Após estreia discreta, "Que Horas Ela Volta?" vira fenômeno popular Gulanne/Divulgação

Regina Casé estrela o filme, que já foi premiado em Berlim e Sundance

Foto: Gulanne / Divulgação

Quem vê Que Horas Ela Volta? logo percebe: trata-se de um filme incomum na cinematografia nacional, dada a sua capacidade de refletir sobre o país a partir de uma abordagem acessível a todos os públicos. O que torna o longa de Anna Muylaert ainda mais sui generis é a maneira como vem conquistando os espectadores.

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O filme estreou badalado pela crítica, mas pouco prestigiado pelos espectadores. Em sua primeira semana, entre 27 de agosto e 2 de setembro, vendeu 287 ingressos por dia em cada uma das 91 salas brasileiras em que estava sendo exibido. Na semana seguinte, cumpriu um movimento comum à maioria dos títulos em cartaz: foi visto por menos gente, o que levou os exibidores a cederem seu espaço para outros longas. Em média, um filme vende 40% menos bilhetes da primeira para a segunda semana de exibição.

O que (quase) nunca acontece é o que sucedeu com Que Horas Ela Volta? da terceira para a quarta semana, iniciada anteontem: um aumento significativo de público fez o longa alcançar a média de 617 espectadores por sala e, em consequência disso, ser levado a mais cinemas. No total, desde quinta-feira, Que Horas Ela Volta? está em exibição em cerca de 150 salas.

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– Estávamos em 78, ou seja, quase dobramos a ocupação após 20 dias em cartaz. Nunca vi isso acontecer com um longa nacional – vibra André Sturm, diretor da distribuidora Pandora. – Graças a essa virada, o filme poderá ser visto em cidades para as quais talvez não fosse levado (são 18 a mais nesta semana, na comparação com a estreia). E, mesmo em certas regiões, como a zona norte do Rio. Até então, na capital carioca, Que Horas Ela Volta? só estava nas salas do centro e da Zona Sul.

O fenômeno fez o filme alcançar um público de periferia que, em princípio, não alcançaria. Algo especialmente significativo por se tratar de um projeto que aborda as mudanças sociais no país a partir da relação de uma família da classe alta de São Paulo com sua empregada doméstica de origem nordestina (papel de Regina Casé).

– Foi a propaganda boca a boca que fez o longa crescer – especula Sturm.

Além disso, também explica o fenômeno o fato de o longa ter sido escolhido para representar o Brasil na corrida do Oscar 2016 – definição anunciada pelo Ministério da Cultura no dia 10. Foi a curiosidade em torno do filme, além da admiração pela atriz principal, que levou os estudantes Nayara Carneiro, 22 anos, e Felipe Queiroz, 25 (ambos na foto abaixo), a vê-lo na última quinta.

– Gostamos de cinema nacional, e Que Horas Ela Volta? resume o porquê: retrata o Brasil de maneira complexa, abordando muitas questões importantes da sociedade – diz Nayara, que é mineira e, com Felipe, aproveitou a viagem a passeio pelo Sul para ir ao cinema.

– O filme se constrói pelo olhar da personagem da Regina Casé, que é o olhar de quem está fora da classe média-alta. É o olhar da periferia para o centro, e não o contrário, como é comum – completa ele.

Quase 40 pessoas estavam na mesma sessão, às 14h50min de um dia de semana. O número de ingressos vendidos cresceu tanto que, além de ganhar mais exibições nos três shoppings porto-alegrenses nos quais está em cartaz, Que Horas Ela Volta? também migrou, nesta semana, para as maiores salas desses complexos – que comportam cerca de 300 espectadores.

Com cerca de 160 mil ingressos vendidos no total, Que Horas Ela Volta? ainda está longe do sucesso das comédias populares da hora – as chamadas globochanchadas. Mas, em uma cinematografia que praticamente só têm registrado fracassos de público entre os filmes dramáticos, não deixa de ser um alento. Construído na marra, após uma estreia aquém de seu potencial.

Os números
Que Horas Ela Volta? começou a ser exibido em 27 de agosto em 91 cinemas no Brasil, com média de 287 espectadores por sala a cada dia. Na segunda e na terceira semanas, o número caiu para 69 e, depois, 78 cinemas. Mas a média de espectadores por sala/dia foi aumentando, até chegar a 617 na semana passada. Para atender a esse público crescente, a distribuidora Pandora providenciou novas cópias. Desde esta quinta-feira, o longa passou a ser exibido em 150 salas do país, número mais de 90% maior que o da semana anterior.

No Exterior
Que Horas Ela Volta? também tem feito bom público em outros países, como França, Itália e Estados Unidos. É nos EUA que a diretora está neste momento, cumprindo uma maratona de entrevistas. Confira alguns elogios recebidos pelo filme lá fora:

"É um filme superlativo em todos os seus aspectos. Tem uma performance gigantesca, única, no centro de uma complexa e incomum comédia sobre família, amor e divisão de classes." – Wall Street Journal

"A atuação de Regina Casé é hilária e, ao mesmo tempo, de tirar o fôlego." – Entertainment Weekly

"A narrativa trabalha em muitos níveis, que estão refletidos em seu ambíguo título internacional (‘The Second Mother’, ou ‘A segunda mãe’), com personagens em caracterizações perfeitas." – Revista britânica CineVue

"Trata-se de um filme complexo, realizado com mão segura por Anna Muylaert. É íntegro, socialmente consciente e profundamente reflexivo, não apenas sobre o Brasil, mas sobre as estruturas sociais ao redor do mundo." – IndieWire

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