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Eu tive um colega na sala de aula quando criança que possuía as maiores orelhas que eu já vi na vida. E eram bem separadas da cabeça, as chamadas orelhas de abano. A gente achava engraçado, claro, mas não me lembro dele ter sofrido bullying. Usava boné para disfarçar um pouco, e só tirava se alguma professora fizesse questão. Depois, já na adolescência, tive uma colega com o mesmo problema. Ela sim, sofria. Tinha cabelos lisos e compridos, mas os usava bem crespos para tapar as orelhas. Mesmo no sol forte do verão, nas aulas de educação física, estava sempre com o cabelão solto, para não mostrar as orelhas. Falava que quando começasse a trabalhar iria guardar todo o dinheiro para fazer uma cirurgia plástica nas orelhas. E assim ela fez. Economizou por um bom tempo, e a última vez que a vi desfilava feliz da vida com o cabelo preso. Parece até que sua personalidade mudou. Virou uma pessoa bem mais segura de si e feliz. Uma cirurgia reparadora como essa pode fazer milagres na autoestima das pessoas.

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Com certeza muitas outras pessoas também ficarão felizes aqui em Santa Catarina esta semana pelo mesmo motivo. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica Regional Santa Catarina (SBCP-SC) e o Instituto para o Desenvolvimento do Ensino e Ação Humanitária (Fundação Ideah) iniciaram na segunda e encerram nesta terça-feira uma ação social que visa operar gratuitamente cerca de 50 pessoas com as chamadas orelhas de abano. O termo correto é  otoplastia, explica o cirurgião plástico Zulmar Accioli, coordenador da iniciativa e chefe do Serviço de Cirurgia Plástica e Queimados do Hospital Universitário da UFSC. Este mutirão solidário antecede o 54º Congresso Brasileiro de Cirurgia Plástica, que reunirá centenas de especialistas do País e do exterior de quarta até sábado no CentroSul.

Os pacientes estão sendo operados em hospitais públicos e clínicas particulares de diferentes regiões do Estado. Mais de 30 cirurgiões plásticos e nove médicos residentes integram a equipe de voluntários, sendo que a  maior parte dos procedimentos está sendo feita no HU e no Hospital Infantil Joana de Gusmão, ambos em Florianópolis.  Zulmar Accioli, que é um veterano em trabalhos comunitários que envolvem a sua especialidade médica, ressalta que Santa Catarina tem uma cirurgia plástica muito unida e preocupada com as ações sociais, já que os recursos dos hospitais públicos são escassos. “Para se ter uma ideia, nove dos 12 cirurgiões do Serviço do HU são voluntários”, conta.

Além das orelhas de abano, os médicos da SBCP-SC promoveram recentemente, de forma totalmente  gratuita, a remoção do excesso de pele de oito ex-obesos mórbidos e a reconstrução de mamas em 65 mulheres mastectomizadas total ou parcialmente por causa do câncer, durante a campanha Outubro Rosa. São iniciativas que têm a capacidade de devolver às pessoas a alegria, a autoconfiança e, às vezes, até a vontade de viver.

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