Florianópolis é a capital com o menor índice de analfabetismo  Marco Favero/Diário Catarinense

Natural do Ceará, dona Antônia Lima da Silva foi aprender a ler e a escrever quando tinha mais de 60 anos

Foto: Marco Favero / Diário Catarinense

Florianópolis é a capital brasileira com o menor índice de analfabetismo no país. Em 2017, a taxa de pessoas com 15 anos ou mais sem saber ler e escrever atingiu 0,8% – em 2016, era 1,6%. Os dados estão no módulo educação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua 2017, divulgada pelo IBGE na sexta-feira. No levantamento anterior, o município aparecia na terceira posição, atrás de Rio de Janeiro e Curitiba.

Com 2,6% das pessoas analfabetas nesta faixa de idade, Santa Catarina se manteve na terceira posição entre os Estados brasileiros, atrás de Distrito Federal e Rio de Janeiro, ambos com 2,5%. Em 2016, o índice catarinense também era de 2,8% (veja mais no quadro ao lado).

No Brasil, a taxa de analfabetismo alcançou 7% em 2017, redução de 0,2 ponto percentual na comparação com o ano anterior (7,2%). Apesar da melhora modesta, o país ainda está longe da meta 9 do Plano Nacional de Educação, que determinou a redução do índice para 6,5% em 2015 e a erradicação até 2024.

O especialista em alfabetização e professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da Udesc Lourival José Martins Filho reforça que a redução da taxa pela metade em Florianópolis sinaliza um aumento do compromisso do poder público e da sociedade com a aprendizagem e está relacionada ao trabalho das turmas e dos núcleos de educação de jovens e adultos (EJA). 

Investimento em polos do EJA

O secretário de Educação de Florianópolis, Maurício Fernandes Pereira, confirma que o município ampliou os polos de educação de jovens e adultos na cidade. Atualmente, são 147 estudantes matriculados no primeiro segmento (equivalente ao 1o ao 5o ano do ensino fundamental), além de 1.117 que buscam concluir o ensino fundamental (6o ao 9o). São 23 localidades para atender a esses grupos na Capital. Em 2016, eram 16 polos e em 2017, 17.

Mas Martins Filho acrescenta que é fundamental que o índice continue melhorando.

– O cenário é positivo, mas não pode nos deixar tranquilos. Aprender é um direito de todo ser humano, independente de sua categoria geracional. Então não haverá motivos para comemorar enquanto o direito de ler o mundo por meio das palavras não for garantido para todos.

Prova disso é que a Capital ainda tem 3 mil analfabetos, segundo a pesquisa do IBGE. Em 2016, eram 7 mil. Para resolver o problema, o secretário de Educação aponta medidas como a oferta de turmas, políticas públicas permanentes e escolas no período noturno com a mesma qualidade do diurno.

 FLORIANÓPOLIS, SC, BRASIL - 18/05/2018A cearense Antonia Lima da Silva, 66, está sendo alfabetizada no EJA na Escola Donícia Maria da Costa, no bairro Saco GrandeIndexador: Diorgenes Pandini
Florianópolis apresentou uma significativa melhora no índice, que em 2016, esse índice era de 5,4%Foto: Marco Favero / Diário Catarinense

Na escola depois dos 60 anos

Quando o parâmetro são as pessoas acima de 60 anos, Santa Catarina passa a ser a segunda melhor colocada do país no ranking do IBGE com a taxa de 8,1%, atrás de Rio de Janeiro (6,4%). Neste recorte, Florianópolis aparece com o menor número de pessoas sem saber ler e escrever (2,3%). A cidade apresentou uma significativa melhora. Em 2016, esse índice era de 5,4%.

Era o caso da dona Antônia Lima da Silva, hoje com 66 anos. Natural de Frecheirinha, interior do Ceará, ela não chegou a ter acesso ao ensino na infância. Foi aprender a ler e a escrever o próprio nome quando tinha mais de 60 anos e morava em outro Estado. O incentivo para estudar veio depois que a filha, 43, se formou na escola de jovens e adultos (EJA), em Florianópolis.

A pedido da filha, Antônia se mudou para a Capital catarinense em 2011. Primeiro veio a neta, que conseguiu trazer a própria mãe. Hoje aposentada, ela se dedica aos estudos. Matriculada no primeiro segmento do EJA, na escola Donícia Maria da Costa, no bairro Saco Grande, conta que há três anos conseguiu tirar novos documentos, substituindo a impressão digital pela grafia do próprio nome.

A aposentada lembra que no primeiro dia de aula escrevia "as letras misturadas, juntas uma das outras", mas que com o tempo e com ajuda e paciência da professora soube que aquela não era a maneira correta de escrever. Antônia se alegra ao responder que prefere a leitura de livros e que seu sonho é um dia ler a bíblia. Para ela, o conhecimento adquirido mudou o dia a dia.

– Agora, presto atenção para onde eu vou. Vou até o Centro e consigo voltar para minha casa. Antes me perdia nas ruas, não sabia onde estava. Perguntava para o motorista onde eu estava, e ele me falava que eu estava longe de casa.

O coordenador estadual da pesquisa do IBGE, Ilson Gonçalves, reforça que SC, de um modo geral, apresenta bons resultados na educação, mas ainda precisa avançar em políticas públicas. O levantamento mostra, por exemplo, que 195 mil crianças até cinco anos estão fora de creches no Estado e os motivos são falta de interesse dos pais, além de ausência de vagas em unidades.

Queda no número de nem-nem

Outro dado apresentado pela pesquisa do IBGE foi em relação à ocupação dos jovens. Ao contrário do país, Santa Catarina registrou queda no número de jovens "nem-nem", aqueles que não trabalham nem estudam. Em 2016, 14,7% dos catarinenses entre 15 e 29 anos se encaixavam nesta categoria, mas, em 2017, caiu para 14,3%, o que fez o Estado se manter com a menor taxa do país. Enquanto em 2016 eram 233 mil sem trabalhar ou estudar, em 2017 foram 229 mil.

No Brasil, 23% pessoas fazem parte desta geração. Em 2016, o percentual era de 21,8%. Segundo o IBGE, esse aumento pode estar relacionado ao momento econômico. No país, esse contingente chegou a 11,2 milhões em 2017.

O economista e cientista político Eduardo Guerini explica que SC tem a menor taxa do país de jovens que não trabalham nem estudam porque o Estado apresenta melhores condições socioeconômicas, menor nível de desemprego e maior acesso à educação formal do que o restante do país. Mas não descarta um aumento desse contingente de jovens "nem-nem" no Estado.

– SC sempre recebe o impacto desse tipo de crise a posteriori. O nível de informalidade e de desemprego tende a crescer por uma série de fatores conjunturais e estruturais, como desindustrialização e crise nos setores mais fortes da economia catarinense, além da reforma do ensino médio. Tudo isso tende a agravar essa situação – defende o economista.

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