraça da sala, e seus lindos e enormes olhos azuis sempre me passaram uma sensação de tristeza. Ela não tinha amigos, ninguém ia lá brincar com ela. A mãe não gostava de bagunça. Tinha um quarto de princesa e as mais belas bonecas que já vi, mas faltava o essencial: alegria.


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Do lado esquerdo, morava uma molequinha. Vivia de pés descalços, os cabelos cacheados loiros sempre molhados de suor, de tanto que corria, subia nas árvores, inventava picnics com bolos de barro. Falava pelos cotovelos, cantava, chorava alto quando se machucava, vivia com os joelhos ralados quando estava aprendendo a andar de bicicleta, ou teimava em andar em cima do muro. Lembro, também, dos gritos de alegria quando tomava banho de mangueira nas tardes quentes de verão. A menina era a alegria em pessoa.

As duas eram vizinhas, mas nunca brincavam juntas, porque pertenciam a dois mundos muito diferentes. Adoraria saber o que aconteceu com elas, o que o futuro reservou para cada uma. Será que o tipo de infância influi no futuro da pessoa? Não sei responder. Mas o que posso dizer é que a infância deixa marcas _ boas ou ruins _ que levamos para o resto de nossas vidas. 

Ao ter meus próprios filhos, seguidamente me lembrava das duas meninas, e pensava: Com quem eu quero que eles se pareçam? Que tipo de infância é mais rica, mais cheia de experiências e significados? A opção, claro, foi deixar que brincassem na terra, andassem descalços, tomassem banho de chuva, jogassem bola no campinho, brincassem na areia e no barro, pintassem as mãos com tinta e colorissem seus dias... Sujou? É só limpar. Não queria que meus filhos enxergassem o mundo através da janela da sala, como a menininha da casa do lado, que nunca pôde saciar a sua curiosidade infantil. 

Amanhã é o Dia da Criança. Mais uma data comercial? É, mas depende só da gente para transformá-la em um dia realmente especial para os pequenos. Não tem graça simplesmente comprar um brinquedo novo e dar para o filho, achando que cumpriu com a sua ¿obrigação¿. O legal do Dia da Criança é aproveitar a folga que o feriado proporciona para ficar mais tempo com os filhos, dar atenção, carinho, encher de beijos e abraços, brincar com eles. Quem sabe até se sujar de barro, areia ou tinta. Por que não? São essas as lembranças que eles certamente levarão para a vida inteira, e não o brinquedo caro que você comprou e que depois de alguns dias foi esquecido, empoeirado, numa prateleira qualquer do quarto.

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