O curador anônimo: imprimir na cidade um novo conceito de arte urbana, mas manter-se no anonimato Calazans/Arquivo Pessoal

Intervenção instalada próxima ao CIC, na Capital

Foto: Calazans / Arquivo Pessoal

A figura do autor, em pessoa, é provável que poucos conheçam - a reportagem bem que tentou marcar um encontro, porém o máximo que conseguiu foi a fotografia digital de uma silhueta no contraluz - mas é certo que boa parte da população que circula por algumas das principais avenidas da Ilha de Santa Catarina já se deparou com as intervenções urbanas de Calazans.

Pelo menos foi isso que deram a entender as mensagens de alguns leitores, enviadas ao jornal com pedidos de mais informações sobre o artista e sua obra. E foram várias as dúvidas que surgiram a partir daí: seria Calazans uma pessoa, um pseudônimo, um projeto coletivo?

Segundo informações enviadas pelo próprio, ele nasceu em Florianópolis, tem 31 anos e até pouco tempo atrás era CEO de uma empresa de telecomunicações. Em breve, diz que irá expor seus trabalhos na Alemanha e nos Estados Unidos. Abaixo, a entrevista feita por email com o nome por trás das cabeças de Van Gogh.

Como surgiu a ideia de criar imagens e espalhá-las pela cidade?

Calazans - Desde os 11 anos faço arte nas ruas, só que era mais sutil e passava despercebido e ignorado. Acho interessante as pessoas indo para o trabalho ou para casa e aparecer como uma mensagem subliminar de uma obra de Gustav Klimt, Modigliani, Van Gogh, Picasso, Egon Schiele...Calazans? É como ser um curador de uma grande galeria e proibido de expor. Mas expondo.

A cabeça de Vincent Van Gogh com um óculos 3D está em várias partes da Ilha. O que ela representa?

Calazans - Quando era criança, minha mãe me chamava de Van Gogh porque eu gostava muito de batatas. A cabeça é um símbolo popular. Um elemento forte é essencial no processo de comunicação e a cabeça de Van Gogh tem o elemento que expressa paixão/ódio. Os óculos são de 3ª dimensão para dar impressão de que está enxergando diferente dos outros, e o colorido no contraste do P/B fica muito bem equilibrado, atual e dentro da cultura pop. Não foi feito para criar choque. Acho que é de mau gosto querer chocar. Tem que ser sutil, equilibrar a mensagem. Eu faço obras com água e óleo, meio a meio.

Por que a escolha por esse tipo de arte e o que pensa da arte tradicional, em museus e galerias?

Calazans - A rua é muito democrática, todos podem apreciar arte sem pagar nada. Acho que a arte tradicional é segmentada, tudo em um molde perfeitamente pré-fabricado. Mas também não quero ser o radical chato, tem muita coisa boa e muitos museus já ousam desobedecer ao modelo do politicamente correto, e quando isso acontece todos que apreciam verdadeiramente a arte agradecem. Museus de todo mundo estão começando a trazer a arte urbana para dentro das suas paredes. Acho que encheram os olhos de lágrimas com as cifras das artes urbanas em leilões e galerias.

Algumas pessoas acham que esse tipo de intervenção é uma forma de vandalismo.

Calazans - Acho natural um leigo não saber diferenciar arte de vandalismo, já que infelizmente existe mais vandalismo do que arte e escolas. Para um alienado fica difícil diferenciar arte, vandalismo, política... qualquer coisa. Muitos intelectuais também confundem e tiveram ótimas escolas. Nesse caso, é falta de sexo, mesmo. O interessante é que o Brasil é o único país que tem duas palavras para diferenciar arte do vandalismo: pichação entendamos como vandalismo e grafite normalmente é referido somente para arte.

Lugares como Londres já evoluíram mais neste ponto, até protegendo obras de alguns artistas mais famosos nas ruas, mas ainda é tabu mundial. Em contrapartida, a publicidade está caminhando ao lado da arte urbana com seus artistas. A arte urbana também evoluiu muito neste ponto comercial, como diz a letra da música: "seja punk, mas não seja burro!"

Como você vê o cenário da arte urbana, hoje, em Florianópolis e no Brasil?

Calazans - Em Florianópolis, como nas grandes capitais, há excelentes artistas urbanos. Na proporção de habitantes por bons artistas, acho que Florianópolis ganha. Aqui vivem artistas de todo canto, gosto muito do trabalho do Danka, Vejam, Rizo, Viti, Govêa, Driin [...] no Brasil temos artistas no top mundial como os Gêmeos, Eduardo Kobra [...]. A arte urbana sempre esteve presente desde as cavernas e em toda cidade. Quando não tinha internet, o artista urbano Baskiat já era muito famoso, agora com internet os trabalhos são mostrados na íntegra para todo mundo. Então sempre tivemos grandes artistas urbanos, porém hoje conhecemos mais trabalhos e artistas, Banksy, Aryz, Gêmeos, Dolk, Calazans?

Notei que você tem muitas fotos de obras de Juarez Machado no seu álbum do Facebook. Por quê?

Calazans - JM, como Luciano Martins, são alguns dos responsáveis pela minha entrega na arte, apesar do estilo completamente diferente. JM, principalmente, que acompanho por mais tempo, me fez ver que artistas são reais, não estão apenas em museus, livros ou filmes e principalmente que um artista, trabalhando direitinho, pode até pagar suas contas. Uma vez levei de moto um quadro para ele e quase aconteceu uma tragédia no caminho, nem sei se ele recebeu. Você recebeu, Juarez?

DIÁRIO CATARINENSE
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