Diretor de "No" volta com drama contundente sobre crimes da Igreja Imovision/Divulgação

Gonzalo Valenzuela em O Clube, de Pablo Larraín

Foto: Imovision / Divulgação

Assunto que a Igreja Católica costumava varrer para baixo do tapete – até o Papa Francisco determinar a instauração de um tribunal específico para isto, meses atrás –, os crimes de pedofilia cometidos por padres constituem o ponto de partida de O Clube, impactante filme chileno que estreia hoje no circuito. O título faz menção a um retiro no litoral do Pacífico onde vivem sacerdotes acusados de pecados ou delitos, entre eles o abuso sexual de crianças. A lógica que levou à criação do tal clube, que escancara a maneira como a Igreja lida com seus erros, é o que move o diretor Pablo Larraín – o mesmo da celebrada trilogia sobre a era Pinochet composta por Tony Manero (2008), Post Morten (2010) e No (2012).

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Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim, em fevereiro passado, O Clube não é um filme aconselhável a quem tem estômago fraco. A trama tem início com a chegada de um novo sacerdote ao local e uma consequente tragédia, sobre a qual talvez seja melhor não falar, sob pena de diminuir o impacto do espectador – causar impacto está no cerne dos propósitos de Larraín.

Apenas uma freira (Antonia Zegers) vive em meio aos padres, entre os quais se destaca Vidal, vivido por Alfredo Castro, que antes protagonizou Tony Manero e pôde ser visto também nos outros longas do diretor. É ela quem cuida dos homens. Com mão frouxa: eles criam um cão que participa de corridas, entre outras atividades de entretenimento que fogem à ideia de isolamento e penitência mais rígida que a Igreja tenta vender.

A citada tragédia inicial motiva o envio de um investigador, um padre psicólogo (Gonzalo Valenzuela) que, inicialmente, tenta coibir essas atividades. Só que nem tudo é exatamente claro em O Clube. Os religiosos vivem na escuridão, algo evidenciado por reiterados planos em contraluz – contra o sol, as lâmpadas e as janelas da casa em que moram. Quanto menos eles chamarem a atenção, melhor. O preço de mantê-los à sombra é que, o investigador logo se dará conta, poderá ser alto.

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Não há meios tons no exame das personalidades dos padres – esqueça as nuances de filmes como o Nazarín (1959) de Luís Buñuel ou, para ficar em um exemplo mais recente, as sutilezas do premiado longa francês Homens e Deuses (2010), de Xavier Beauvois. Definitivamente, não há caminho que faça escapar do pecado em O Clube. Ainda mais conforme se apresenta, insistente e ameaçadora, a figura de Sandokan (Roberto Farías), sujeito que foi abusado quando criança e hoje persegue os sacerdotes. De que maneira eles reagirão?

Você só vai saber lá adiante, no desfecho da trama, mas vale adiantar que a atitude dos padres e tudo o que ela desencadeia vai transformar O Clube em uma poderosa parábola sobre a moral católica de culpa, castigo e, principalmente, perdão. A "lógica ilógica" da indulgência cristã, para deixar claro o time em que Larraín joga. A pedofilia, parece dizer o cineasta chileno, é "apenas" o primeiro dos problemas.

O Clube
(El Club)
De Pablo Larraín
Drama, Chile, 2015, 97min, 2015.
Estreia nesta quinta-feira no Espaço Itaú 8 e no Guion Center 2, em Porto Alegre.
Cotação: 4 estrelas (de 5).

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