Filho de empresário e artista plástica, o fotógrafo Gabriel Wickbold pode dizer que herdou o melhor dos dois mundos. Da mãe, o olhar sensível para a arte e a criatividade. Do pai, o talento para os negócios. Hoje, aos 31 anos, Gabriel emula os dois lados sem os pudores. Talvez daí venha o precoce sucesso de um dos mais brilhantes fotógrafos da nova geração. Dono de um estúdio e de uma galeria de arte na Vila Nova Conceição, em São Paulo, Gabriel promove artistas e marcas, vende suas obras, fotografa publicidade, capas de discos e artistas - já passaram por suas lentes Maria Gadú, Fiuk, Didi Wagner e Adriane Galisteu, entre muitos outros.

Estimulado a se testar pelos pais, o paulistano começou a escrever poesia aos 10 anos e aos 12 publicou o primeiro livro.

– A poesia foi a minha primeira forma de observar o mundo – conta, em um fim de tarde de cinema na cobertura de um primo em Canajurê, Floripa, onde fotografou 33 catarinenses para o projeto Antes Nua do que Sua.

>> Confira fotos de catarinenses clicadas por Gabriel Wickbold em Florianópolis

Multitask acelerado, Gabriel é um típico representante da geração millenial. Depois da poesia, foi para a música. Ficou 10 anos tocando, produzindo e gravando artistas. Em 2006, resolveu partiu para aquela que seria sua primeira série de fotografias.

Foto: Gabriel Wickbold / divulgação

– Acompanhei o rio São Francisco da nascente até a foz fotografando gente. Depois de 45 dias voltei com mais de 10 mil imagens e foi daí que nasceu a série Brasileiros. Cheguei a São Paulo e mostrei para um amigo fotógrafo, que me disse: cara, você tem que ser fotógrafo. Monta um estúdio e se vira. Antes disso só tirava foto por hobbie, não tinha técnica, mas a tecnologia tirou a parte burocrática do fotografar. O importante é o olhar e a conexão. A fotografia é só um veículo tradutor – defende o artista que se declara um ser intuitivo: não leio manual, diz.

Gabriel seguiu o conselho. E na esteira, fotografou moda, publicidade e mais quatro séries: Sexual Colors, uma das mais célebres dele, onde usou tintas sobre o corpo nu de artistas e modelos, Naïve, que explora a relação homem-natureza, Sans Tache, onde criticou a estética manipulada pela mídia para apagar os efeitos da passagem do tempo nos corpos humanos, e I Am Online, ¿um retrato do quão sufocado estamos pela Internet¿, nas suas palavras.

– Depois de muitos anos no estúdio, surgiu a ideia de que eu, como ser humano contemporâneo, vivendo e olhando a relação homem-universo nas mais diferentes formas, poderia traduzir os dilemas das pessoas. Sexual Colors, por exemplo, eu fiz porque achei que a gente estava muito nu a toa. Quis fazer um novo nu, transformando o corpo uma tela, desconstruindo o homem. São todos assuntos banais, mas que são um reflexo dos nossos tempos, da nossa geração – conta,  relembrando a série em que ele mesmo pintava e posicionava os corpos, em uma espécie de performance laboratorial no estúdio, para que seu assistente clicasse.

A paixão atual, o projeto Antes Nua do que Sua, aventura que teve início no Instagram (@antesnuadoquesua) mas que deve virar exposição e livro, também surgiu de um olhar, esse sobre a independência e autossuficiência da mulher contemporânea. O projeto, que já fotografou personagens em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Florianópolis, mostra mulheres em registros P&B íntimos.

– Queria mostrar essa nova mulher. A mulher separada, a que tem filho, a cuida do corpo, a vai para a balada. Mostrar que a autoestima delas não passa mais necessariamente pelo olhar dos homens. E não fotografo elas no seu óbvio. Se uma é mais ousada, gosto de mostra-la quieta, de trazer uma nova mulher. É como uma dança, um jogo. Me perguntam porque não fotografa gordinhas e baixinhas, por exemplo. Mas elas estão todas lá – comenta sobre as  imagens onde todas parecem deusas, mas não são necessariamente modelos e nem foram retocadas no photoshop.

O lado questionador é só uma das faces da personalidade idealista.

– Tenho duas filhas. Quem sabe estou cutucando um mundo melhor pra elas, mais livre – investiga.

Para este ano, Gabriel ainda organiza uma exposição sobre os 10 anos de carreira. E sobre o futuro, acha que o melhor está por vir:

– Quero continuar tendo prazer no que eu faço. Tem que ter alma, que é o que as pessoas deixam passar atrás de dinheiro. Faço publicidade, faço moda, faço várias capas de discos. Trabalho cada dia com uma coisa, mas o importante é estar inteiro – conclui.

Foto: Gabriel Wickbold / divulgação



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