Paulinho Moska lança DVD para comemorar os 20 anos de carreira Divulgação/Divulgação

Cantor e compositor respondeu a perguntas de Maria Betânia, Mart'Nália, Elba Ramalho e Maria Gadú

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São 26 músicas, incluindo uma faixa bônus – nada surpreendente para quem sempre valorizou as canções. Muito Pouco para Todos (Sony Music) é o segundo DVD lançado pelo cantor e compositor Paulinho Moska e reúne faixas de outros álbuns, sucessos da carreira e uma canção inédita. Uma retrospectiva de 20 anos de carreira.

Não se trata, porém, de um DVD habitual de show – a música é valorizada pelo ambiente cenográfico, composto por projeções de filmes, fotos e desenhos que emolduram as letras das canções.

Na verdade, esse registro vai além do simples documentário – a proposta é oferecer ao fã um novo olhar do espetáculo, no qual as câmaras não apenas fixam a imagem como se tornam personagens que diferenciam a forma de se acompanhar o espetáculo.

Não se trata de uma novidade na carreira de Moska – Mais Novo de Novo, seu DVD anterior, apresenta uma espécie de roteiro, complementado por histórias como as fotografias de banheiros.

O novo trabalho traz a participação do cantor argentino Kevin Johansen em três faixas. Para Moska, a amizade com o colega representa bem as mudanças em sua carreira, especialmente sua independência fonográfica e no contato com artistas latino-americanos. Johansen é argentino, mas nasceu no Alasca e morou em Nova Iorque. Ou seja, segundo Moska, é como os brasileiros, uma mistura de tudo.

Admirado especialmente pelas cantoras, Paulinho Moska respondeu as seguintes perguntas formuladas por algumas delas, a pedido do Estado de S. Paulo. Perguntaram Maria Bethânia, Mart'Nália, Elba Ramalho e Maria Gadú. As questões giram ao redor do processo criativo do músico e de sua incansável curiosidade artística, expressa principalmente na busca por parcerias e sensações na musicalidade de colegas latino-americanos.

Maria Bethânia

Você fez uma das musicas que mais gosto de cantar, em parceria com Chico César: Saudade. Como foi feita essa canção? No Rio? Na Paraíba? Você gosta de compartilhar a criação?
Um dia, Chico chegou muito emocionado lá em casa, no Rio. Logo na entrada, foi dizendo que o caminho percorrido pelo táxi tinha passado pela Lagoa Rodrigo de Freitas e que a lua cheia estava refletida na água de um jeito muito bonito e cristalino. Suspirou fundo e disse: "Me deu uma saudade!". Perguntei: "Saudade de quem? De quê, Chico?"
E ele respondeu: "De ninguém… De nada… Foi só a saudade pura mesmo. Sentamos no sofá com violão, papel e caneta. Desde o início, sabíamos que essa canção era para você, Bethânia. Pelo tema, pela mágica e pela melodia tão brasileira que só de pensar em você nos apareceu. Eu amo quando uma parceria acontece assim, quando compartilhar é só uma extensão do acontecimento.

Qual música sua melhor lhe traduz?
Gosto de pensar que é Cheio de Vazio ("O vazio é um meio de transporte pra que tem coração cheio / Cheio de vazios que transbordam seus sentidos pelo meio / Meio que circunda o infinito tão bonito de tão feio / Feio que ensina e que termina começando outro passeio"). Eu sou isso aí.

Seu momento de maior alegria até aqui, foi a música que proporcionou?
Por mais amor que eu tenha à música, o nascimento dos meus filhos superou tudo. Tive e tenho muitas alegrias com a música. O Zoombido é uma alegria imensa, uma oportunidade rara de tocar e cantar com a diversidade de compositores da música popular brasileira. O palco também é uma felicidade que me alimenta a alma.

Mart'Nália

Como é que se ama só uma 'mulé'?
É só não contar pras outras, Tinalinha (risos)! Ou então quando você encontra alguém que valha a pena. Porque amar é difícil - é um projeto de vida e envolve alegrias e tristezas.

Existe amor sem música?
Existe música sem amor?
Recordar é viver?
Eu ontem sonhei com você, Mart'Nália. E, de alguma maneira, vivi nosso encontro. A memória é a faculdade que mais admiro – ela recupera o passado misturado com as sensações do presente.

Elba Ramalho

Paulinho, o que você faria se só lhe restasse um dia?
Os dias não voltam. Todo dia é o último em si mesmo. Procuro aproveitar o tempo sempre tendo em mente que ele é efêmero e que as coisas não devem ser deixadas para amanhã. Só consigo pensar em amor. Não tenho medo da morte.

Nossas conversas rendem saborosos frutos. Eu, pelo Criador. Você pela Criação. Como vive a fé, a espiritualidade? Quando sua alma silencia a quem você ouve?
Amo nossos papos, Elbinha. Sua relação com a espiritualidade é admirável. Sinto que lhe dá conforto, esperança e alegria. Sou um ateu com muita fé. Acredito no bem, na irmandade, no tempo. E acho que toda forma de celebrar o lado misterioso da vida é, antes de mais nada, poesia. Você chama de deus, eu chamo de vida. Virgem Maria para mim é natureza. E o Espírito Santo é o amor. Então, no fundo, estamos falando a mesma coisa. ê só o jeito de se relacionar que é diferente. E nessa diferença, aprendemos um com o outro. Quando minha alma silencia eu não ouço ninguém. Aproveito a paz plena do nada.

Qual o seu melhor momento artístico?
Em cima do palco. Ali, tudo se encontra: letra, música, performance, músicos, cenário, figurino. O show é meu cinema transcendental: quando capturo um pedacinho do tempo e sinto o sabor de sua eternidade.

Como vê o mundo?
Pelo lado urgente, competitivo e violento. Por outro, a conquista das tecnologias apontam o desenvolvimento de um novo homem. Multidisciplinar, plural e polisubjetivo. Nessa corda bamba, dança a vida. Tudo Novo de Novo.

Maria Gadú

Como é ver nascer uma semente de arte no coração do seu filho?
Um filho já é uma semente de arte. Se arte é vida, um filho talvez seja a maior obra que alguém pode fazer: constituir um ser humano que tenha arte nascendo no peito.

Quais são seus ídolos da vida?
Tive um grande mestre chamado Claudio Ulpiano (filósofo), que me fez muito a cabeça junto com Caetano Veloso. Caetano foi (e ainda é) um príncipe para mim. Seu comportamento camaleônico e suas canções me ensinam muito sobre a delícia de ser o que é. Ficar "odara" foi a melhor tradução para liberdade que encontrei numa letra de música quando era jovem. Gil foi a influência mais forte no violão. E Chico Buarque o gênio das letras. Meu sogro Carlos Bracher (pintor) é uma obra de arte viva. Mas quem eu babo mesmo são meus filhos e minha mulher. Me ensinam o tempo todo.

No programa Zoombido, você celebra os diversos processos de criação/composição de artistas. Qual é o seu? Quais foram as mudanças ao longo desses 20 anos?
Acho que, quando eu pego no violão, é porque sinto que venho acumulando imagens, sensações e intensidades que necessitam jorrar. Entre uma canção e outra, o estado é sempre de composição, atento às inspirações, aos diálogos, às ideias que pulam na nossa frente. Anoto muito, gravo um pouco, vou mudando uma coisa aqui outra acolá até que a canção se dá. Gosto de rimas, número de sílabas e refrão. Sou um compositor à moda antiga. Sempre fui.

AE
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