1972 foi um ano de discos clássicos para a MPB Procultura/Divulgação /

Caetano Veloso, na foto em apresentação nos anos 1970, gravou "Transa" em Londres

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Os saudosistas que lamentam a falta de novidades e de efervescência no atual cenário musical brasileiro costumam apontar para as décadas passadas para justificar a lamentação. Mas estariam errados? Pode ser, mas alguns anos parecem ser mágicos.

Um dos emblemáticos é o de 1972, no qual foram lançados alguns dos discos emblemáticos para criar os diferentes sons que, mais tarde, seria englobado sob a alcunha MPB. Transa, disco que Caetano Veloso gravou durante o exílio em Londres, retorna às prateleiras em edição remasterizada nos estúdios Abbey Road, no formato CD e também na célebre edição em vinil, que vinha com uma capa dobrável e montável (o "discobjeto"). Essa original estava há muito fora de catálogo. Muitos o consideram o melhor disco de Caetano.

Mas é só um dos clássicos que completa quarenta anos em 2012. Gilberto Gil também lançava à época Expresso 2222, e surgiam dois trabalhos com profunda influência em tudo o que foi feito a partir de então na música brasileira: Acabou Chorare (1972), a estreia dos Novos Baianos, e o Clube da Esquina, de Milton Nascimento e Lô Borges. No samba, A Dança da Solidão, de Paulinho da Viola, era a prova do talento do músico e capitaneava toda uma nova geração de artistas do gênero, como Martinho da Vila, Beth Carvalho e Clara Nunes.

À época, claro, ninguém chamaria tais obras de clássicos. De início, nenhuma delas tem uma grande ruptura em relação ao que se produzia a partir dos tropicalistas. Gil e Caetano voltavam do exílio, experiência que marca profundamente Transa (gravado no Inglaterra pelo produtor Ralph Mace) e, em grau menor, o Expresso de Gil.

Os Novos Baianos misturavam, só que de maneira mais radical. Flertavam com João Gilberto (que visitou os músicos na gravação) e com Jimi Hendrix com a mesma intensidade, sem negar as raízes baianas. O Clube da Esquina adiciona os mistérios das montanhas mineiras a jazz, rock — inclusive o progressivo — e regionalismos.

O impacto pode ser sentido em praticamente tudo o que se seguiu em termos de música popular. O músico catarinense Luiz Meira ficou até surpreso com a coincidência: acabou de comprar uma edição especial do Clube da Esquina, lançada em um CD com o sucessor, o Clube da Esquina 2.

- É um disco fundamental. Tenho uma grande influência dele, Milton e Lô Borges são importantes na minha formação. Todos os demais são discos que realmente marcaram - analisa o músico.

Baixista do grupo Engenho, o músico e professor Marcelo Muniz é outro que relembra com admiração dos discos de 1972.

- São os discos significativos de artistas que nos influenciaram diretamente como músicos e compositores. Aprendi muito com eles. Dá para comparar o que o Clube da Esquina fazia com a cultura mineira com o jeito que o Engenho dialogava com a cultura catarinense - observa.

Os Clássicos

Acabou Chorare, Novos Baianos

Os Novos Baianos — Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor, Baby Consuelo, Galvão e a banda Leif's (capitaneada pelos irmãos Pepeu e Jorginho Gomes) ocupavam um apartamento no Rio de Janeiro quando gestavam esse disco, que seria o primeiro lançamento da gravadora Som Livre. Se a Tropicália era moderna, Acabou Chorare era pós-modernidade, misturando a música regionalista, rock guitarrístico, bossa nova, samba, choro e o cancioneiro brasileiro. Entre os clássicos, Preta Pretinha, Besta É Tu e Brasil Pandeiro. Esteticamente, pouco se avançou desde então.

Clube da Esquina, Milton Nascimento & Lô Borges

Na praia, em Piratininga (Niterói), Milton e garoto Lô passaram um ano e meio criando. Não era apenas um trabalho de dupla: gente como Ronaldo Bastos, Márcio Borges, Beto Guedes e Fernando Brant vinha de Minas Gerais para visitar e compor com os conterrâneos. O resultado ainda hoje soa moderno em sua estrutura desencanada, juntando pop, Beatles, progressivo toadas e jazz. Entre os clássicos, Trem Azul, Nada Será Como Antes, Paisagem Na Janela e San Vicente. O nome faz referência ao encontro das ruas Divinópolis e Paraisópolis, onde os amigos se reuniam em Belo Horizonte.

A Dança da Solidão, Paulinho da Viola

O disco marca o fim do preconceito que barrava a entrada do samba pela porta da frente no clube fechado da MPB. Pouco antes de completar 30 anos, ele já enfeitiçara o Brasil com o samba Foi um Rio que Passou em Minha Vida. Mas foi Dança da Solidão que sedimentou Paulinho na calçada da fama da música brasileira. A sofisticação do intérprete em Acontece, de Cartola, a veia popular no partido alto Pagode do Vavá, a parceria com o pós- tropicalista Capinam em Coração Imprudente não deixariam dúvidas. Mas a faixa-título tornou-se sucesso com Beth Carvalho e Marisa Monte, provando a capacidade atemporal de comunicação da sua obra.

Expresso 2222, Gilberto Gil

Trata-se do primeiro disco de Gil após a volta do exílio em Londres. O nome do trabalho é uma homenagem ao trem no qual Gil deixava sua cidade natal em direção a Salvador. Tornou-se modelo do crossover entre pop e MPB, que serve como parâmetro para qualquer um dos compositores-cantores atuais. Entre as clássicas estão a faixa-título, Macrobiótica e os sucessos Chiclete com Banana e O Sonho Acabou: "O sonho acabou / quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou". Outro momento eterno é Oriente, regravada por Elis Regina no ano seguinte.

Transa, Caetano Veloso

Em sua edição original - que acaba de ser relançada, em vinil - era um discobjeto: a capa se dobrava para formar um poliedro triangular. O disco foi produzido pelo inglês Ralph Mace e, mesmo sendo lançado quando Caetano já havia voltado de Londres, é a crônica fragmentada do desterro. Letras em inglês, misturadas a trechos em português de outros autores, não disfarçam o sentimento de melancolia com que essas canções são interpretadas. You Don't Know Me é um rock ao melhor estilo tropicalista, It's a Long Way revisita origens regionalistas e Triste Bahia é talvez o maior momento da carreira do artista.

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