Professores da rede pública apostam na criatividade para melhorar desempenho dos alunos Leo Munhoz/Agencia RBS

Professora Roberta Schnorr Buehring e a aluna Larissa Monteiro Almeida

Foto: Leo Munhoz / Agencia RBS

Brincadeiras para ensinar a lidar com números, tecnologia para estimular a escrita, passeios para ampliar os horizontes. Embora ainda tenha dificuldades, a escola pública pode ser um celeiro de iniciativas criativas.

Em Florianópolis, uma professora de matemática criou um jogo de detetive para estimular o aprendizado da disciplina. Roberta Schnorr Buehring é professora há 21 anos, mestre em Alfabetização Matemática, e desde a graduação entendeu que o lúdico era um aliado do ensino. Este ano, o jogo que ela criou para aplicar com os alunos do 2º ano do Ensino Fundamental foi selecionado para ser apresentado no Festival da Matemática, que acontece entre os dias 27 e 30 de abril. Ela é a única professora da rede municipal a participar do evento que reunirá experiências de todo o país.

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A professora desenvolveu o jogo Detetive dos Números na Escola Básica Municipal Vitor Miguel de Souza, no bairro Itacorubi. Trata-se de um quadro com uma sequência de números de 1 a 100. Com ajuda dos outros colegas, um dos alunos tem a missão de descobrir por meio de dicas e observando o quadro qual é o algarismo que está escrito em um papel colado na sua testa.

— O aluno ouve as dicas e vai elaborando o raciocínio. Não é um jogo de adivinhação. Com o quadro, eles aprendem a somar, e também desenvolvem a capacidade de fazer perguntas e elaborar respostas. O jogo também ensina a trabalhar em grupo — explica Roberta.

O Detetive dos Números não tem um ganhador, já que é pensado para ser um trabalho em equipe. Todos comemoram e ajudam uns aos outros. A professora conta que o desempenho e o interesse dos alunos por matemática melhorou.

As alunas Larissa Monteiro Almeida e Rafaella Almeida dos Santos, agora no 3º ano, dizem que passaram a gostar mais da disciplina. Elas fazem parte da primeira turma que aprendeu o jogo e percebeu que as notas melhoraram.

O Festival da Matemática é um dos eventos do Biênio da Matemática, que ocorre entre 2017 e 2018. Nestes dois anos, o Brasil realizará uma agenda positiva de iniciativas no ensino, pesquisa e inovação no país nesta área. Roberta destaca que o fato de o Detetive dos Números participar do festival demonstra o reconhecimento do trabalho dentro da escola pública. 

Aluna Rafaella Almeida dos Santos mostra o quadro do Detetive dos Números Foto: Leo Munhoz / Agencia RBS

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Uma nova forma de aprender

À sombra das árvores, sentados na escada ou dentro da sala de aula, os alunos da Escola Básica Municipal João Gonçalves Pinheiro, no Rio Tavares, escrevem em notebooks os textos para a disciplina de Língua Portuguesa. Para os estudantes das turmas do 7º ao 9º ano, o principal limite para colocar suas ideias no papel, ou melhor, na tela, é o alcance do wi-fi.

O uso do Google Docs acabou com o que era um desestímulo para os estudantes: reescrever à mão após das correções da professora de Língua Portuguesa Rosinete dos Santos Freitas. O Google Docs é um ambiente virtual, onde o aluno pode digitar os textos, ler os comentários da professora e compreender onde melhorar. Tendo como aliada a professora de Tecnologia Educacional Catia Regina Bernardes Fernandes, Rosinete viu que, com o sistema, os alunos passaram a escrever mais. Assim surgiu há dois anos o projeto Espaço Literário que hoje conta com 175 editores e agora migrou para um endereço de melhor acesso (confira neste link clic.sc/EspacoLiterario).

O projeto ganhou um novo impulso com a chegada de 105 notebooks adquiridos pela Secretaria Municipal de Educação ano passado.

— Houve uma melhora no desempenho. A correção também facilitou, além disso, consigo ter uma ideia melhor dos conteúdos que preciso reforçar em sala de aula. Percebo, por exemplo, se alguma turma ou aluno tem mais dificuldade com o uso da vírgula, então, volto neste tema para ajuda-los a melhorar — explica Rosinete.

Outra possibilidade é que os textos dos estudantes, depois de corrigidos, são publicados no site que é aberto ao público. Adolescentes que já demonstravam aptidão para escrever se sentiram ainda mais motivados. É o caso de Victor Nunes Boatto Lima, de 15 anos.

— Tenho mania de escrever com caneta e, com as correções, ficava mais complicado. Gosto de criar histórias, isso me ajudou muito — conta o aluno do 9º ano.

A professora Catia complementa que projeto também ajudou o ensino de questões atuais, como o uso do Google Docs, os conceitos de salvar em nuvem (ambiente virtual) e a responsabilidade de publicar na internet. Ela reforça que este conteúdo poderá ser usado pelos adolescentes quando entrarem no mercado de trabalho.

— Com o projeto também há uma troca. Nós também aprendemos com eles. Eles trazem sugestões e nos estimulam a pesquisar. Os alunos também estão mais conscientes sobre o uso da internet — completa a professora.

O Espaço Literário não é o único projeto da Escola João Gonçalves Pinheiro que usa a criatividade no ensino. De acordo com a diretora Nicole da Silva Freitas Rodrigues, os professores são estimulados a criar. As aulas acontecem em salas ambiente, ou seja, são exclusivas de cada disciplina, onde são realizadas ideias como o Clube de Ciências e envolver música com literatura, por exemplo. 

Da esquerda para a direita: professoras Catia Regina Bernardes Fernandes e Rosinete dos Santos Freitas e os alunos Victor Lima, Laura Martins e Elisa Iuskow  Foto: Betina Humeres / DC

Criatividade é resultado de um trabalho em conjunto

As escolas precisam se atualizar à realidade dos alunos, mas isso só ocorre quando há um esforço conjunto envolvendo professores, pais e a comunidade. Doutora em Educação, Sandra Cristina Vanzuita da Silva explica que o ensino tem que se adaptar às ferramentas que as crianças utilizam no dia a dia, mas o professor, sozinho, não tem como desenvolver algo sem que haja um projeto pedagógico em conjunto. Além disso, é importante haver investimentos que favoreçam estas práticas, como em notebooks, tablets e outras ferramentas.

Para ela, jogos e outras ferramentas ajudam no ensino e ajudam os alunos a resolver problemas, desenvolver as habilidades de escolha e a interpretar melhor as questões. Outro ponto positivo é que trabalha também o emocional e a convivência entre os estudantes.

— A escola precisa reformular a forma de ensino, mas, para isso, precisa ter condições. Muitas recebem kits pedagógicos prontos que não vão ao encontro da perspectiva da escola. Para que o professor possa criar, ele precisa ter uma estrutura favorável. É preciso que gestor, professor e comunidade tenham projeto de escola, que seja vivido, que seja cobrado e também que os pais participem — completa Sandra. 

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