Crise na 10ª Bienal do Mercosul  Reprodução/Reprodução

Marca da 10ª Bienal do Mercosul

Foto: Reprodução / Reprodução

Uma crise nos bastidores da 10ª Bienal do Mercosul está reverberando na Internet nos últimos dias, desde que chegaram ao conhecimento público, por meio de sites e redes sociais, relatos de artistas e profissionais envolvidos na mostra. Esta edição está prevista para ser aberta no próximo dia 23. 

Três curadores assistentes solicitaram desligamento por meio de cartas endereçadas à Fundação Bienal do Mercosul: o argentino Fernando Davis, o chileno Ramón Castillo Inostroza e o brasileiro Raphael Fonseca. E pelo menos dois artistas – os colombianos Andrés Matías Pinilla e Nadín Ospina – manifestaram, em seus perfis no Facebook, contrariedade ao modo como vem sendo conduzida a preparação da mostra de arte contemporânea, bem como o tratamento recebido pelos artistas selecionados.

Completam a equipe curatorial desta edição os brasileiros Gaudêncio Fidelis (curador-chefe), Márcio Tavares (curador adjunto) e Ana Zavadil (curadora assistente), além do chileno Cristian G. Gallegos (curador do educativo).

A brasileira Regina Teixeira de Barros (curadora assistente) e a mexicana Carmen Cebreros Urzaiz (curadora assistente) também integravam o grupo inicialmente, mas não fazem mais parte da equipe de curadores – suas saídas não foram anunciadas, apenas deixaram de constar no material de divulgação enviado à imprensa e no site da Fundação.

Bienal do Mercosul é adiada
10ª Bienal do Mercosul divulga lista de artistas
Bienal terá obras inéditas na mostra, além de trabalhos que marcaram edições anteriores
"Bienal do Mercosul está confirmada", diz presidente José Antonio Fernandes Martins
10ª Bienal do Mercosul ganha perfil geopolítico com viagens de pesquisa pela América Latina
Em 2015, Bienal do Mercosul fará retomada de perfil dando foco à arte dos países da América Latina

A realização da 10ª Bienal do Mercosul em 2015 tem gerado incertezas ao longo deste ano. Em junho, diante do cenário que se instaurou com a crise econômica, o presidente da Fundação Bienal do Mercosul, o empresário José Antonio Fernandes Martins, garantiu em entrevista a ZH que "a Bienal está confirmada". O orçamento inicial de R$ 13 milhões foi reduzido para R$ 6,5 milhões – um corte de 50%. Os valores viriam de patrocínios de empresas como Petrobras, Gerdau, Itaú, Santander, Vonpar, Lojas Renner e DuFrio.

Na ocasião, o curador-chefe, Gaudêncio Fidelis, argumentou que, mesmo com uma reengenharia em processo envolvendo redução de custos, acreditava que o projeto não seria afetado. Nesta 10ª edição da Bienal do Mercosul, a ideia é dar foco à arte das Américas do Sul e Central.

Em julho, foi divulgada a lista de artistas participantes: mais de 400 nomes, representados por cerca de 700 obras. O tamanho com que a 10ª Bienal do Mercosul se apresentava ali já sinalizava uma grande operação a ser realizada para trazer obras de países das Américas do Sul e Central.

No começo de setembro, a Fundação Bienal do Mercosul divulgou nota oficial que confirmava os boatos que corriam sobre seu adiamento. Marcada anteriormente para 8 de outubro, a abertura foi transferida para o dia 23 de outubro, com encerramento em 6 de dezembro – seria um segundo adiamento, pois a primeira data, não divulgada, era no começo de setembro. No comunicado à época, o motivo da mudança de data foi justamente o argumento de dificuldades para o transporte de obras vindas de outros países.

Nos últimos dias, começaram a circular na Internet relatos vindos dos bastidores. Os curadores que pediram desligamento argumentam que decisões foram tomadas unilateralmente, sem que a equipe curatorial fosse consultada, o que impediria suas permanências nos cargos. Entre as mudanças, a decisão de que a 10ª Bienal do Mercosul apresentaria somente obras que estão no Brasil e em outros poucos países vizinhos – reduzindo o projeto original de transportar trabalhos de uma série de artistas localizados em diversos países da Américas Central e do Sul.

Na visão dos curadores que pediram desligamento, essa alteração, além de não ter levado em conta a opinião do grupo e o trabalho em diálogo, faria com que muitos dos países da América do Sul e Central perdessem a representatividade que teriam nas exposições em relação ao que o projeto curatorial propunha inicialmente. Sem contar que relações e compromissos de trabalho estabelecidos e firmados pelas viagens dos curadores simplesmente estariam sendo desconsiderados. Em última instância, artistas previamente selecionados e desde então envolvidos com os trabalhos para a Bienal teriam sido cortados das exposições, por dificuldades de transporte de suas obras por parte da 10ª Bienal, sem que tenham sido avisados ou comunicados pela instituição.

Em sua carta, o curador chileno Ramón Castillo escreve:

"Esta decisión que está argumentada como un problema económico lesionó gravemente mi trabajo de investigación curatorial que ya estaba organizado desde hacía varios meses antes y en ningún momento hubo advertencias o avisos previos para modificar el envío ni una previsión de que habrían problemas de financiamiento que permitieran, con una mejor organización, solicitar fondos en los países que se verían perjudicados en su representación en la Bienal. Este mail hizo evidente no sólo un problema económico, sino la falta de comunicación y el poco respeto de las competencias profesionales de los curadores asistentes, puesto que no había una información del equipo curatorial, y menos, una plataforma de trabajo común, dialogada, informada y negociada. En otros términos, suprimir el trabajo de los curadores asistentes de manera improvisada sin duda significa redefinir el sentido de la Bienal, que deja fuera de la versión actual las discusiones y nociones curatoriales que previamente se habían formulado"

Os artistas colombianos Andrés Matías Pinilla e Nadín Ospina se manifestaram em seus perfis no Facebook. Pinilla colocou no lugar de sua foto uma imagem com a interrogação da logomarca da Bienal do Mercosul, acrescida da frase "Contrabienal do Mercosur". Já Ospina fez a seguinte postagem em seu perfil no dia 9, atribuída ao curador Fernando Davis como um comunicado aos artistas:

"El pasado 21 de septiembre, a un mes de la inauguración de la Bienal, la Fundación Bienal del Mercosur comunicó al equipo de curadores por correo electrónico que, debido al impacto que la crisis económica de Brasil ha tenido en el presupuesto de la Bienal y ante la falta de patrocinios específicos que financien el traslado de las obras oportunamente seleccionadas, ha decidido solo mantener en la Bienal aquellas obras que se encuentran físicamente en Brasil, junto con las obras de aquellos países para los que se cuenta con un patrocinador que financie el traslado y las obras producidas para la Bienal o que por sus características materiales (fotografía o video, por ejemplo), permiten la realización de copias de exposición.

Esta decisión, tomada de manera unilateral por la Fundación Bienal, sin que mediara ninguna discusión previa con el equipo curatorial, deja afuera de la Bienal a muchos artistas de países como Argentina, Colombia, Chile, Perú y Venezuela, entre muchos otros. Se trata de una decisión que compromete seriamente no solo el guión curatorial de la Bienal y el trabajo de investigación y curaduría llevado a cabo por los curadores desde hace más de un año, sino también la integridad profesional de los artistas que fueron invitados a participar y anunciados oficialmente el 29 de julio y que comprometieron trabajo, tiempo y dinero en su participación en este evento. Tanto en términos profesionales como humanos esta decisión es absolutamente inaceptable y falta de ética, la Fundación Bienal, hasta la fecha no ha respondido los reclamos de los curadores ni ha enviado ninguna comunicación formal de disculpa a los artistas."
Comunicación de Fernando Davis a los Artistas de la Bienal

Todas essas informações foram publicadas em um tumblr e em um site e logo passaram a circular nas redes.

A ZH, o curador Fernando Davis disse:

– A Fundação Bienal do Mercosul nos informou em 21 de setembro que só tinha patrocínios para cobrir as remessas de certos países, como Paraguai e México. A decisão deixou de fora a maior parte dos artistas cujas obras devem ser transportadas de muitos outros países. Há obras nesses países, como mencionado, que estão fisicamente localizadas no Brasil, como o trabalho do argentino Lucio Fontana, ou porque eles são produzidas pela Bienal ou, no caso de vídeos, por exemplo, que é um formato que não depende de os custos de transporte. Para nós, a informação veio só em 21 de setembro, uma decisão na qual os participantes da curadoria não tiveram envolvimento. Considero inaceitável e decidi me demitir em 6 de outubro depois de ter pedido explicações sobre esta decisão, mas sem obter qualquer resposta da Fundação ou do curador-geral.

Ainda na segunda-feira (12/10), foi organizado no site change.org, pelo artista colombiano Andrés Matías Pinilla, um abaixo-assinado pedindo "Pronunciamiento ante la exclusión de artistas de la 10º Bienal del Mercosur". Na argumentação, consta falta de comunicação com os artistas por parte da Fundação Bienal do Mercosul a respeito de definições sobre o transporte de obras de outros países – e-mails enviados pelos artistas selecionados não teriam sido respondidos – diante da decisão da instituição de que, por conta das dificuldades colocadas pela crise, uma série de trabalhos de artistas estrangeiros não seriam mais trazidos ao Brasil. O problema, na visão dos artistas e também dos curadores desligados, foi a falta de diálogo e transparência, especialmente sobre o processo de produção envolvendo uma logística complexa a ser realizada em um cenário econômico instável, o que já sinalizaria obstáculos e, assim, demandaria maior planejamento e antecipação.

Diz um trecho:

"Los artistas invitados a participar en la 10º Bienal del Mercosur y las personas comprometidas con la cultura que adherimos a los términos de esta declaración, exponemos nuestro rechazo y exigimos respuestas por la medida tomada por la Fundação Bienal de Artes Visuais do Mercosul, de cancelar el traslado de nuestras obras y de las de otros muchos artistas anunciados en la lista oficial difundida públicamente el 29 de julio del presente año, correspondientes a Argentina, Colombia, Costa Rica, Chile, Guatemala, Perú y Venezuela, entre otros países, por falta de fondos. De esta situación nos hemos enterado por el voz a voz y no por un comunicado directo de la Bienal. Consideramos que esta medida, tomada a un mes de la inauguración, evidencia la falta de compromiso profesional y ético, por parte de la Fundación, con los artistas que en su momento fuimos invitados y confirmados, así como con el trabajo curatorial realizado durante más de un año por el cuerpo de curadores elegido por la Bienal y de quienes no tenemos duda de su calidad profesional y compromiso con las artes visuales de América Latina".

ZH procurou a Fundação Bienal do Mercosul, mas a instituição ainda não se pronunciou oficialmente. Na tarde desta segunda-feira (12/10), foram postadas fotos no perfil da Bienal do Mercosul no Facebook indicando que está ocorrendo montagem da mostra na Usina do Gasômetro.

Faltam 11 dias para a abertura. Conforme o projeto da 10ª edição, receberão mostras, além da Usina, espaços como Margs, Santander Cultural, Instituto Ling, Centro Cultural CEEE Erico Verissimo e Memorial do Rio Grande do Sul. A Casa de Cultura Mario Quintana e o Museu Júlio de Castilhos chegaram a integrar essa lista, mas não constaram mais nos materiais de divulgação.

ZERO HORA
 Veja também
 
 Comente essa história