Professora Maria Tereza Piacentini adverte: para escrever bem não há fórmula mágica, é preciso estudar Marco Favero/Agência RBS

Sucesso na internet multiplica convites para dar aulas para adultos em todo o país

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Com cuidado para usar as regras gramaticais a serviço da clareza do texto, e nunca como dogmas restritivos, a obra da professora Maria Tereza de Queiroz Piacentini elucida as dúvidas mais frequentes na hora de escrever.

— Redigir com estilo e elegância também se aprende. Lendo, estudando, praticando sempre — ensina.

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A experiência como revisora da Constituição do Estado de Santa Catarina (1989) e à frente do site Língua Brasil na primeira década deste século levou a estudiosa formada em Letras, com mestrado em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a elaborar mais de 300 lições sobre as principais dificuldades na prática de quem escreve, reunidas no livro Não Tropece na Língua – Lições e curiosidades do português brasileiro (Editora Bonijuris, Curitiba/PR), lançado em 2012 e distribuído a todas secretarias municipais e estaduais do país. Somente o governo do Estado de São Paulo levou o compêndio para bibliotecas de 5.538 escolas públicas e 240 penitenciárias.

O alcance da interação com internautas e o sucesso do Não Tropece na Língua (ou o NTP, como diz a autora) multiplicam convites para dar aulas para adultos em todo o país – professores e jornalistas na maioria. Também cresce o interesse de grandes editoras pela obra da professora catarinense. O livro mais recente de Maria Tereza, Manual da Boa Escrita – Vírgula, crase, palavras compostas, foi publicado em março deste ano pela Lexikon, respeitada editora de obras de referência, como o Novíssimo Aulete – dicionário contemporâneo da língua portuguesa.

Ensinar pelo exemplo
 
Da publicação do Manual da Boa Escrita, no Rio de Janeiro, até o final de maio, Maria Tereza foi ao Pará, dar aulas para professores da rede pública de ensino, trabalhou na finalização de um e-book de português para estrangeiros (em coautoria com o professor Ademir Nunes de Camargo, ainda sem data de lançamento pela Bonijuris), esteve na Alemanha (com parada em Mainz para visitar o Museu Gutenberg) e voltou a Florianópolis para acompanhar a chegada de mais uma neta (Isadora, que nasceu em 25 de maio). Na agenda  intensa equilibrada com muita ioga, a professora encontrou tempo para visitar o Diário Catarinense, acompanhada pelo amigo Deonísio da Silva, para divulgar o novo manual.

— O grande mérito da Tereza é conseguir ensinar o rigor que deve ter a norma culta com o exemplo prático. O exemplo sempre é melhor do que a teoria. A teoria é para nós, de Letras, o sujeito não precisa saber como funciona o motor do carro se ele consegue dirigir — afirma o professor Deonísio, catarinense de Siderópolis e radicado no Rio.

Autor de romances premiados, como Avante, Soldados: para Trás, agraciado com o Prêmio Internacional Casa de las Américas em 1992, em júri presidido por José Saramago, Deonísio da Silva é mais conhecido pela coluna semanal sobre a origem das palavras que escreve para a revista Caras. Seu best-seller é De onde Vêm as Palavras – Origens e curiosidades da língua portuguesa. O livro chegou à 17ª edição (Lexikon e Editora Unisul). Ele é membro da Academia Brasileira de Filologia e integra a equipe de consultores do dicionário Aulete, para o qual fez o prefácio. Deonísio da Silva também prefaciou o Manual da Boa Escrita, de Maria Tereza. Os dois estudiosos catarinenses são fãs de dicionários: "Uma luz no quarto escuro das palavras", é como o etimologista define a conquista de um saber pela simples leitura de um verbete.

— Na minha experiência profissional, notei que o aprendizado é no dia a dia, consultando o dicionário. Eu me tornei revisora, eu não me formei revisora, me tornei por gostar, por ser sistemática e atenta a detalhes. Apresentar um texto limpo, para mim, é uma paixão — explica Maria Tereza.

Primeiras letras

A paixão da autora catarinense pela Língua Portuguesa vem de berço. O pai, Alexandre, era advogado e professor de português em Joaçaba, no Meio-Oeste de Santa Catarina, e a mãe, Dulce de Queiroz, era professora de francês:

— Meu pai era assinante do Correio do Povo. Ele guardava os jornais nem tanto pelas notícias, mas pelo que tinha de mais interessante e não datado, como a coluna diária de Celso Luft, "Mundo das Palavras", que ele colecionava. Minha mãe nos estimulava a escrever cartas e fazia questão de ler e corrigi-las conosco.

Caçula dos sete filhos do casal, Maria Tereza ganhou a coleção do pai quando se formou em Letras (Português e Inglês) em 1973. Ela conserva e consulta o arquivo com mais de mil crônicas escritas até 1982 por Celso Luft (1921-1995). A obra do gramático gaúcho se mantém atual, inovadora e visionária, ao buscar aproximar o idioma dos cânones do dia a dia do brasileiro. Nada a ver com simplificação ou permissividade, Luft defendia o bom uso da língua para a formulação de pensamentos complexos, que preservam e renovam o conhecimento.

Hoje Maria Tereza observa que os erros mais comuns de português são relacionados a crase, palavras compostas (a hifenização) e vírgulas, mas ultimamente vem notando problemas graves de ortografia. É... Erros considerados imperdoáveis, inadmissíveis, duros de assumir, mas infelizmente cada vez mais frequentes. Ela, que prefere ensinar adultos com nível de formação superior e que precisam escrever bem (professores, advogados e jornalistas), não atribui a culpa da dificuldade das novas gerações em diferenciar "mas" de "mais", "traz" ou "trás" ou saber quando se usa "s" ou "z" exclusivamente à tecnologia.

Sem falar nos furos da educação básica da rede pública que mobilizam a opinião pública em protestos constantes, a estudiosa lembra que nos anos 80 os educadores acolhiam ideias libertárias, que estimulassem a imaginação. Evitava-se corrigir os primeiros textos infantis para não inibir a criatividade com críticas. Tal filosofia é bem compreensível depois de duas décadas de ditadura militar, mas a professora diz que a mineira Magda Soares, "uma das luminares do magistério no Brasil", está chamando seus colegas para voltar atrás: aplicar ditados e corrigir a ortografia das crianças nas séries iniciais, ensinando a usar as regras gramaticais a favor da criatividade.
 
— Não tem jeito, tem que praticar, desenhar cada letra associando o gesto ao som para fixar na mente a forma correta de escrever — afirma Maria Tereza.

A norma a serviço da clareza
 
Foi uma saia-justa com hífen (apesar de os dicionários terem suprimido o sinal gráfico do neologismo) que despertou em Maria Tereza Piacentini o interesse pela busca de respostas fundamentadas: 

— Era uma concordância com "50% do funcionalismo", qualquer coisa assim. O chefe da Casa Civil (do governo de Santa Catarina, onde Maria Tereza trabalhava) me questionou: "... optaram ou optou". Em dúvida, respondi que, como núcleo do sujeito (a porcentagem) era plural, o verbo deveria concordar com ele. Não errei, mas eu não sabia que o verbo poderia ir para o singular. Aliás, nesse caso, a concordância com o substantivo próximo é mais usual hoje, porque soa melhor. Foi então que eu recorri às pastas com as questões de linguagem de Celso Luft para ter mais convicção nas minhas respostas.

A professora explica que a norma culta do português brasileiro (a língua falada e escrita pelos brasileiros considerados cultos pela academia) é ditada num contexto de desigualdade social e que a norma-padrão, dos cânones (o que está escrito em gramáticas e dicionários), não reflete o que se fala. 

— A norma-padrão está sempre defasada, chega a ser artificial às vezes. Mesmo entre pessoas consideradas cultas, com curso superior, não se fala "eu cheguei a casa, cheguei a Florianópolis" como preconizam as gramáticas, a gente diz "eu cheguei em casa, cheguei em Florianópolis" — exemplifica.

É na busca utópica de uma sincronização entre os diversos discursos que, segundo Maria Tereza, a língua se renova e se transforma para o melhor entendimento entre cada vez mais falantes, produtores de texto e leitores.

Para se ter à mão ou salvo no desktop

A professora Maria Tereza de Queiroz Piacentini é autora de obras de referência com dicas práticas sobre dúvidas que nem sempre se resolvem em uma consulta aos dicionários. São questões para as quais ela burila respostas ao longo da carreira iniciada há quatro décadas como professora, redatora, revisora e consultora de Língua Portuguesa. Listamos abaixo alguns títulos da autora:
 
Na internet: www.linguabrasil.com.br (de livre acesso)
 
> Só Vírgula – Método fácil em vinte lições (1996, 143 p., 3ª edição em 2009, Editora da Universidade de São Carlos/SP)
 "Vírgulas de mais atravancam o texto, vírgulas de menos podem levar a uma leitura incorreta."
 
> Só Palavras Compostas – Manual de consulta e aprendizagem (2010, 160 p., Visual Books, Florianópolis/SC), com prefácio de Sérgio da Costa Ramos
 
> Não Tropece na Língua – Lições e curiosidades do português brasileiro (2012, 304 p., Editora Bonijuris, Curitiba/PR).

Foto: Bonijuris / Reprodução


Com reimpressão em 2013, somando 30 mil exemplares – mais da metade foi doada para bibliotecas e escolas públicas (10 mil) e para todas as secretarias municipais (5,6 mil) e estaduais (27) do Brasil e 827 classes penitenciárias.
 
> Manual da Boa Escrita – Vírgula, crase, palavras compostas (2014, 200 p., Lexikon, Rio de Janeiro/RJ)

DIÁRIO CATARINENSE
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