Escola pode ajudar a detectar violência sexual doméstica Foto: Adriana Franciosi / Agencia RBS/

Foto: Foto: Adriana Franciosi / Agencia RBS

Em mais de 90% das vezes, os crimes de violência sexual contra crianças e adolescentes são cometidos no âmbito da própria família. ''Esta é uma angústia que acompanha todo e qualquer juiz, promotor ou policial'', escreve o desembargador Leopoldo Augusto Brüggemann, do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, em e-mail enviado à coluna. Ele diz que, conforme se verifica nos julgamentos realizados semanalmente, o pai é o principal agressor,seguindo-se do padrasto, avôs e tios. Dos delitos de estupro que têm esses parentes como autores, em 70% deles (segundo dados do IPEA) a vítima é uma criança (estupro de vulnerável).


Na opinião do desembargador, o que mais assusta, até porque não existem registros, são os casos não notificados ou delatados, acobertados pela família, conivente com o sofrimento indigno de seu próprio ente. Os ataques aos meninos são ainda mais acobertados, porque fica embutida a vergonha da família, tendo em vista que será indubitavelmente tratado ou conhecido por ser o que não é: homossexual  (nada contra, diga-se), escreve o magistrado.


Brüggemann alerta: ''Há algo de muito errado com nossa sociedade''. A família (que deveria ser o porto seguro),  está comprometendo de forma muito séria seus filhos e filhas, tendo em vista que estes levarão consigo traumas de uma infância roubada e vilipendiada por adultos inescrupulosos e despudorados. Carregarão, o que é pior, um sentimento de culpa pelo que não fizeram. A vida será uma tormenta sem fim. E qual seria a razão de tal conduta por parte dos violentadores? O desembargador acredita que nossa sociedade tem a marca registrada do patriarcado, espinha dorsal de sua estrutura. Eram patriarcas o pai, o sogro, o avô, homens que foram ensinados que a mulher (e o seu corpo) lhes pertencia, o que foi um passo certeiro para o machismo que grassa em nosso meio. Basta ver o número de crimes que ceifam a vida de milhares de mulheres inocentes no âmbito doméstico. Muitos agressores  também se valem da condição de provedores do lar, não só para violentar, mas também para calar a ofendida.


Para o desembargador, a escola tem um importante papel. Diante de qualquer comportamento diverso da aluna ou do aluno (modificação do temperamento, tristeza constante, lesões no corpo, choro compulsivo, brincadeiras de cunho agressivo ou de conotação sexual, queda abrupta do rendimento escolar) os professores devem observar constantemente e coletar dados de maneira sutil, até uma conclusão sobre a verdadeira modificação de suas condutas. ''Isso é importante porque também há casos em que a própria mãe ou companheira, por incrível que possa parecer, acoberta e é conivente com as agressões praticadas pelo marido ou convivente, acobertando o mal''. Ela faz isso, muitas vezes,por depender economicamente do homem.  ''A vigilância deve ser constante e cerrada'', recomenda.



 Veja também
 
 Comente essa história