Exposição "Água Viva" distribui resultados de análises do Guaíba para o público Galeria Península/Divulgação

Amostra da coletada de águas no Guaíba

Foto: Galeria Península / Divulgação

Uma ação artística que se somou ao atual debate sobre a relação de Porto Alegre com as águas e a orla do Guaíba chega a sua etapa final. Neste fim de semana e nos próximos dias, o artista Denis Rodriguez realiza uma série de ações envolvendo o projeto Água Viva, que estreou como exposição no fim de junho, na Galeria Península, no Centro Histórico da Capital.

Na noite desta sexta-feira, Rodriguez, a curadora Mônica Hoff e o grupo que colabora com a iniciativa participarão da audiência pública na qual deverá ser discutido o futuro dos históricos armazéns e da porção da orla por eles ocupados. O consórcio Cais Mauá, que venceu a licitação em 2010 para revitalizar a área, prevê no local shopping center, torres comerciais e estacionamentos. Grupos que criticam o empreendimento pelo viés comercial, como o Cais Mauá de Todos, defendem a anulação do contrato e um processo de licitação que não se oriente pela exploração imobiliária e que devolva à comunidade a histórica região há décadas isolada por muros.

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Ambiente da exposição "Água Viva" na Galeria Península


No sábado (19/9), será o último dia de visitação da mostra Água Viva, quando a Galeria Península (Andradas, 351) estará aberta para receber o público das 14h às 21h. Serão distribuídas aos visitantes cópias de laudos sobre a qualidade das águas do Guaíba. No último dia 9, Rodriguez fez duas coletas na região do Gasômetro: uma na área da antiga Marina Pública e outra nas imediações do bar flutuante localizado ao lado da Usina. As amostragens, analisadas pela Toxilab, apresentaram os seguintes dados:

> Região da antiga Marina Pública: contaminação 36 vezes superior ao teto do índice de balneabilidade.

> Região do bar flutuante na Usina do Gasômetro: contaminação 77 vezes superior ao teto do índice de balneabilidade.

Com os resultados, Rodriguez atestou o que já previa: ambos os relatórios apresentaram condições impróprias das águas:

– Quando essas quantidades são encontradas acima dos padrões determinados, as águas são consideradas impróprias para banho. Para minha surpresa, a região da antiga Marina Pública, visualmente mais suja e poluída, é a menos contaminada, sendo a região mais próxima ao Gasômetro a com índices mais alarmantes de contaminação.

No Brasil, indicadores bacteriológicos são utilizados para a avaliação das condições de banho em águas para fins recreativos, verificando a quantidade presente de coliformes fecais, enterococos e escherichia coli. Rodriguez comenta que o resultado das análises das águas que coletou no Guaíba "representam um grau de contaminação três vezes maior que o pior índice de contaminação da Baía de Guanabara".

No domingo (20/9), está previsto pelo projeto Água Viva um happening envolvendo as boias que integram a instalação montada na Galeria Península. A ação não está sendo divulgada, justamente para manter o caráter surpresa, que será documentada e posteriormente divulgada. Rodriguez dá uma dica: as boias serão levadas para as águas do Guaíba.

O desfecho do projeto Água Viva se dará na terça-feira (22/9), quando será apresentado o resultado da votação realizada na galeria para a escolha de uma das três propostas de piscinas flutuantes para o Guaíba expostas como maquetes na mostra desde junho. Os autores dos projetos são os arquitetos Nathalia Cantergiani, Marina Portolano, Carol Tonetti e Alberto Gomez.

– Até o momento, foram contabilizados mais de mil votos – diz Rodriguez.

Por seu teor propositivo e de intervenção na memória cultural e no cotidiano urbano, Água Viva já se lança como um dos projetos artísticos de maior força política desenvolvidos em Porto Alegre nos últimos tempos. Uma iniciativa em que intenções se transformam não só em gestos, mas em ações que mostram como a arte contemporânea serve como espécie de lupa para a tentativa de melhor compreensão e sensibilização de questões que afetam o que se entende por realidade.

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