Livro reproduz em imagens a história de Florianópolis no começo do século 20  Acervo Marcelo Collaço Paulo/Reprodução

Pintura de Eduardo Dias retratando a Ilha de Santa Catarina em 1914

Foto: Acervo Marcelo Collaço Paulo / Reprodução

Em outubro de 1894 o então governador de Santa Catarina, Hercílio Luz (1860-1924), anunciou nos jornais que Desterro já não existia mais. De repente tudo mudou e a Ilha antevia a modernidade. Começa aí a imponente pesquisa sobre um dos períodos de maior efervescência cultural da Capital feita pelo historiador e engenheiro civil Gilberto Gerlach na obra Ilha de Santa Catarina - Florianópolis. São dois volumes de 776 páginas com valiosíssimo acervo iconográfico da Belle Époque ilhoa, combinado a narrativas, crônicas e depoimentos da época. O lançamento será nesta terça às 19h na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, onde abre também exposição de 18 fotos históricas.

Coluna Os Manés: Gilberto Gerlach, éx um monstro!  

Gerlach, de 72 anos, começou a pesquisa há nada menos que 47 anos. O livro é a continuação de Desterro - Ilha de Santa Catarina, dois volumes lançados em 2010 com imagens e textos desde o século 16 até 1894. O autor leu cronologicamente todos os jornais publicados na cidade desde 1853, guardados na Biblioteca Pública do Estado.

As 550 fotografias, 75 pinturas e 110 desenhos — um quinto das imagens nunca antes publicado — avançam até a metade do século 20, embora o foco de pesquisa de Gerlach sejam os primeiros 30 anos, que é, segundo ele, quando Desterro morreu pela segunda vez por causa da presença militar durante a Revolução de 30.

— O mundo mudou, não tem mais a poesia daquela época. Hoje tudo está mais banal e corriqueiro — justifica, saudoso de um tempo que nem mesmo ele viveu.

Confira as principais notícias do dia em Santa Catarina

Acústico Dazaranha e Expresso tem que rodar pelo Estado

A experiência pessoal do autor com a fotografia se reflete na acurada pesquisa imagética. Vê-se fotos de mais de 100 anos, captadas com as limitações das câmeras de antigamente e reconstituídas com técnicas de hoje, além de obras de arte raras reproduzidas graças à colaboração de colecionadores.

O projeto gráfico elegante é de Ricardo Rizzaro, amigo e parceiro de Gerlach já de outras obras, como São José da Terra Firme, de 2007, livro com o mesmo formato.

Imagine como era a Av. Hercílio Luz em 1927 ou a Lagoa da Conceição nos anos 20? Agora navegue pela galeria de fotos e confira as imagens:


HISTÓRIA CULTURAL DA CIDADE

Em Ilha de Santa Catarina - Florianópolis, Gilberto Gerlach dedica especial atenção às formas de entretenimento das primeiras décadas do século passado. Sendo ele próprio cinéfilo e entusiasta da cultura (em 1968 fundou o Cineclube Nossa Senhora do Desterro, que funcionava no Centro Integrado de Cultura — CIC até 2009), reconta a vinda de grandes espetáculos e a exibição de filmes, dos brasileiros aos clássicos alemães, faroestes e cômicos. Reproduz com edição impecável páginas de jornais com notícias de fatos pitorescos da época e relatos das festividades.

— O mais fundamental na época eram os eventos religiosos, as romarias. As pessoas usavam pseudônimos e falavam das festas com humor incrível. O ilhéu sempre foi de muito humor — diz o autor.

Chico Perereca, por exemplo, era um personagem conhecido que morava no Rio Tavares, sudeste da Ilha, e narrava no jornal as festas que frequentava, sempre acompanhado de seu criado, como um Dom Quixote e Sancho Pança manezinhos.

Gerlach inova também ao propor uma metodologia diferente para livros de história: iconografia poética. Em vez de textos densos e intermináveis, como comumente são as historiografias, mais saboroso é ler os jornais da época para saber que em fevereiro de 1918, por exemplo, um ilusionista deslumbrava a plateia do então Theatro Álvaro de Carvalho ou que, em 1920, a imprensa já alarmava para o grande número de carros que transitavam pelas ruas centrais. Eram 150 automóveis registrados para uma população de 40 mil habitantes.

Os dois volumes são como um filme exibido em páginas, em vez de na tela. Ao folheá-las, o leitor assiste à evolução urbana de Florianópolis, a modificação das fachadas, a abertura da Ponte Hercílio Luz, os fandangos nas freguesias e a reação sempre bem-humorada da população.

O livro foi viabilizado com o incentivo da Tractebel Energia e BRDE, via Lei Rouanet. Após o término da exposição de fotos da Assembleia Legislativa, no dia 17 deste mês, a obra será vendida a R$ 200. Parte das cópias será doada para bibliotecas e instituições de ensino. O autor também preparara outra obra histórica, desta vez sobre Blumenau.

Agende-se

O quê: lançamento do livro Ilha de Santa Catarina - Florianópolis
Quando: hoje, às 19h
Onde: Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Rua Dr. Jorge Luz Fontes, 310, Centro, Florianópolis)
Quanto: gratuito
Informações: (48) 3221-2500

 Veja também
 
 Comente essa história