Moradores da Chico Mendes, em Florianópolis, se mobilizam e conseguem voltar a estudar  Diorgenes Pandini/Diário Catarinense

Andreza está dedicada na volta aos estudos e sonha em arranjar um bom emprego

Foto: Diorgenes Pandini / Diário Catarinense

Existe uma situação no bairro Monte Cristo, em Florianópolis, difícil de explicar. Uma comunidade dividida entre medo, ameaças e também vontade de mudanças. A condição imposta pela falta de segurança faz quem está diretamente ligado ao furacão — e muitas vezes, quem não tem nada a ver com a história também — a viver de forma regrada. Jovens deixaram de lado estudos, porque não conseguiam ir à escola. Lá, poderiam encontrar inimigos. Ou ainda largaram os livros porque foram proibidos pelos companheiros. Só que essa realidade não impediu que desistissem dos sonhos. E, felizmente, voltar a estudar estava entre eles.

Andreza Rodrigues Ribeiro, 17 anos, moradora da Chico Mendes, uma das comunidades do Monte Cristo, casou-se jovem e tem um filhinho de dois anos. Vinda de Lages, deixou de ir à escola ainda em 2013, sem concluir sequer o ensino fundamental. Hoje, ela conta que se arrepende da decisão tomada há quase cinco anos. Viu a falta que faz uma educação básica.

— Para arrumar um serviço é ruim. Quero me formar no ensino fundamental, e depois tentar fazer o ensino médio. Quero dar uma condição melhor para o meu filho — revela.

Quando criança, conta, sonhava em ser professora ou médica veterinária. Hoje, diz que coube à vida mostrar que nem tudo é tão fácil.

— Só quero arranjar um emprego bom. E que eu consiga ser feliz nele — observa.

Mateus Jacinto dos Santos, 17, também parou de estudar em 2013. Disse que não podia ir à escola do bairro por falta de segurança. Mas nunca desistiu da ideia de aprender a ler e escrever. Principalmente a escrever, diz, sorrindo. Ele quer concluir o ensino fundamental para tirar carteira de motorista. Se pá, e ele tem torcida para isso, volta para concluir também o ensino médio — que ainda não foi viabilizado na Chico. Questionado se ele pensa em fazer faculdade, só ri, timidamente.

 FLORIANOPOLIS, SC, BRASIL: Comunidade da Chico Mendes ganha sala do EJA dentro da ONG Geração da Chico. Mateus Jacinto dos Santos, 17 anos (Foto: Diorgenes Pandini/Dário Catarinense)
Mateus foi um dos jovens que pediu ajuda à Karol para que uma unidade da EJA fosse implantada na ChicoFoto: Diorgenes Pandini / Diário Catarinense

Mateus, Andreza, e outros amigos — ao todo são aproximadamente 10 jovens — foram os que levantaram o coro na Chico para que a comunidade ganhasse uma turma do Educação de Jovens e Adultos (EJA). E eles recorreram à psicóloga Ana Karolina Oliveira, de quem já são próximos.

A Karol, como é chamada, desenvolve um trabalho social na comunidade, por meio da Geração da Chico. O projeto social atende cerca de 40 crianças e adolescentes e funciona em uma das salas do Conjunto Habitacional Chico Mendes, bem no coração da comunidade.

— Desde o final do ano passado eles vinham falar comigo para dar uma força para que uma turma do EJA fosse aberta no projeto social. Eles queriam muito. E, pela situação do bairro, precisava ser aqui no conjunto habitacional ou no projeto. Vinham falar comigo quase todos os dias — observa a psicóloga.

Uma sala nova para logo

Hoje, o bairro Monte Cristo já conta com uma turma do EJA no Cedep, ONG do Instituto Padre Vilson que atua há quase 30 anos na comunidade. Mas a organização social fica em outro canto do bairro, o que tem impedido os jovens de irem até lá, principalmente à noite. A briga entre facções criminosas é uma das razões.

— E para uma mulher andar sozinha à noite, é complicado. A gente se sente mais segura aqui do lado de casa, dentro do projeto social — comenta a jovem Andreza.

Karol se mobilizou e contou com apoio do vereador Vanderlei Farias, que ajudou a fazer o intermédio com o poder público de Florianópolis. Isso, lá no começo do ano. A psicóloga realizou reuniões e mais reuniões no projeto social para identificar quem da comunidade tinha interesse em fazer as aulas. E nessa luta, eles foram vitoriosos. A Secretaria do Continente, com apoio da Educação, implantou uma unidade do EJA dentro da Geração da Chico. Foram 53 matrículas, e a média por dia é de 40 alunos. O que já dá para dizer que as aulas são um sucesso.

— Nós temos um espaço pequeno, mas demos um jeito para liberar uma sala para o pessoal à noite. Mas tem dias que aparece tanta gente, que já fica apertado — comenta Karol.

 FLORIANOPOLIS, SC, BRASIL: Comunidade da Chico Mendes ganha sala do EJA dentro da ONG Geração da Chico. Carol da ONG Geração da Chico . (Foto: Diorgenes Pandini/Dário Catarinense)
A Karol está sempre do ladinho da comunidade Chico Mendes, junto da Associação de Moradores, para tentar fazer a diferença no localFoto: Diorgenes Pandini / Diário Catarinense

Há duas semanas, o secretário do Continente, Edinho Lemos e equipe estiveram no conjunto habitacional e informaram à comunidade que vão reformar uma das salas para abrigar a nova turma da EJA. Como desejado, as aulas continuarão a ocorrer pertinho de todos.

— A ideia é que a sala de aula fique maior e mais confortável aos alunos. Também estamos trabalhando para em seguida termos uma turma de jovens e adultos para concluir o Ensino Médio — promete o secretário.

“Não vou desistir de estudar, Deus o livre!”

Quando nova, o primeiro companheiro da moradora da Chico, Cleuza Aparecida de Oliveira, hoje com 37 anos, a proibiu de ir para a escola. Ela parou de estudar aos 13 e até o mês passado nunca mais havia pisado em uma sala de aula. Ela trabalha como auxiliar de cozinha, mas sonha com uma promoção ou com um emprego melhor. Para isso, precisava voltar a estudar.

O marido atual de Cleuza, Claiton Adriano de Oliveira, 36 anos, também não se formou no ensino fundamental e, juntos, resolveram encarar o desafio quando souberam que havia chances de uma unidade da EJA ser aberta no conjunto habitacional da comunidade _ esse, que um dia já foi apelidado de Carandiru.

— Ficamos muito felizes quando conseguimos abrir a turma. A gente não precisa se arriscar à noite, não precisa pagar vale-transporte, não fica longe das quatro meninas (as filhas de Cleuza) — conta.

Mesmo só no primeiro mês de aula, Cleuza já afirma que, assim que terminar o EJA, quer concluir o ensino médio. Já está interessada em fazer um curso gratuito de panificação, prometido pela Secretaria do Continente. E sonha até com um ensino superior, por que não? Ela sonha com a profissão de médica veterinária:

— A gente não sabe se vai ter cabeça para estudar mais tarde. Mas vou fazer de tudo para dar certo. Não vou desistir de estudar, Deus o livre!

Vem estudar!

Está interessado em voltar a estudar também? Vai, mô quirido. É demais saber ler e escrever direitinho. Em Florianópolis, são 15 unidades da EJA. Se teus olhinhos brilharam com os exemplos de Cleuza, Andreza e companhia, ligue para o número (48) 3212-0925 ou procure informações na escola que fica mais perto da sua casa.

Onde ficam as unidades:

EJA Centro
1-Escola Silveira de Souza
Rua Alves de Brito, 334 — Centro
Período: matutino, vespertino e noturno

 2-Núcleo de Estudos da Terceira Idade (NETI) — UFSC
Avenida Desembargador Vitor Lima, 145 — Trindade
Período: matutino e vespertino

 3-ASGF — Associação de Surdos da Grande Florianópolis
Rua Trajano, 168, Ed. Berenhauser, 6º andar — Centro
Período: vespertino e noturno

 4-EBM Donícia Maria da Costa
Rodovia Virgílio Várzea, s/n — Saco Grande
Período: noturno

EJA Continente
1-EBM Almirante Carvalhal
Rua Bento Goiá, 113 — Coqueiros
Período: noturno

2-Biblioteca Barreiros Filho
Rua João Evangelista da Costa, 827 – Estreito
Período: noturno

3-CEDEP
Rua Frei Fabiano de Cristo, s/n — Monte Cristo
Período: noturno

4-Chico Mendes
Servidão Pétalas Dumont, Conjunto Habitacional Chico Mendes — Monte Cristo
Período: noturno

EJA Norte
1-EBM Herondina Medeiros Zeferino
Servidão Três Marias, 1072 — Ingleses
Período: noturno

 2-EBM Maria Conceição Nunes
Rua Luiz Duarte Soares, 222 — Rio Vermelho
Período: noturno

 3-EBM Henrique Veras (Círculo de Leitura e Escrita)
Rua João Pacheco da Costa, 249 — Lagoa da Conceição
Período: noturno

 4-EBM Osmar Cunha
Rodovia Tertuliano de Brito Xavier, 661 — Canasvieiras
Período: noturno

EJA Sul
1-EBM Professor Anísio Teixeira
Rua João Câncio Jacques, 1461 — Costeira do Pirajubaé
Período: noturno

 2-EBM João Gonçalves Pinheiro
Rua Sílvio Lopes Araújo, s/n — Rio Tavares
Período: noturno

 3-EBM José Amaro Cordeiro
Rodovia “Seu Chico” Francisco Thomaz dos Santos, 1691 _ Morro das Pedras
Período: noturno

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