10ª Bienal do Mercosul será aberta com mais de 600 obras de artistas de 20 países Mateus Bruxel/Agencia RBS

"Tropicália", de Hélio Oiticica, em processo de remontagem no térreo da Usina do Gasômetro

Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Há um clima de tropicalismo na 10ª Bienal do Mercosul, que começa hoje. Não só por a emblemática Tropicália, de Hélio Oiticica, ser um dos destaques, mas também pelo foco: apresentar a arte da América Latina afastando-se das leituras que esta produção tem recebido com o interesse despertado pelos grandes centros da Europa e dos EUA nas últimas décadas. Assim, a 10ª edição chega com certa postura política, buscando levar ao público a arte dos países das Américas do Sul e Central a partir de uma visão própria, vinda de dentro dos trópicos.

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É também uma Bienal um tanto tropicalista pela reunião sem distinções de obras díspares no espaço e no tempo, nos processos e nas linguagens. As oito exposições percorrem capítulos da história da arte desde o barroco do século 18 até o presente, repassando aí neste intervalo gerações de artistas modernistas, concretistas, cinéticos, pop, conceituais... E também contemporâneos. Ao contrário do que é comum em Bienais, a do Mercosul não faz suas apostas no que está sendo feito agora de mais recente em arte.

Com mais de 600 obras, assinadas por mais de 200 artistas de 20 países, esta edição traz um forte caráter histórico, por isto museológico.

– É uma Bienal conceitualmente ambiciosa – afirma o curador-chefe, Gaudêncio Fidelis. – Buscamos articular um considerável volume de obras dentro de uma plataforma transnacional de maneira que façam sentido para o visitante não especializado. Preparamos exposições que proporcionem uma experiência única no espaço e no tempo. Mas não queremos transportar o público através de um "túnel do tempo", e sim trazer as obras históricas para o presente de maneira que o visitante possa descobrir nelas questões para sua experiência por meio da arte.

A tropicalidade da Bienal também encontra ressonância no mantra de Hélio Oiticica: "Da adversidade vivemos!". Por adversidade entenda-se a série de dificuldades que esta edição tem tentado superar.

Ao longo do último ano, com a recessão econômica e a alta do dólar, houve corte de orçamento (de R$ 13 milhões para R$ 7,5 milhões) e dificuldade de custear o transporte de obras de outros países. Por fim, a adversidade gerada por uma crise interna que culminou, na semana passada, no desligamento de três curadores e em protestos de artistas selecionados que não foram incluídos nas mostras por falta de recursos para o traslado de suas obras. Situações adversas que levaram a Bienal a buscar alternativas, como a decisão de encontrar, em acervos e coleções localizados no Brasil, obras estrangeiras que antes seriam trazidas de outros países.

– É um projeto complexo – diz Fidelis. – O volume de empréstimos é enorme, estamos exibindo obras de mais de 200 coleções. Esta é a segunda maior Bienal do Mercosul depois da primeira em termos de obras. Isso impõe um esforço extraordinário de logística e também para a obtenção desses empréstimos, para os quais foi realizada uma intensa negociação.

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Qual é a cara com que chega ao público esta 10ª Bienal do Mercosul? Qual é a aposta? O que se busca propor? E o que se pode esperar que marcará esta edição?

A 10 Bienal do Mercosul – Mensagens de uma Nova América é uma exposição conceitualmente ambiciosa porque busca articular um considerável volume de obras dentro de uma plataforma transnacional de maneira que façam sentido e sejam legíveis para o visitante não especializado e, ao mesmo tempo, por possuir um grupo numeroso de obras muito importantes para a produção artística mundial. Ela também é uma exposição para especialistas e todos os públicos localizados dentro deste arco. Preparamos uma exposição que proporcione ao visitante uma experiência única no espaço e através do tempo. Esta é essencialmente uma exposição de arte contemporânea, embora possua obras históricas. Mas não queremos transportar o visitante através de um "túnel do tempo", mas trazer estas obras para o presente de maneira que o visitante possa descobrir nelas questões que sejam importantes para sua experiência através da arte. Trata-se de uma exposição que é uma oportunidade única de trazer a Porto Alegre obras que provavelmente jamais serão expostas aqui novamente, ou que de outra forma dificilmente se encontraram lado a lado em uma exposição, como o Tiradentes Supliciado (1893), do brasileiro Pedro Américo e O Desmembrado (1947), do mexicano José Clemente Orozco.

Como foi realizar a produção desta edição no atual contexto de crise e recessão econômica? De que modo esse cenário impactou? Quais foram as decisões difíceis a serem tomadas diante das dificuldades de recursos e de logística?

Esta é uma exposição extremamente complexa em termos da estrutura de localização das obras na exposição e, por consequência, de logística. O volume de empréstimos é enorme e estamos exibindo obras de mais de 200 emprestadores e, em alguns casos, de diversas obras do mesmo emprestador. Estamos também apresentando obras de 20 países e um volume de trabalhos consideravelmente grande. Esta é a segunda maior Bienal do Mercosul, depois da primeira, em termos de obras. Isso impõe, logicamente, um esforço de extraordinário de logística e também para a obtenção destes empréstimos, para os quais foi realizada uma intensa negociação. A crise econômica que estamos vivendo, e que pode ser considerada sem precedentes nestes últimos 20 anos, impactou imensamente a realização da exposição impondo enormes desafios. Mas nem por isso deixamos de realizar uma exposição que é extraordinária. Qualquer exposição possuiu decisões difíceis a serem tomadas e nesta não foi diferente. Por exemplo: não realizar a retrospectiva da Bienal de Coltejer que foi produzida e pensada por nós e estava com os empréstimos confirmados e preparada para viajar. É uma perda, mas não impacta o projeto curatorial diretamente pois ela seria uma exposição autônoma.

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Quais trabalhos/artistas foram considerados indispensáveis como pilares para garantir a manutenção do projeto curatorial – e que o grupo curatorial se empenhou para conseguir manter e apresentar?

Há um número muito grande de obras que formam a estrutura da exposição. Em cada uma das exposições temos pelo menos 10 trabalhos que são estruturantes. Mas nada nesta Bienal deixa de ser importante e cada obra desenvolve um papel fundamental. Como assinalei diversas vezes, esta é uma Bienal constituída a partir de obras. A curadoria pensou e refletiu sobre cada uma delas e como elas seriam contextualizadas na exposição, de que forma e com quais outros trabalhos se relacionariam. Trata-se de um intrincado processo de reflexão e constituição estrutural que tomou um enorme tempo da curadoria para ser realizado.

Há ineditismos e exclusividades em relação a alguns artistas e trabalhos que poderemos ver em Porto Alegre?

Existem muitos, como obras de Analívia Cordeiro, a obra Calúnia, de Oswaldo Maciá, Um Logo para a América, de Alfredo Jaar, Eu Vi o Mundo... Ele Começa no Recife, de Cícero Dias, a Tropicália, de Hélio Oiticica, montada em sua versão integral um grupo de parangolés nunca antes expostos, as pinturas de Manoel Lezama do México, a pintura A Fundação da Cidade do México, de Jose Maria Jara, a Virgem-Cerro vinda do Museu Nacional de Artes Visuais de La Paz na Bolívia, Soy loco por ti..., de Antonio Manoel, O Impossível, de Maria Martins, e inúmeras outras.

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Há projetos comissionados aos artistas?

Não temos obras comissionadas estrito senso, mas obras que já foram produzidas pelos artistas em algum momento, ainda que recentemente em 2015 como a Ponte, de Santiago Rose, ou Geometria Social, de Ximena Garrido-Lecca. Temos apenas três obras que poderíamos considerar ser comissionadas e foram realizadas para ampliar determinadas questões que o artista estava desenvolvendo e que não tínhamos como contemplar através de empréstimos. Mesmo porque o interesse não seja propor "temas" e assuntos para os artistas trabalharem, mas mostrar que eles já haviam se adiantado a determinadas questões que a Bienal aborda ao produzirem suas obras a priori. Abandonamos este modelo de obras comissionadas do qual as Bienais se valem todo tempo, mas que não me parecem ter muito a acrescentar a uma exposição a esta altura.

Já há alguns anos, muito se problematiza sobre o formato de bienais e de grandes exposições, com discussões sobre o papel desses eventos nas cidades onde se realizam, tanto para o meio artístico quanto para o público. Na sua visão, qual é o papel, na atualidade, desta Bienal do Mercosul que chega a sua décima e celebratória edição, em um contexto bem diverso daquele em que a mostra foi criada e diante de sua própria trajetória desde 1997?

A discussão sobre o papel das Bienais continua na medida que as Bienais não vêm mais oferecendo modelos curatoriais renovadores de realização. Não se trata de uma crise do "modelo Bienal", mas dos modelos utilizados em Bienais. Por isso estamos mudando o modelo para esta Bienal. Por ter convicção que uma Bienal deve ser, antes de tudo, uma exposição com grande densidade artística e que ao mesmo tempo seja crítica do contexto de exposições onde se situa. O contexto desta Bienal é o mais próximo historicamente da primeira Bienal do Mercosul, curada por Frederico Morais, que a meu ver estabelece a vocação da Bienal do Mercosul de ser uma plataforma transnacional para a arte da América Latina. A Bienal abandonou esta vocação progressivamente a partir da sua 6ª edição. Nós a resgatamos de maneira categórica e acreditamos que era tempo de um retorno às origens para mostrar o impacto e contribuição da arte destes países a arte mundial. Depois do longo processo de visibilidade que a produção da América Latina passou nos últimos anos, já era hora de refletir sobre esta produção e o tempo chegou com esta 10ª Bienal.

Comenta-se que esta 10ª edição seria a última Bienal do Mercosul? O que a comunidade pode ter como expectativa em relação a esse comentário, que parte de diversas fontes, mas que a Fundação Bienal do Mercosul não confirmou em outra ocasião ainda neste ano?

Esta é uma questão que deve ser respondida pelos dirigentes da Bienal. Para mim, é fofoca apenas.

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