"Aqui as coisas são geridas mais por amor do que por negócio ", diz Paulo Fellin sobre música em Florianópolis Charles Guerra/Agencia RBS

Fellin com o livro “Rock in Rio 30 anos", lançado no festival em edição limitada

Foto: Charles Guerra / Agencia RBS

Sete dias e 132 atrações depois, o vice-presidente artístico do Rock in Rio, Paulo Fellin, veio descansar da maratona musical em Florianópolis, onde mantém residência há mais de 20 anos. Ele é ninguém menos que o responsável por fechar os contratos com as bandas e artistas que integram o line-up de todas as edições do festival pelo mundo.

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Entre latidos de seu cão rhodesian ridgeback — presente do ator Thiago Lacerda, que é criador da raça — recebeu a equipe do DC, em um raro período de descanso, em sua casa em um condomínio de Jurerê Internacional, onde hoje mora seu filho mais velho. Confira este papo exclusivo:

Diário Catarinese: Por que e quando escolheu Florianópolis para morar?
Trabalhei por sete anos na organização do antigo festival Hollywood Rock e morava em São Paulo (Fellin nasceu na capital paulista). Em 1993, proibiram propaganda de cigarro e o projeto acabou, era uma empresa de um cliente só. Na época, meu filho tinha acabado de nascer e a gente não queria criá-lo em São Paulo. Muitos amigos já viviam aqui, então, a gente decidiu vir também. Fiquei em Floripa de 1993 a 2003, voltei em 2012 e, desde o começo deste ano ano, estou em Los Angeles por causa do Rock in Rio Las Vegas (o festival foi em maio).

Depois do Rock in Rio, veio descansar na cidade?
Cheguei ontem (quinta-feira) e vim para recarregar as energias. Na segunda-feira, já volto pra Los Angeles. Vim ver meu filho, olhar a casa. Brinco que me sinto mais florianopolitano do que qualquer pessoa de Florianópolis, porque não nasci aqui mas optei pela cidade. Esse canto (Jurerê) é o que eu mais adoro. Desde que me mudei pra cá sempre morei aqui. Gosto de caminhar muito, correr e desfrutar do sossego.

Você tem negócios aqui?
Tenho uma parceria de trabalho com Eveline Orth (da Orth Produções), fazemos alguns projetos juntos aqui e fora. O mais expressivo foi o Réveillon 2013, quando levamos o projeto para o meio da Avenida Beira-Mar.

Como é a rotina nos dias de Rock in Rio?
É uma cidade (Cidade do Rock, local onde ocorrem os shows) que, somando os 7 dias, tem 700 mil pessoas. Se a gente somar tudo, é uma cidade maior que Floripa em número de habitantes. São 85 mil pessoas e outros 15 mil credenciados trabalhando todos os dias. É uma cidade em que tudo tem que funcionar redondo: toda a energia é por gerador, temos um hospital onde pode ser feita até uma cirurgia rápida, uma central de alimentação bastante expressiva, além de toda a parte sanitária de esgotos e banheiros para atender a uma população tão grande. Quando eu era diretor geral (por 12 anos Fellin ocupou o cargo), me ocupava bastante disso. Desde 2012, cuido da área artística que é o que mais gosto.
Nos dias do festival, basicamente "moro" atrás do Palco Mundo, mas atendo também os outros palcos junto com seus curadores. Durante o dia, dou um giro para dar atenção a eles e faço o relacionamento com os músicos. À noite foco mais no Palco Mundo, onde os shows mais pesados acontecem. Quando percebo, já se foram 18 horas. Dormimos duas ou três horas por dia, a adrenalina é muito grande.

Como se monta um line up de um festival como esse?
Antigamente, a gente só fazia uma pesquisa de intenção com as pessoas. Hoje, com as redes sociais, fazemos uma consulta online também. Disso tudo sai uma lista do que as pessoas querem ver no Rock in Rio. Então, começo a viajar e visitar as agências pra ver quais bandas e artistas estão disponíveis.
Mas nem sempre é assim. Com o Queen, por exemplo, a gente estava procurando um show que pudesse fazer a ponte com a edição de 1985. Como Freedie Mercury cantando Love of my life foi o momento mais emocionante daquele ano, achei que o Queen poderia fazer esse papel, e ele fez. Muita gente chorou, a imagem dele foi projetada nos telões, teve o sincronismo com Brian May. E tem outros como o System of a Down, que sempre aparece nas pesquisas de intenção de público. As negociações levam muito tempo, por isso começamos cedo. Seis meses antes tenho que entregar tudo.

Além da edição de Lisboa (em maio de 2016), já está pensando na próxima brasileira? Quem você gostaria de trazer?
Já estou pensando, sim. Queria muito trazer o The Who, que nunca veio ao Brasil. Até tentei esse ano, mas não deu certo. Vou tentar para o próximo. Outro é o Billy Joel, porque ele é uma expressão de sucesso, seria um show como foi o do Elton John esse ano. Além de outras que já passaram por aqui mas são muito pedidas, como Red Hot Chilli Peppers, Beyoncé e Daft Punk.
A gente diz que é um festival para todas as tribos, porque para atingir 700 mil pessoas não dá pra focar em um só segmento musical. Sempre tentamos trazer também uma coisa mais indie, como o Muse em 2013 — bandas que não costumam fazer shows com venda expressiva no Brasil e que, depois do Rock in Rio, conseguiram. Também sempre separamos uma ou duas noites para um público mais velho, pois constatamos que famílias inteiras vão. Pais que estavam em 1985 e querem viver isso de novo com os filhos.

Muita gente criticou a repetição de Katy Perry e Rihanna. O que você acha disso?
A Rihanna, por exemplo, não está em turnê mas é um nome muito forte, junto com Beyoncé, Katy Perry e Taylor Swift. Ela é uma artista que vale a pena e o público quer, sempre está com vários sucessos na lista Top 100 da Billboard. A noite em que ela se apresentou foi a primeira a ter os ingressos esgotados, inclusive. Esgotamos sete noites de festival em quatro dias, e a dela esgotou em menos de 1h. É um show de sucessos, com apenas duas ou três músicas novas. Um show mais seguro, mas é isso que as pessoas querem ver. Assim como a Katy Perry, que tem um show com muitos efeitos. Tivemos que mudar 50% da base do palco para poder atender à apresentação dela. Ambas têm grandes hits, com milhões de visualizações no Youtube, e são o que as pessoas querem ver. Pra mim foi muito bom.

A próxima pergunta da lista era justamente sobre a Taylor Swift. Você não pensou em trazê-la?
Pensei. Ela tocou na edição de Las Vegas, em maio, só que não poderia vir para cá por causa da nova turnê, que já estava toda fechada.



Paulo Fellin, em sua casa, em Jurerê Internacional


O convite para a Camerata Florianópolis tocar com o Steve Vai partiu de ti. Por quê?
A ideia do Steve Vai foi do Zé Ricardo, que trabalha na minha equipe e faz curadoria do Palco Sunset. Numa conversa, comentamos que metal sempre é legal quando está junto de orquestra, como fizemos em 2013 com Zé Ramalho e Sepultura, por exemplo. Lembrei da Camerata por dois motivos: primeiro porque sou fã do trabalho deles. É maravilhoso. Segundo, porque vi um show deles com o Lenine no CIC que me impressionou muito. Quando fui convidar a Camerata, eles toparam imediatamente. Isso foi antes do Steve Vai vir para Florianópolis (o cantor esteve na Capital em junho).
Sempre tive vontade de contribuir de alguma forma e ajudar a promover ainda mais o crescimento deles. Achei que o Rock in Rio poderia ajudar a fazer um estardalhaço de comunicação, que é o que a gente faz bem. E foi considerado um dos melhores shows dessa edição, o que me deixou muito feliz.

Leia mais sobre o show da Camerata Florianópolis e Steve Vai

Poderia estar no Palco Mundo?
Poderia, mas a gente optou pelo Sunset porque é um palco que cresceu muito. Claro que o Mundo é a cereja do bolo, mas há um trabalho muito bom no Sunset, que vem crescendo de tamanho, investimento e talentos. Já recebeu George Benson e Ivan Lins (em 2013), tivemos o show de homenagem à Cássia Eller, o de Baby do Brasil e Pepeu Gomes que há 27 anos não tocavam juntos... aquilo levou três anos pra fazer acontecer! É um palco de encontros com shows mais especiais.

Voltando a falar de Florianópolis, como você vê a cena musical local?
Florianópolis acabou virando polo de musica eletrônica, esse mercado se profissionalizou muito. No último verão, passaram por aqui vários grandes nomes que estão entre os tops do mundo. Mas não é uma cidade fácil pra fazer girar um negócio musical como o nosso. Falta uma boa arena. Temos teatros como o do CIC, maravilhoso, mas que muitas vezes inviabiliza grandes concertos por causa do tamanho. Também não há uma cultura de investimento de patrocínio. O Rock in Rio, por exemplo, alavanca mais de 100 milhões em patrocínio. Aqui você depende do resultado de bilheteria. Falta uma casa de espetáculos que possa atender a essa demanda, para que seja possível baratear o preço dos ingressos. É um mercado de bons músicos e talentos, mas falta a questão do negócio. Aqui, as coisas são geridas mais por amor do que por negócio.

Tem alguma banda ou músico local de quem você mais gosta?
Gosto muito do Dazaranha. Eles são maravilhosos.          
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