Tudo vira literatura: as múltiplas facetas de Carlos Henrique Schroeder Charles Guerra/Agencia RBS

Carlos Henrique Schroeder: "Preciso estar fazendo várias coisas ao mesmo tempo"

Foto: Charles Guerra / Agencia RBS

Em uma gelada segunda-feira de julho, Carlos Henrique Schroeder pega um café na máquina self service e se instala em uma poltrona giratória no lobby do hotel Valerim Plaza, Centro de Florianópolis.

Pela vidraça que contorna o ambiente é possível observar as pessoas, mergulhadas em cachecóis, na esquina da Padre Roma com a Felipe Schmidt. Ali ele espia de vez em quando, enquanto fala e movimenta a cadeira de um lado para o outro, parecendo indeciso entre manter o norte da conversa e ceder a outros pensamentos.

O assunto não tem propriamente um foco, já que Schroeder emenda uma coisa na outra e vai relacionando quase tudo à literatura: do café ele passa para a explicação do curso de escrita criativa que ministra pelo Sesc – motivo de sua vinda a Florianópolis –, fala do hotel, da vida movimentada que leva, da casa em Garopaba e dos amigos com quem gosta de conversar sobre livros, passando por uma breve divagação a respeito do filme O Pianista, que compara às táticas de guerrilha das pequenas editoras de livros.

– No começo a cidade está tomada pelos alemães, ele está sozinho escondido. Depois começam a explodir as coisas, a fazer uma guerrilha interna. É isso que as editoras pequenas fazem: atacam pequenos nichos pra ir ganhando espaço.

A cena também serve para ilustrar o que o próprio Schroeder faz. Com 35 anos de idade e uma dezena de livros publicados, além de outros a caminho, seu nome dificilmente é lembrado apenas como escritor.

Desde os 13 anos, quando incentivado pela oma (como os descendentes de alemães chamam as avós) escreveu uma história sobre a Guerra do Vietnã, a literatura se tornou central em sua vida: virou também editor de livros, curador, idealizador e produtor de eventos literários, aliás dos mais requisitados em Santa Catarina e fora. Ainda pela vidraça do Hotel Valerim, Schroeder olha para a rua e explica como quem traça personagens:

– Eu aqui estou vendo tudo. Vejo ali uma mulher de preto, outra que vai atrás com roupa clara. A primeira olha pra frente, a segunda para baixo. Eu sei o que ela está pensando...

O agitador da cultura

– Gosto bastante do Carlos como escritor e também me impressiona a forma como atua para promover e divulgar a literatura, seja como editor ou organizando eventos. Acho que é um dos caras que mais move a literatura por aqui - comenta o ilustrador Pedro Franz, que recentemente adaptou o livro Ensaio do Vazio, de Schroeder, para os quadrinhos.

Para Carlos Schroeder, essa multiplicidade de tarefas profissionais - que ainda concilia com a esposa Deborah e o filho Henrique, de três anos; ele também acaba de saber que será pai novamente - é explicada pela combinação de dois fatores: hiperatividade e déficit de atenção.

- Acabo espalhando minha atenção: edito livros, organizo eventos literários, escrevo, preciso estar fazendo várias coisas ao mesmo tempo.

Tal necessidade o levou a se transformar em algo mais que um escritor: virou um "agitador" da cultura no Estado. O amigo Manoel Ricardo de Lima, também escritor, o descreve assim:

– Acho que o Carlos é muito próximo de duas ideias que tenho sobre ele. A primeira, que vem de um texto de Ernst Bloch, o do quanto uma criança impõe sobre o mundo, como utopia, ao desembrulhar e quebrar apressadamente um brinquedo; a segunda, que é preciso manter algum gesto nonsense com a vida para que se possa sobreviver nesse mundo empobrecido de invenção e de delicadeza. E isso é precioso.

Literatura é negócio

Nascido em Trombudo Central, no Vale do Itajaí, a trajetória de Carlos Henrique Schroeder na literatura não padece das angústias que levam muitos catarinenses para longe: de que aqui as coisas são difíceis, de que não há espaço, de que é preciso mirar nos grandes centros. Pelo contrário, Schroeder adora Santa Catarina e, após morar em diversas cidades do Estado, vê boas oportunidades justamente nas menores.

Foi em Jaraguá do Sul, município com 150 mil habitantes no Norte do Estado onde mora atualmente, que viu uma brecha para empreender. Há seis anos idealizou e instalou lá o que é hoje uma das maiores feiras literárias do Estado, com mais de 80 mil visitantes na última edição, e diz que não pensa em trazê-la para Florianópolis.

Ao contrário, o Festival Nacional do Conto, também organizado por ele, foi transferido para a Capital este ano - segundo Schroeder porque Jaraguá já possui muitos grandes eventos culturais e o crescimento saturou.

Ao longo da conversa é possível perceber que para Carlos a literatura não é só uma arte, no sentido abstrato, mas um produto que deve circular. Palavras como prospectar, mais comum no mundo dos negócios, ele usa para falar de personagens e eventos; "escoar a produção" não é só uma dificuldade das indústrias, mas também dos escritores catarinenses.

Tal forma de ver a literatura dá pistas sobre por que sua figura tem sido requisitada aqui e ali com cada vez mais frequência, seja para dar cursos e palestras ou planejar feiras literárias - mas ainda é possível que alguns o confundam com o diretor da Rede Globo de nome quase idêntico, o Carlos Henrique Schroder.

– Certa vez em Criciúma fui dar uma palestra e o auditório estava lotado, toda a imprensa lá. Perguntaram qual era a posição da Globo em relação às eleições. Eu expliquei que era um escritor catarinense, então dois terços do público saiu e eu continuei a falar só para minha turma de Letras.

E como todo mundo sempre quer saber o que um escritor está lendo, ele responde no finalzinho: O Vento da Baleia, de Javier Cercas.


Livros publicados e outras atuações

O Publicitário do Diabo (1998)
As Sepulcrais (1999)
A Ilha de Eros (2000)
Dueto (2001)
Reféns Subliminares (2001)
A Ilha Navegante (2003)
A Rosa Verde (2005)
Ensaio do Vazio (adaptado também para quadrinhos) (2006)
As Certezas e as Palavras (2010)
• Idealizador da Feira do Livro de Jaraguá do Sul e do Festival Nacional do Conto
• Editor de livros na Editora da Casa
• Vencedor do Prêmio Clarice Lispector 2010 da Fundação Biblioteca Nacional
• Um dos 21 autores selecionados pela Geração Zero Zero, do crítico Nelson de Oliveira
• Bolsa Funarte de Criação Literária 2010
• Bolsa Petrobrás de Criação Literária 2012
Absolut 2140 (romance coletivo)
Documentais (coletânea de crônicas publicadas no Suplemento Pernambuco)
• Antologia de literatura contemporânea brasileira a ser publicada pela editora da fundacl será homenageado na Feira de Frankfurt.

DIÁRIO CATARINENSE
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