Nunca digo não para uma noiva, não sou louca. A gargalhada gostosa depois da frase pode indicar tratar-se apenas de uma brincadeira, mas longe disso. Patricia Lima, cerimonialista que virou uma das queridinhas das noivas de Floripa tem no respeito e acolhimentos das ideias dos casais uma de suas características mais marcantes. Equilibrada para apaziguar as discussões entre noiva e sogra, incansável para permanecer até as 8h da manhã nos casamentos,  e bem-humorada o bastante para levar na esportiva os muitos abraços recebidos dos convidados que exageram no espumante, a carioca assentada em Floripa há 25 anos começou tardiamente no ofício que parece feito pra ela.

Nascida no Rio de Janeiro, quando criança Patricia rodou o país ao lado da família já que o pai era general . Dessa época, lembra de observar atenta as recepções em casa organizadas pela mãe e as inúmeras obrigações sociais da família. Aos 30 anos, veio uma mudança inesperada: Patricia, na altura morando em Recife, ficou viúva e aí escolheu Florianópolis para o recomeço ao lado dos filhos e dos pais, que já haviam decidido voltar para a cidade natal do pai na aposentadoria. Por aqui, a história com festas começou quando ela resolveu atender o apelo de um amigo que começava um novo negócio na área de festa. O parceiro era Fábio Queiroz e o negócio era a Alameda Casa Rosa, que mais tarde, pela força dos dois, viria a se firmar como a locação preferida das noivas da cidade. Aos 55 anos, Patricia acumula mais de 600 festas do currículo.

Foto: Lauro Maeda / divulgação

Como foi começar na Alameda Casa Rosa sem nunca ter trabalhado na área?
O Fábio me dizia que eu tinha perfil. De fato, festa não é algo que se ensina, não existe faculdade, a gente aprende na prática. Fui pra dentro da Alameda e aprendi muito. Eu fazia tudo. Parte comercial, acompanhamento dos eventos, me envolvia com todos os aspectos das festas.  Fiquei anos com ele e nesse período o local se concretizou. Ajudei nessa construção. Até que, há cinco anos, eu disse pra ele:  vou fazer 50 anos e deu, vou morrer trabalhando, eu não durmo mais e essa casa é tua (risos).

A ideia era descansar, mas as noivas não deixaram?
Sim, para minha surpresa as noivas começaram a me ligar. É que é um envolvimento muito intenso e delicado e, acho que pela relação que tínhamos, elas começaram a me cobrar. Atendi uma por carinho, aí veio outra e mais outra. Hoje eu trabalho mais do que trabalhava na Alameda.

que envolve o trabalho de cerimonialista?
Eu brinco que não faço nada, mas divido minha experiência. Planejo tudo a ser feito, elaboro planilha, contrato fornecedores, que viram responsabilidade minha. Mas todo o meu trabalho é baseado na vontade dos noivos. Quando é algo mais arriscado, dou minha opinião técnica, se funciona ou não. Mas se mesmo assim eles quiserem, eu faço o meu melhor. Quando está tudo alinhado, ainda tem o dia do casamento, quando sou uma das primeiras a chegar e a última a sair. Minha graduação foi em artes no Rio de Janeiro, mas estudei um pouco de psicologia, o que me ajuda muito. É um exercício de paciência, mas amo meu trabalho. Recentemente fiz um casamento com noivos de mais de 60 anos, que eram namorados na juventude e se reencontraram. Sempre tem muita emoção envolvida e saio revigorada. Me emociono, mas só internamente.  Na festa eu sou a que precisa manter o equilíbrio e fazer tudo dar certo. A noiva nunca sabe o que não deu certo no dia da festa. Dias depois, se eles quiserem saber eu conto.

Quais foram os casamentos que ficaram marcados na tua história?
O do Eric Jacquin (chef que é jurado do programa Masterchef Brasil) e da Rosangela Menezes no Jockey Club, em São Paulo.  Mais pela repercussão nacional que teve. O produtor do reality dele na Fox me entrevistou e perguntou o  que era diferente no casamento do chef. Ele ficou brabo porque eu disse: nada é diferente.  Casamento é casamento. Todos são muito importantes. Inclusive faço alguns de presente e a dedicação é a mesma.  Outro que teve muita repercussão foi o do Amos Genish com Heloisa Becker na Alameda Casa Rosa em 2012, quando ele era CEO da GVT. 

E qual foi o maior desafio?
Um dos desafios foi um casamento em Punta Cana. Cheguei lá de manhã e o casamento era à tarde. Mas claro, já tinha planejado tudo antes.  Casamento é logística. Uma parte da produção e fornecedores levei daqui, incluindo uma playlist salvadora do (DJ) Jeco Thompson. Outro desafio foi o casamento de uma moça que trabalhava em uma grande montadora com um diretor da HP. Eles moravam fora do Brasil e queriam casar no Costão do Santinho em uma festa para muitos estrangeiros. Só que a noiva não gostava de nenhum celebrante apresentado até que me ligou  e disse: você vai realizar o meu casamento. Eu nunca tinha feito isso, mas segui meu lema de não dizer não para a noiva e fiz a celebração. Só avisei: é por tua conta e risco. Quando terminei, todo mundo chorava.

Qual foi a maior saia justa que você já enfrentou?
Já passei por muitas situações em que meu papel é apaziguar.  Tipo: a noiva quer uma coisa, a sogra quer outra. Cada um tem um sonho, um desejo, e aí entra uma característica minha: transitar entre as duas, fazer uma entender o lado da outra e deixar as duas felizes. Meus filhos brincam que não consegui realizar o sonho de ser diplomata, mas agora é o que eu mais exerço (risos).  É raro, mas também já tive que apartar briga. Eu me meto no meio, afinal quem vai bater em uma senhora baixinha e da minha idade? (risos). Vou com jeitinho, converso com um, com outro, dou razão pros dois. Com bêbado é a mesma coisa: conto uma histórica, dou um abraço e quando eles veem já estão no carro indo pra casa.

Você já fez casamento fora de Florianópolis, o que caracteriza os casamentos daqui?
Em relação a profissionais, estamos muito bem. Comparo quando a noiva traz alguém de fora: um fotógrafo ou uma equipe de filmagem, por exemplo. Os nossos aqui tem outro nível. Em relação ao estilo de casamento, acho que eles se repetem, tem uma linha que os noivos querem seguir. Hoje os casais vão pra internet, acham muita ideia e querem repetir.  Algo muito diferente é raro.

Nosso litoral também tem se firmado como destination wedding procurado por noivos que não moram na cidade. Temos a estrutura necessária?
Não. Eu digo que Floripa é uma ilusão para quem pensa em casar na praia. Não temos espaços suficientes. Por isso a Alameda é tão procurada: junta bom serviço, boa comida e espaço bonito. Também gosto do Donna, em Jurerê. Mas são pouquíssimos. E também temos muitas limitações, como a questão do som.

Tem noivos que causam mais do que as noivas? E eles estão participando mais do processo de produção do casamento, antes restrito a elas?
Sim. Eu digo que tem noivo que é noiva. Hoje eles estão juntos. O noivo escolhe tudo, até a cor da flor. Fiz recentemente o casamento de uma juíza, recém-empossada e morando em outra cidade. Foi o noivo que fez tudo comigo. Quando chegou o dia, ele tomou todas e dizia pros amigos: ¿tá vento esse laço? É Chanel. Tá vendo a cor do bem-casado? É Fendi¿.

Quais os pedidos mais trabalhosos ou extravagantes que as noivas já fizeram?
Às vezes os noivos decidem casar em casa por economia, mas dá mais trabalho e às vezes gasta-se mais pra instalar tendas e estrutura. Também já fiz casamento em lugares como o Costão Golf onde tivemos que erguer tudo da grama pra cima.

Em São Paulo, os casamentos mais luxuosos chegam a custar R$ 1 milhão. Quanto custa um casamentão por aqui? 
Sim, já fiz casamentos que passaram disso. Mas hoje, em um casamento muito bom, se gasta no máximo R$ 1,5 mil por convidado (numa festa para 500 pessoas o custo total seria de R$ 750 mil). Mas me preocupo com isso, não dá pra casar com dívida. Sou a primeira a dizer: não rasguem dinheiro. Tem coisas que ninguém percebe e se der a gente corta.  

Qual é a parte mais chata da produção do casamento?
Fazer a lista de convidados. Nenhum casamento tem a lista que gostaria, sempre falta gente. E outra coisa difícil é a confirmação. As pessoas não tem por hábito confirmar, então a gente liga para todos.

Foto: Lauro Maeda / divulgação


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