Uma mesa improvisada e cadeiras escolares na área de exposições do recém-inaugurado Jardim Botânico formaram o cenário da entrevista realizada no final da tarde de segunda-feira com o prefeito Cesar Souza Junior (PSD). É nele, no Mercado Público e numa suposta melhora do sistema público de saúde e de educação da cidade que Cesar Junior, 37 anos, se agarra em meio às críticas de uma gestão amplamente desaprovada pela população (77% dos entrevistados desaprovam a sua administração, segundo pesquisa Ibope da última sexta-feira). A menos de 90 dias de deixar o cargo, o prefeito compartilhou com a coluna arrependimentos, acertos, mágoas e planos para o futuro:

Foto: Marco Fávero / Agência RBS

O senhor se arrepende de não ter disputado a reeleição?
Não foi uma decisão fácil e te confesso que em alguns momentos a gente reflui. Quando uma pessoa fala de maneira sincera que gostaria que eu tivesse concorrido, eu balanço. O domingo da eleição foi um dia estranho pra mim. Quando fui votar, uma senhora me parou e disse: "Era tu que deverias estar aqui".  Ela estava irritada por eu não ter me colocado como uma opção. Em alguns momentos eu repenso e vem um arrependimento. O coração oscila, mas a cabeça tá centrada.

Pesou na decisão a necessidade de maior dedicação à família?
Não foi o principal, mas pesou. Quero ficar mais perto deles. Tenho 37 anos e já disputei cinco eleições. O processo político é desgastante e afasta da família. Minha filha mais velha já entende tudo. Esses dias um colega da escola chamou ela de prefeitinha e ela não gostou.

Quais foram suas principais derrotas e o que faria diferente?
As obras de mobilidade não ocorreram no volume desejado. Captamos R$ 600 milhões com o governo federal. Quando aprovamos, o Brasil quebrou. Anel Viário e Elevado do Rio Tavares já deveriam estar prontos. Também acho que tivemos um grande erro de comunicação no momento de IPTU.

Guarda alguma mágoa ou decepção?
Tem uma parte da elite da cidade que nunca me engoliu. Nunca engoliram um jovem de 34 anos ter sido eleito prefeito de uma capital, filho de um radialista que fazia programas populares, neto de um soldado da PM. Senti uma rejeição e uma raiva de um setor desde o primeiro dia do meu mandato. Alguns dessa pseudo-alta-sociedade. Muitos até nem têm mais aquela condição, mas se acham donos da cidade.  Outra coisa que me decepcionou muito foi descobrir como há hipocrisia nesta cidade. Pessoas que têm um discurso público e depois vão bater na porta da prefeitura para pedir favor. Empresários que se colocam como modelos de virtude e que se puderem levar vantagem a qualquer custo, vão levar. Descobri que boa parte dessa elite quer mais servir-se da cidade do que servir a ela.

Nos momentos mais duros, onde buscou conforto?
No convívio com a família e na leitura. Gosto de ler história, especialmente sobre guerras. Li as memórias de Winston Churchill, onde ele conta todo o período que liderou enfrentando momentos de guerra e escassez. Aí vi que o que estou passando não é nada. A história do mundo não é uma história bonita.

Quais são os planos para o futuro?
Pouca gente sabe, mas fui admitido no Doutorado em Direito na Universidade John Kennedy, em Buenos Aires. São quatro blocos de aula de 28 dias, então não preciso me mudar pra lá por muito tempo. Vou e volto. O tema é Direito Ambiental. Também devo retornar à comunicação. Talvez rádio ou tevê. E é provável que possa me candidatar a deputado federal em 2018 ou tentar alguma confluência para o Senado.


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