Filme sobre ensino médio é boa reflexão para quem acredita que a suposta meritocracia salvará a pátria Maria Farinha Filmes/Divulgação

Foto: Maria Farinha Filmes / Divulgação

Como sonhar ou ambicionar algo que mal se conhece ou parece inalcançável? A realidade é que a escola e a sociedade matam pouco a pouco o que ainda resta de aspiração nos jovens brasileiros. Escolas ultrapassadas, professores desmotivados, métodos de ensino tão antiquados que um adolescente sente aprender mais ao pesquisar o que lhe interessa na internet – quando tem acesso a ela – do que na sala de aula. 

O documentário Nunca me sonharam, que estreou nesta quinta-feira em Santa Catarina, propõe a reflexão sobre o que levou o ensino médio público à bancarrota. E mais: diante da atual tentativa de reformá-lo, chega-se à conclusão de que ninguém perguntou ao jovem o que ele realmente quer. Mas ainda dá tempo. 

De Cocal dos Alves (PI) a Porto Alegre (RS), adolescentes expõem angustias e anseios. Em diversos momentos, é impossível não se comover com os depoimentos dos jovens:

– Como meus pais não foram bem-sucedidos, não incentivaram a estudar. Nunca me sonharam em ser psicólogo, médico, professor. Eu tive de aprender a sonhar – enfatiza o estudante Felipe Lima, 17 anos, de Nova Olinda, sertão do Ceará. 

O filme dirigido por Cacau Rhoden (Tarja Branca – A Revolução que Faltava; 2013) ressalta que a educação é a porta de entrada para todos os direitos, como atesta em um dos depoimentos o economista Ricardo Paes de Barros. No elenco de especialistas, o longa conta ainda com renomados pensadores, como o ex-ministro da Educação e professor da USP Renato Janine Ribeiro, o psicanalista Christian Dunker e a professora Bernadete Gatti.

Professores que pelo amor ao sacerdócio que assumiram muitas vezes gastam do próprio salário para garantir o lanche de alunos, material para as aulas ou para recuperar a estrutura das escolas; estudantes que se voluntariam a cuidar da biblioteca para que não feche, ou a enfrentar os próprios pais – que preferem que os ajudem no trabalho – para se dedicar aos estudos.

De fotografia simples, mas delicada, Nunca me sonharam convida a percorrer corredores das escolas do subúrbio de 10 Estados. Santa Catarina não aparece em cena, mas apesar de o Estado ostentar bons índices educacionais no ensino fundamental, tem a mesma realidade preocupante no ensino médio que o restante do país, com crescimento de evasão escolar logo no primeiro ano.

Foto: Maria Farinha Filmes / Divulgação

O longa discute ainda a opressão das elites sobre os mais pobres, contra a diversidade de gênero e etnias nas escolas brasileiras. A escola cheia de grades, que nem de longe faz lembrar o ideal de liberdade. E o tamanho esforço que um jovem do subúrbio empenha diariamente para fugir da vida sem perspectivas que seus pais lhe deram. Boa reflexão para quem acredita que a suposta meritocracia salvará nossa pátria. 

Ainda assim, resiste um otimismo de que o futuro é agora e que pode melhorar:

– Eu quero ser professor – afirma o estudante José Maria dos Santos, de Nova Olinda.

Para sonhar, é preciso saber que se pode chegar lá.

Nunca me Sonharam

Em cartaz: Cinespaço, Beira-Mar Shopping, sessões às 18h. No sábado, 24 de junho, Sessão Exclusiva Clube do Professor, às 11h.
Direção:
Cacau Rhoden
Produção: Maria Farinha Filmes
Elenco: Christian Dunker, Renato Janine Ribeiro, Gersem Baniwa, Mel Duarte, Macaé Evaristo, Regina Novaes, Bernadete Gatti, Marcus Vinicius Faustini, Ricardo Paes de Barros, Alemberg Quindins
Documentário, Brasil, 2017, 96min, 10 anos.

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